1. De volta.

Não haveria, para nós, criaturas, sequer a possibilidade de aprender e saber se não tivéssemos uma inteligência capaz de participar da inteligência divina (como que participando do seu “sistema operacional”, conforme a metáfora que vimos no último texto) e se não tivéssemos confrontados com objetos de conhecimento que estão plenos de “inteligibilidade”, ou seja, que foram concebidos com consistência e causalidade pela mente de Deus, de tal modo a poderem ser compreendidos pelas nossas mentes. Deus dá às coisas a inteligibilidade que elas transmitem a nós.

Esta é a maneira ordinária pela qual nosso intelecto se desenvolve: experimentando e assimilando a inteligibilidade das coisas. E em tudo isto está imediatamente presente a ação de Deus.

Com isto em mente, reexaminemos os argumentos iniciais e as respostas de Tomás a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respectivas respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o conhecer é uma atividade que se inicia e se conclui no intelecto daquele que passa pelo processo de aprender, ou seja, de sair da ignorância ao conhecimento. Diferentemente das atividades que transitam para a matéria externa (como esculpir ou pintar, que são chamados de processos transeuntes), aprender é essencialmente imanente ao sujeito que aprende. Ora, tudo aquilo que tem como causa um ente exterior àquele que passa pelo processo não pode ser chamado de processo imanente. Por exemplo, o processo de cura pode ter início no médico que cuida, e passa para o paciente, que é curado. É por isso que o processo de cura é transeunte, não imanente.

Assim, diz o argumento, Deus não pode ser causa direta, no processo de conhecimento do intelecto criado, porque este é um processo estritamente imanente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Como já repetimos várias vezes, Deus não se relaciona com o universo da mesma maneira que as criaturas se relacionam entre si. O poder de causalidade das criaturas é sempre secundário, derivado, dependente da ação divina em primeiro lugar. As coisas criadas são verdadeiras causas, mas são causas secundárias, que agem movidas, em primeiro lugar, pelo próprio Deus como causa primária que capacita as próprias causas secundárias a agir.

Assim, é claro que aprender é uma atividade personalíssima daquele que aprende. Sou eu quem aprende. Mas é Deus quem me dá a inteligência capaz de aprender e dá inteligibilidade às coisas que aprendo. É assim que todo o processo de aprendizagem, em meu intelecto, resulta diretamente de Deus como fonte primária, mas resulta inteiramente de mim como fonte secundária. Estes níveis de causalidade não competem entre si.

O segundo argumento objetor.

O segundo objetor também comete o mesmo erro de confundir a causalidade das criaturas, sempre secundária e derivada, com a causalidade divina, sempre primária e originária. O argumento diz que o processo de aprendizagem humana, de aperfeiçoamento intelectual pela aquisição de conhecimentos, pode ser inteiramente explicado por causas internas no próprio ser humano: o movimento do intelecto, ou seja, aquele caminho desde a ignorância até o saber, pode ser inteiramente explicado por causas humanas: nosso intelecto agente investiga os dados sensoriais e assimila as informações inteligíveis, conhecendo as coisas e conhecendo a si mesmo no processo. Não há necessidade de imaginar que Deus desempenhe qualquer função ou papel direto neste processo. Assim, Deus não provoca diretamente o conhecimento no intelecto de suas criaturas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que, no plano da causalidade criada, secundária, o processo de conhecimento pode se explicar como atividade do intelecto agente e sua luz, incidindo sobre os dados sensíveis sobre a coisa aprendida – que também é uma das causas do conhecimento, no plano da causalidade segunda. Mas tudo isto decorre, como causa primária, da inteligência divina e da inteligibilidade que ele insere na criação. Assim, em última instância, todo conhecimento, toda aprendizagem humana, todo movimento de nosso intelecto decorre Dele diretamente.

O terceiro argumento objetor.

Os nossos sentidos são estimulados pelos sensíveis, isto é, pelas dimensões das coisas que podem ser percebidas por eles: cheiros, cores, sons, etc. Nossa inteligência, por outro lado, é movida pelos inteligíveis, ou seja, justamente aqueles aspectos abstratos e universais da criação, que assimilamos pelo exame das coisas. Ora, Deus não pode ser sentido, nem pode ser inteligido pela nossa mente, que apenas pode aprender aquilo que pode experimentar sensivelmente de algum modo. Logo, Deus não exerce nenhuma influência direta, nem é capaz de mover nosso intelecto, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Deus, em si mesmo, está acima da nossa capacidade de conhecer. Então a essência de Deus mesma não pode ser conhecida por nós. Mas a inteligibilidade das coisas existe, em primeiro lugar, no intelecto de Deus, que as cria inteligivelmente. Assim, quando aprendemos, quando conhecemos, quando contemplamos as coisas criadas, chegamos, de algum modo, a conhecer o pensamento de Deus sobre aquelas coisas, de tal modo que é Deus que move, em última instância, o nosso intelecto, quando pensamos.

3. Concluindo.

A ciência, qualquer ciência humana, é resultado direto da relação entre a criação e Deus, e nossa capacidade de adquiri-la é resultado direto do fato de que somos semelhantes a Ele. Sem Deus, a inteligência humana vira fumaça, vira pó. Não pode funcionar. Neste sentido, não há oposição, mas verdadeira sintonia, entre fé e razão.