1. Introdução.

No texto anterior, dizíamos que o fato de que o pecado desequilibrou o meio ambiente, e que o ser humano decaído não consegue se relacionar bem com a natureza criada não nos deve levar a desenvolver um ódio contra nós mesmos, como se a eliminação do ser humano, ou ao menos sua drástica redução, seria um bem para a criação. O contrário de destruição ambiental não pode ser intocabilidade ambiental, mas harmonia na relação. Portanto, os movimentos ambientalistas que desenvolveram um anti-humanismo, e defendem, em nome do resgate da natureza, coisas como o controle legal de natalidade, o aborto, a eutanásia eLaudato Sí as relações infecundas não podem ser abraçados por nós. Cremos, e o Papa Francisco ensina na , em sintonia com toda a Doutrina Social da Igreja, que não estamos fora, nem além, da criação. Somos criaturas em meio às criaturas. Esta é a noção de ecologia integral que ele traz, e que parece muito em sintonia com o que se debate neste artigo.

Também a fecundidade está envolvida aqui. Formar a prole, transmitir a ela o que somos e o que sabemos, não deixar que a história se perca, dar em herança nossa própria fé, nossa própria cultura, nosso próprio saber construído. Tudo isto parece ser tarefa, não castigo.

Aqui, o objetivo é debater justamente esta hipótese: será que a criação deve permanecer intocada, será que o ideal seria a imutabilidade da criação, por respeito a Deus? Somos invasores ou somos coautores do mundo, responsáveis por desenvolver cultura e história, de modo a enriquecer, e nunca a destruir? Ou somos colaboradores de Deus no trabalho de aperfeiçoar sua criação?

De fato, em Gn 2, 15, a Bíblia diz expressamente que Deus colocou o homem no paraíso para “cultivá-lo e guardá-lo”. Interessa saber, pois, o que significam estas palavras. Acompanhemos este belo debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial parece pressupor que o paraíso, como criação de Deus, já era completo e fechado, de tal modo que nada restaria aos seres humanos, ali, senão a contemplação. Os primeiros pais, no paraíso, já estavam dotados de todas as virtudes, morais e intelectuais, de modo que já não precisavam de aperfeiçoamento. Por outro lado, o paraíso saíra perfeito e completo das mãos de Deus, de modo que não precisava de trabalho ou cultivo. Apenas o pecado trouxe a necessidade de trabalhar, para o ser humano. Assim, a hipótese propõe que o ser humano não foi colocado no paraíso para cultivá-lo. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor menciona que o trabalho (sintetizado na ordem de fazer os campos produzirem alimento, com o suor do próprio rosto, Gn 3, 17-19) foi determinado ao ser humano, por Deus, como castigo pelo pecado original. Ora, aquilo que é castigo não podia existir no paraíso, antes da queda. Logo, não havia necessidade de que o ser humano estivesse no paraíso para cultivá-lo, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Em Gn 2, 15, além da tarefa de cultivar, menciona-se também a tarefa de guardar o paraíso. Ora, não havia, no paraíso, nenhuma ameaça externa ou interna a temer, mas havia o estado de paz absoluta, que excluía qualquer possibilidade de ataque ou destruição. Logo, não havia nada a ser guardado, ali. Portanto, o ser humano não foi colocado no paraíso para guardá-lo, porque isso não era necessário, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Se o homem tivesse sido colocado no paraíso para cultivá-lo e guardá-lo, isto significaria que a finalidade do homem seria o bem do paraíso, e não que o paraíso fosse feito para o homem. Ora, isto é falso: o homem, sendo imagem e semelhança de Deus, é mais digno do que o paraíso, e portanto o paraíso existe para o homem, e não o homem para o paraíso. Logo, é falso que o homem tenha sido colocado no paraíso para cultivá-lo e guardá-lo, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra simplesmente toma a autoridade da Escritura, que diz (Gn 2, 15): O Senhor tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e guardar. Ora, se isto é palavra de Deus, então é claro que o ser humano deveria cultivar e guardar o paraíso, conclui o argumento.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

A Bíblia claramente afirma que fomos colocados no paraíso para cultivá-lo e guardá-lo (Gn 2, 15). Há, segundo Santo Agostinho, duas maneiras pelas quais podemos interpretar esta passagem:

