1. Retomando.
Nesta nossa era dos computadores, a humanidade descobriu uma característica própria dos sistemas informatizados: há necessidade de um “sistema operacional”, para que as máquinas possam receber e executar comandos; Diversos sistemas operacionais, como DOS, Windows, Linux e iOs, já foram desenvolvidos. Para nós usuários, ficou claro que os programas, que executam os comandos, precisam ser escritos na linguagem do respectivo sistema operacional do computador, para que sejam devidamente processados.
Usando, assim, da analogia, poderíamos dizer que, para que nossa inteligência seja capaz de aprender a partir da experiência com a natureza, seria necessário que tivéssemos o mesmo “sistema operacional” que gerou a criação, para que fôssemos capaz de “lê-la” e processá-la em nossas mentes. Neste sentido, para que nossa mente seja capaz de ter ciência da natureza, ela precisa participar da mesma estrutura, do mesmo modo de pensar que criou todas as coisas. Ou seja, precisamos participar do “sistema operacional” a partir do qual a inteligibilidade da natureza foi estruturada.
Qual “sistema operacional” é este? Ora, a resposta está na Bíblia, no início do capítulo 1 do Evangelho de João; o sistema operacional é a Segunda Pessoa da Trindade, o Verbo de Deus, o logos, que define a lógica pela qual tudo foi criado, e, portanto, a lógica pela qual tudo pode ser aprendido: Jesus Cristo. Diz o Evangelho (João 1, 1-3): “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito”. Eis o nosso “sistema operacional”. Uma vez que nossa inteligência foi criada como participação nesse mesmo logos, somos capazes de estudar e aprender a natureza. Assim, temos o Logos divino, a nossa inteligência que participa dele e as coisas criadas “nele”. Eis a estrutura da inteligência humana e da inteligibilidade do mundo.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O que é exatamente “mover” alguma coisa?
Atualmente, vivemos sob a influência da física de Newton, além, é claro, da visão espacial de Descartes. Assim, quando pensamos em conceitos como “movimento”, “motor”, “movido”, pensamos sempre no movimento espacial, naquele deslocamento de um corpo que sai do ponto “a” para o ponto “b”. Mas a filosofia clássica, adotada pelos escolásticos, entende o “movimento” como a aquisição de uma nova forma pela coisa; compreendendo-se “nova forma” como a aquisição ou alteração de alguma forma acidental. Por exemplo, uma parede amarela pode ser pintada de branco; neste caso, ela se move da forma acidental “amarela” para a forma acidental “branca”. Ou um pedaço de ferro é aquecido pelo fogo; neste caso, ele se move da forma acidental “fria” para a forma acidental “quente”. Também com relação ao deslocamento espacial, pode-se entender o movimento como a aquisição de uma nova forma acidental: ele muda da forma local “localizado no ponto ‘a’” para a forma acidental “localizado no ponto ‘b’”.
Neste sentido, consideramos que o movente, ou motor, é aquilo que dá a nova forma ao que é movido. Assim, o pintor move a parede amarela para a sua nova cor branca, colocando a tinta sobre ela, e assim por diante.
Usando este mesmo modo de pensar, podemos compreender o processo de aprendizagem como “aquisição de uma nova forma”: nosso intelecto ignora alguma coisa; logo, a forma da coisa não está em nosso intelecto. Em seguida, ele aprende sobre aquela coisa: o seu intelecto passa a conter aquela forma que antes ele ignorava. Um exemplo pode facilitar: se eu nunca ouvi falar, por exemplo, de ursos siberianos, isto significa que a forma do urso siberiano, sua species abstrata, não está ainda na minha mente. Mas, em seguida, meu professor de biologia dá uma aula sobre ursos siberianos, explica suas características biológicas, revela seus aspectos científicos e até permite aos alunos visitar um espécime que está no zoológico. O professor, neste caso, é o movente (ou motor) que leva meu intelecto do ponto “a” (ignorância) ao ponto “b” (conhecimento sobre o urso referido). E o meu intelecto é movido, recebendo a forma intelectual do urso como conhecimento.
Deus como movente do intelecto criado.
Neste sentido, Deus move o intelecto criado, fazendo-o passar da ignorância ao conhecimento, e o faz em duas dimensões:
1. Em primeiro lugar, Deus é a própria inteligibilidade. Foi ele quem primeiro pensou no universo criado como algo que faz sentido, que tem uma ordem interna, que tem consistência, que é capaz de causar e ser causado. E o fez porque o próprio Deus é inteligência, por ser o primeiro conhecedor, e porque seu intelecto é causa de toda inteligibilidade. Assim, quando Deus nos criou, ele colocou em nós a capacidade de assimilar a inteligibilidade daquilo que ele criou. Nossa inteligência, portanto, tem (falado de modo metafórico) o sistema operacional próprio para aprender, assimilar a inteligibilidade que Deus colocou nas coisas. A inteligência de Deus é, portanto, a primeira fonte da nossa própria capacidade de aprender.
2. Em segundo lugar, todo objeto de conhecimento existe porque foi, em primeiro lugar, pensado por Deus para ser inteligível. Quando, digamos, um botânico estuda uma pequena e bela flor, muito rara, que descobriu na natureza, ele percebe que aquela flor tem uma estrutura, pertence a alguma espécie que tem proximidade biológica com outras espécies semelhantes, floresce deste ou daquele modo, ocorre neste ou naquele ambiente, e assim por diante. Ele pode descobrir todas estas características daquela pequena flor exatamente pelo fato de que a flor de fato exibe estas características, que ele pode examinar e descobrir. E ela o faz porque Deus, ao pensar nela em primeiro lugar, colocou nela estas características em especial. Do mesmo modo que o namorado sabe distinguir entre a carta que recebeu da namorada, com lindas palavras de amor, de um papel sujo pelos dedos de um macaco, e o faz porque sabe que há uma inteligência que escreveu a carta de amor que recebeu da namorada, o cientista sabe que pode examinar a flor em busca de evidências que serão registradas na ciência botânica, porque estas evidências estão de fato inscritas na flor. Neste sentido, toda ciência, todo conhecimento, adquirido pelo ser humano, é como receber uma carta de um amigo: trata-se de um conhecimento que nasce na mente de Deus, inscreve-se nas criaturas e é recebido pelo intelecto criado.
Portanto, Deus move nosso intelecto, em primeiro lugar por capacitá-lo a conhecer a inteligibilidade das coisas, fazendo-o participar da própria maneira divina de pensar, e, em segundo lugar, por imprimir nele as formas das coisas conhecidas, que estão em primeiro lugar na mente de Deus e, em segundo lugar, nas próprias coisas criadas.
3. Encerrando.
Deus governa o universo também tornando-o aberto à nossa inteligência; capacitando-nos a conhecer e fornecendo, de fato, o conhecimento de que precisamos. Cada coisa que existe é uma palavra de Deus, pronunciada em Sua Palavra que é o Filho. O Filho é como que o “sistema operacional” pelo qual todas as coisas existentes são pronunciadas e podem “rodar” seu “programa”. Quem lê o primeiro relato de criação da Bíblia pode perceber isto. E, como o namorado é capaz de reconhecer o amor da namorada ao decifrar a linda carta de amor que recebe, nós também deveríamos ser capazes de ver, em cada conhecimento intelectual, em cada ciência, o tamanho do amor de Deus por nós. Não é raro que os cientistas venham a reconhecer isto.
No próximo texto, veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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