1. Introdução.
Pode parecer um tremendo preciosismo fazer um artigo inteiro, na Suma, para interpretar um pequeno trecho de versículo de uma narrativa de criação que, na mente dos nossos contemporâneos (e de alguns contemporâneos de Tomás) não é mais do que uma fábula ou mito. O trecho em questão está em Gn 2, 15a: “E o Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden”. Ora, qual a importância desse texto para nós, hoje? E qual a importância desse texto na história da Igreja e na compreensão do ser humano?
Enorme, e Tomás nos demonstrará. De fato, a natureza do ser humano, por sua criação mesma, não o põe no paraíso. Deus não criou o ser humano de tal modo que ele se bastasse a si mesmo, que ele encontrasse suas delícias, sua consumação, sua plenitude, em si mesmo. A natureza do ser humano não é capaz de completá-lo, de realizá-lo, de levá-lo à plenitude, se Deus não o apanhasse e colocasse no paraíso. Em suma, o paraíso é graça elevando a natureza. Somente Deus vive no paraíso por natureza. Foi assim no início, é assim hoje, sempre será assim. Mesmo os nossos primeiros pais, imaculados e perfeitos, precisaram que Deus os tomasse e colocasse no paraíso.
Mas estamos nos adiantando, porque o assunto é interessantíssimo. Vamos examinar o próprio artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial propõe que o paraíso é o estado natural do ser humano imaculado, e que nós não dependeríamos da graça de Deus para viver ali. Ou seja, fomos criados já como seres paradisíacos, naturalmente paradisíacos, como o peixe é um animal naturalmente aquático ou o leão é um animal naturalmente carnívoro. Ou seja, no estado anterior à queda, nossa natureza não precisaria de nenhuma elevação, não precisaria ser tomada por Deus e elevada para viver no paraíso. No paraíso, então, Adão e Eva não viveriam em estado de graça, porque não precisariam de nenhuma graça, mas seriam felizes e plenos por natureza. Em suma, a hipótese propõe que Adão e Eva já foram criados diretamente no paraíso, propõe a hipótese. Há três argumentos objetores neste sentido.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer provar que o ser humano pertence naturalmente ao paraíso, e que a graça de Deus não seria necessária para elevá-lo de modo a que ele pudesse viver lá. Este argumento lembra que os anjos já foram criados no céu espiritual, que é seu lugar natural de existência. Ora, já vimos que o paraíso é o habitat perfeito dos seres humanos. Assim, não seria necessário que Deus o elevasse de modo algum: ele já foi criado com a aptidão natural de viver no paraíso, e já foi criado diretamente nele, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Cada ser vivente é criado no seu habitat natural. Os peixes foram criados na água, os leões, na floresta e assim por diante. Ora, o habitat natural do ser humano é o paraíso, como vimos no artigo anterior. Logo, o ser humano foi criado já habitando o paraíso, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Segundo a descrição de Gn 2, 22, a mulher foi feita já no paraíso. Ora a mulher não é mais digna do que o homem, ambos são iguais em dignidade. Portanto, se a mulher foi feita no paraíso, o homem também o foi, e ambos pertencem a ele por natureza, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
Como sabemos, o argumento sed contra tenta desconstruir a hipótese inicial.
O argumento simplesmente transcreve Gn 2, 15a, que afirma categoricamente que o Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden. Ora, prossegue o argumento, se Deus tomou o homem e o colocou no paraíso, é porque ele não foi criado ali; vale dizer: o ingresso e permanência na situação paradisíaca, mesmo para o ser humano imaculado antes da queda, dependia de receber a graça de Deus. Portanto, conclui este argumento, o ser humano não foi criado já no paraíso.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Em primeiro lugar, devemos reafirmar o que já foi debatido no artigo anterior: o paraíso era o habitat adequado para o ser humano. Ali, ele estaria em paz, receberia tudo o que precisava para a manutenção de sua natureza e ainda seria preservado de qualquer perigo: do desgaste, da corrupção, da destruição e da morte.
Ora, sabemos que a natureza humana é uma natureza mortal. Portanto, essa preservação, que ele experimentava no paraíso, e que o protegia da corrupção e da morte, não era algo natural para ele: era um dom, algo acrescentado à sua natureza por bondade divina. Ora, para tornar claro o fato de que a incorrupção e a imortalidade eram graças e não características naturais do ser humano é que a Bíblia nos ensina que o ser humano não foi criado no paraíso, mas foi tomado por Deus e colocado no paraíso, isto é, foi elevado, pela graça, para viver uma vida enriquecida por dons que não são próprios da sua natureza, mas decorrem de uma vida imaculada e em amizade com Deus, ou seja, decorrem da graça.
6. Encerrando.
E o que ocorreria no paraíso, se o ser humano tivesse permanecido na graça, frente a prova da tentação demoníaca?
É o que veremos no próximo texto.
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