1. Voltando.

Como tudo o que é humano,  a sexualidade integrada possui uma unidade biológica e espiritual inseparável; e como tudo o que foi maculado pelo pecado original, possuímos a tendência a separar essas instâncias e tornar fraturado aquilo que Deus criou de modo integrado. Por isso, distorções como a promiscuidade, a pornografia, a infidelidade conjugal, a separação entre sexo e fecundidade e mesmo a união sexual não complementar,  não exclusive e também fechada à fecundidade, a eliminação artificial da fecundidade e a reprodução artificial fora da atividade sexual matrimonial deveriam repugnar nossa inteligência, porque são profundamente irracionais: são injustas com o outro e com a prole, são socialmente injustas e ferem muito claramente a dignidade humana dos envolvidos,  tanto dos praticantes quanto dos que as promovem e contemplam. Como pode acontecer que estas atividades tragam tanto prazer a nossos sentidos, e como pode ser que façam tanto sucesso em nossos dias, a ponto de alavancarem indústrias como a da pornografia e do aborto, e tornarem a política e o Estado cegos para o significado propriamente humano da sexualidade matrimonial e sacramental? Tudo isso só se explica pela desordem provocada em nós pelo pecado original. Porque, se fôssemos imaculados pelo pecado e ordenados de modo propriamente humano, com o perfeito domínio da inteligência sobre a biologia (que é de integração e não de negação), somente o sexo racional (unitivo, complementar,  exclusivo, fecundo) traria o prazer adequado.  Todas as atividades diferentes destas nos repugnariam, por irracionais. Mas no estado atual, de fragmentação e contradição,  de afastamento de Deus e perda de sentido humano,  o irracional parece mais deleitável que o racional. Não é à toa que o próprio Kant chamava a ética de “atitude moral em luta”. A luta de nossa inteligência contra nossa sensibilidade. Ou seja, a fragmentação pós lapsária.

Mas deixemos de digressões. Examinemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento diz, citando São João Damasceno, que, antes do pecado, nossos primeiros pais viviam “como se fossem anjos” no paraíso. Ora, o próprio Senhor ensina que na ressurreição “viver como anjos” significa não ter mais atividades conjugais (Mt 22, 30). Logo, não havia atividade sexual no paraíso, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Como seres humanos integrais e integrados, temos uma dimensão semelhante aos anjos: a nossa alma espiritual. Mas somos seres biológicos com alma espiritual, numa unidade incindível. E assim éramos no paraíso,  antes do pecado original, quando os efeitos da queda ainda não tinham estabelecido a nossa desordem interior. Assim, diferentemente dos anjos, estávamos prontos para uma atividade sexual virtuosa, ordenada e profundamente prazerosa. 

Jesus, por outro lado, na passagem de Mateus 22, 30, fala da ressurreição final, em que nossos corpos já não serão biológicos, mas espirituais, como ele próprio se manifestou na sua ressurreição gloriosa. Ali, ensina ele, seremos semelhantes aos anjos no fato de que já não haverá reprodução biológica, e portanto não haverá atividade sexual. O estado final de glória não guarda, portanto, identidade com o estado inicial de inocência de nossos primeiros pais no paraíso. 

O segundo argumento objetor.

Somente há relato de atividade sexual, na Bíblia,  em Gênesis 4, 1, e isso ocorre depois da queda pelo pecado original. Ora, no paraíso,  Adão e Eva eram adultos, lúcidos e humanamente completos. Podiam ter sexo, mas a Bíblia não faz referência a nenhuma atividade sexual antes da queda. Logo, de acordo com a Bíblia, não houve sexo no paraíso antes da queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás. 

Do fato de que a Bíblia não menciona nenhuma atividade sexual entre Adão e Eva antes da queda, não podemos concluir que isso não existiu. As Escrituras revelam aquilo que é necessário à nossa salvação. É perigoso concluir alguma coisa simplesmente a partir do silêncio bíblico. E não há outro sentido em imaginar o sexo no paraíso senão contemplar a própria desordem profunda que ele apresenta para nós após a queda.