1) A primeira maneira é entender que Deus colocou o homem no paraíso e o próprio Deus cultivaria e guardaria o ser humano; o cultivo do ser humano por Deus ocorre pela graça, que impele o ser humano a Deus e o aperfeiçoa, de tal modo que, sem a graça, cairíamos na escuridão, como o apagar de uma lâmpada mergulha a casa em trevas. Guardar o ser humano significaria que Deus mesmo estaria atento para livrá-lo de toda a ameaça de corrupção e de mal. Assim, por este modo de interpretar, cuidar e guardar seriam missões de Deus no paraíso e não dos seres humanos.

2) O segundo modo de interpretar diz que essas ordens, de cultivar e guardar, não são dirigidas a Deus, mas ao próprio ser humano, que deveria colaborar com a obra de Deus, completando-a e transmitindo-a com a sua liberdade; essa tarefa, no entanto, seria leve e agradável; o pecado é que transformou essas tarefas em pesadas e desagradáveis (Gn 3, 17-19). Então o que é estabelecido como castigo pelo pecado original não é o próprio trabalho, mas o fato de que ele se torna penoso e desagradável. Quanto ao dever de guardar, trata-se da ordem para que as coisas fossem adequadamente preservadas e transmitidas, reconhecendo que tanto aquilo que Deus criou, quanto o resultado do labor do ser humano são bons, devem ser mantidos e transmitidos, devem ser preservados da corrupção e do pecado.

Deste modo, vê-se que o paraíso foi criado para o ser humano, e não ao contrário. Cultivando-o e guardando-o, o ser humano cultiva e guarda a si mesmo em primeiro lugar, porque tudo reverte para seu próprio bem e para a maior glória de Deus.

Assim, quanto ao primeiro argumento, dizemos que o cultivo e a guarda não são castigos, mas dons, e que o castigo é simplesmente o fato de que, após a queda, essas tarefas se tornaram penosas e pouco frutíferas.

Quanto ao segundo, vemos que guardar, aqui, não implica a existência de ameaças e perigos, como se a paz no paraíso não fosse completa, mas significa reconhecer a obra de Deus e a cultura humana como essencialmente boas, cuidar delas e transmiti-las.

Finalmente, quanto ao terceiro, vimos que tudo isto tem como fim último o bem do ser humano, não o próprio bem do paraíso. Portanto, o paraíso está ordenado ao ser humano, e não o contrário. Isto é algo que sempre devemos lembrar, quando pensamos, por exemplo, em termos ambientalistas ou ecologistas.

6. Conclusão.

Será que produzir cultura (cultivar) e transmiti-la (guardar) não são realmente tarefas paradísíacas, mas castigos pelo pecado? É claro que não. Trata-se de missão, não de punição.

Há dois âmbitos em que o atuar humano completa a criação: o agir (práxis) e o fazer (poiesis). Nenhum dos dois resulta da queda, mas ambos fazem parte do próprio chamado do ser humano à existência. Mesmo no paraíso havia o que cultivar (poiesis); a criação é uma obra aberta, e o ser humano é chamado a colaborar com Deus. . Também havia a necessidade de buscar o bem para si mesmo (práxis), o que se vê muito bem da interação de nossos primeiros pais, Adão e Eva, com a serpente (Gn 3, 1-7), no qual se descreve este episódio em que nossos pais falharam em optar por Deus.

Práxis e Poiesis se completam pela fecundidade do ser humano que gera descendência; gerar não é, para nós, um fato meramente biológico, mas verdadeira transmissão: transmissão de cultura, transmissão de virtudes, transmissão de conhecimento. Tudo isto é chamado de Deus, não resultado do pecado. O ser humano teria uma cultura, mesmo no paraíso.

O Paraíso é um estado de perfeição; e este estado de perfeição inclui a abertura para nosso agir. Quer no âmbito do trabalho (poiesis), que implica transformar o mundo, quer no âmbito da ética (práxis) que implica construir a nós mesmos e transmitir o que somos, estamos diante de verdadeira vocações, tarefas, desafios, interpelações. E não de castigos.