1. Retomando.

Encerramos o texto anterior com a pergunta: no paraíso, se o ser humano tivesse permanecido na graça, frente a prova da tentação demoníaca?

Não podemos saber isto com certeza, porque esta é uma situação hipotética, e não há uma resposta revelada e clara sobre isto. Mas podemos imaginar que, de algum modo, o ser humano entraria numa relação de tal intimidade com a Trindade que acabaria por alcançar, de algum modo, a glória beatífica, indo ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Não há outro caminho para a glória.

Como isto se daria, não temos como saber. Sequer sabemos ao certo se Maria Santíssima, que nasceu imaculada e viveu em plena graça, teve que passar pela morte para alcançar a glória da assunção que goza hoje. Ao definir esta verdade de fé, a Igreja não deu nenhuma palavra definitiva sobre o modo dessa passagem. Ao proclamar o dogma na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, o Papa Pio XII simplesmente nos diz que “a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. Como se deu esse término do curso da sua vida terrestre, o Papa não diz. Logo, de modo análogo, também não podemos saber como se daria o fim do curso da vida celeste dos nossos primeiros pais, se não houvessem caído.

Tendo encerrado, assim, a conversa sobre a resposta sintetizadora de Tomás, examinemos as respostas que ele dá a cada argumento objetor.

2. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O anjo foi criado no céu espiritual, ou seja, ali onde é seu habitat natural. Ora, já vimos que o paraíso é o habitat perfeito para o ser humano imaculado, antes da queda. Logo, de modo análogo ao dos anjos, o ser humano já foi criado no paraíso, propõe o argumento.

A resposta de Tomás.

Os anjos são espirituais, puramente espirituais. Assim, foram criados espiritualmente, e esta dimensão em que vivem é chamada por nós de “céu espiritual”, ou “céu empíreo”, como chamavam os medievais. É o seu “lugar” (usando a palavra aqui em sentido metafórico, já que seres espirituais não estão propriamente confinados a um “lugar”) natural. Mas, como já vimos no Tratado dos Anjos, eles receberam a graça necessária para tomar sua decisão fundamental por Deus ou contra ele. Esta é a situação final dos anjos: os que, com a graça, optaram por Deus, vivem na glória como Santos Anjos. Os que o renegaram são o Diabo e seus Demônios, decaídos para sempre. De certo modo, portanto, podemos dizer que a graça lhes foi concedida, no estado original, para que alcançassem (ou não) livremente seu estado definitivo, que, sem a graça, seria inalcançável.

Assim, fazendo uma analogia livre com nossos primeiros pais, eles foram criados e receberam a graça que os fez viver no paraíso. Sem a graça, não estariam no paraíso. É isto que Gn 2, 15, quer dizer. Mas, ainda assim, o paraíso não é a glória do estado final, da visão beatífica. Seria necessário que os seres humanos, na graça, optassem livremente por Deus; foram testados e não o fizeram. Caíram.

O segundo argumento objetor.

Cada animal tem um habitat próprio, no qual ele sobrevive e do qual, se for retirado, perece. Assim, os animais aquáticos foram criados na água, e se forem retirados da água, perecem. Os animais terrestres foram criados na terra firme e, se foram mergulhados na água, podem morrer.

Ora, o paraíso é o habitat próprio do ser humano, no qual ele deveria desenvolver sua vida. Logo, ele já foi criado ali, e pertence, por natureza, a esse lugar, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás considera que este argumento já está suficientemente respondido: sem a graça não há como estar no paraíso. Nós, ousadamente, aduziríamos mais um argumento: o fato de que os peixes morrem se retirados da água mostra que a água é seu lugar natural; mas o seres humanos, após a queda, não morreram ao serem retirados do paraíso. Isto é um indicativo de que, embora o paraíso seja o habitat perfeito, ele não o é no sentido natural, de único lugar com os meios para a sobrevivência daquela espécie. Na verdade, somos uma espécie de animais com uma característica peculiar: ansiamos, em nossos corações, por uma felicidade que não está ao nosso alcance natural. Somos os únicos animais com esta característica.

O terceiro argumento objetor.

A narrativa bíblica de Gn 2, 22, a mulher surgiu já no paraíso. Ora, mulher e homem têm a mesma dignidade; logo, não faria sentido que o homem fosse criado fora do paraíso e a mulher, dentro dele. Também a prole que viesse a nascer dos dois já nasceria no paraíso. Não teria sentido, portanto, dizer que somente o homem foi criado fora do paraíso e colocado ali posteriormente por Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Foi a espécie humana colocada no paraíso; a mulher, no sentido de diferenciação sexual, aconteceu no paraíso. Neste ponto, podemos pedir licença a Tomás para pensar nas catequeses de Teologia do Corpo proferidas por São João Paulo II: a diferenciação sexual da humanidade em homens e mulheres é uma realidade paradisíaca, quer dizer, ocorre dentro do paraíso e leva à geração da prole. Não é à toa, diríamos então, que o matrimônio é um sacramento: na relação com aquele que tem o sexo oposto, sempre está incluída a graça, porque é sempre uma busca da completude original, que envolve a completude da amizade com Deus. A fecundidade, portanto, também envolve a relação do ser humano com Deus.

6. Conclusão.

Nossa natureza é incapaz de plenitude sem a relação com Deus. E a relação com Deus não é de nossa natureza: não temos direito a ela, não podemos prescindir dela, mas não podemos nos realizar sem ela. Tudo isto cabe neste pequeno artigo: é de fundamental importância saber por qual motivo Deus não nos criou já no paraíso, mas nos colocou lá, após nos criar. Porque o paraíso, para ser vivido, depende da graça, e a graça não é natural nem devida. É grátis. E é surpreendente que a primeira atitude nessa relação que dá o paraíso ao ser humano seja uma atitude de Deus: criou-nos em natureza, tomou-nos pela graça, eis que estamos no paraíso.

Então somos seres, de certo modo, curiosos: o paraíso é o nosso habitat, mas nós não somos naturalmente aptos a alcançar o paraíso. Peculiar condição humana. Há em nós uma saudade infinita: como dizia Santo Agostinho: fomos criados para vós, Senhor, e nosso coração não repousa senão em vós.

Os antigos costumavam dizer que o ser humano é capax dei, quer dizer, é capaz de Deus, mas essa capacidade é apenas passiva, obediencial. Quer dizer, a elevação pela graça não destrói nem modifica nossa natureza, porque nossa natureza tem a capacidade natural de ser elevada e de viver em amizade com Deus. Mas, sem a elevação da graça, não somos capazes de alcançar naturalmente esse patamar elevado pelo qual ansiamos.

E Deus o faz, antes mesmo que Adão possa fazer qualquer coisa. Como o Papa Francisco gosta de dizer, Deus nos “primeireia”, ou seja, ele nos concede a graça antes mesmo que o conheçamos, ou que venhamos de algum modo a merecê-la. Não há como chegar a Deus se ele não chegar em nós primeiro. Não fomos criados no paraíso, portanto. Fomos elevados para lá. E depois escolhemos cair de novo.

Mas se o ser humano já fosse criado no paraíso, então a graça não existiria nesse primeiro momento: nenhuma elevação seria necessária, porque o paraíso seria nosso ambiente vital. Seríamos criados com direito a Deus, assim como o fato de termos pulmões nos leva a termos direito a que exista o ar para respirar. Mas ninguém, nenhuma criatura, tem direito à amizade com Deus. Natureza e graça. Estão presentes desde o início, e Deus permita que estejam presentes também no fim.

Assim, concluímos o Tratado do Ser Humano, ou Tratado Antropológico da Suma Teológica. É o penúltimo Tratado desta Primeira Parte. No próximo texto entraremos no Tratado sobre o Governo Divino, que é o último Tratado desta primeira parte. Como prenúncio às Partes subsequentes, neste Tratado veremos o modo pelo qual Deus mantém e governa aquilo tudo que ele criou, e que nós estudamos nos Tratados anteriores.