Mas, mesmo considerando o silêncio bíblico, diz Tomás, podemos, seguindo a lição de Santo Agostinho, imaginar pelo menos duas razões pelas quais, embora fosse possível, a atividade sexual não chegou, de fato, a ocorrer no paraíso:

1. Pode ter acontecido que a queda tenha sobrevindo logo após o estabelecimento da diferenciação sexual entre Adão e Eva, ou seja, da consciência intelectual do outro e da complementaridade. Assim, sucumbindo à tentação satânica do orgulho frente a Deus, não tiveram tempo de experimentar o sexo perfeito e imaculado do paraíso; ou 

2. Sendo perfeitamente ordenados, Adão e Eva aguardavam para apresentar sua união matrimonial a Deus, prenunciando o matrimônio sacramental,  quando foram tentados e caíram.

Qualquer das duas hipóteses mostra que o silêncio da Bíblia não nega a perfeição do ato sexual no paraíso.

 O terceiro argumento objetor. 

A atividade sexual, em sua crueza biológica, aproxima muito os seres humanos dos animais irracionais. A própria intensidade do prazer corporal subjuga, ainda que momentaneamente, a razão. É por isso que a capacidade de temperança,  que envolve a recusa ao sexo inoportuno,  ou até mesmo a abstinência e o celibato, são vistos como caminhos de ascese e aperfeiçoamento humano.

O efeito do pecado consiste justamente em nos tornar menos semelhantes a Deus e mais semelhante aos animais irracionais,  como diz o Salmo 48, 13: ele se fez semelhante ao gado gordo que se abate. Assim, o coito, tão animalesco em si mesmo, é resultado da queda pelo pecado original,  e não algo que pudesse existir pelo próprio desígnio de Deus no paraíso,  conclui o argumento. 

A resposta de Tomás. 

Na nossa realidade, marcada pela queda e pelos efeitos do pecado, a materialidade do ato sexual realmente pode nos aproximar mais dos animais irracionais do que do fato de sermos imagens de Deus. De fato, as paixões envolvidas nas inclinações sexuais têm sido, ao longo da história, fonte de violência e irracionalidade. Estupros, atos despudorados, violência sexual, seduções, adultérios, abortos, filhos abandonados, tudo isso tem relação com a desordem sexual. A pulsão sexual pode levar, também, à animalidade do prazer, que é a busca da gratificação libidinosa a qualquer custo, ou até mesmo à conduta irrefletida em razão das paixões sexuais. Isso para não mencionar o fato de que o próprio ato sexual, em seu agudo momento de prazer, pode levar à falta de autocontrole e a uma perda de autodomínio. Por tudo isso, a força da pulsão sexual pode, de fato, levar alguém ao comportamento irracional, animalesco. 

No paraíso, porém, a pulsão sexual continuaria sendo intensa – talvez ainda mais intensa, mais gratificante, do que hoje, porque seria perfeitamente submetida à razão e, portanto, não seria algo que perturba, que cega, que leva ao desatino, mas seria realmente a expressão da união, da doação recíproca, complementar e exclusiva, que se abre à vida e, portanto, pode ser desfrutada em toda a sua intensidade sem cegar, sem descontrolar, sem animalizar. 

É por isso, diz Tomás, que no paraíso nunca haveria virtude no celibato e na abstinência sexual, porque a pulsão sexual seria sempre racional, adequada e virtuosa e aberta à vida. Em suma, o sexo seria muito mais intenso, agradável e deleitável no paraíso do que hoje, porque não envolver irracionalidade, objetificação de algum ser humano nem a dissociação entre prazer e fecundidade

O quarto argumento objetor.

Não haveria, no paraíso, nada que lesasse a integridade física das pessoas humanas. Ora, o sexo pode lesar a integridade física, não apenas pelo rompimento do hímen, mas pela fricção ou mesmo pela reprodução, ou seja, pela gravidez e pelo parto, que são atividades muito exigentes do ponto de vista biológico; logo, não existiria no paraíso, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

O sexo seria, no paraíso, algo imune a desprazeres ou a lesões físicas. Seria uma atividade biologicamente adequada, perfeitamente harmoniosa e completamente em adequação com o corpo. Assim, não ocorreriam quaisquer lesões, mesmo de rompimento de hímen ou mesmo de parto, porque essas atividades seriam feitas de um modo simplesmente fisiológico, adequado, e o corpo seria capaz de ajustar-se, de modo a possibilitar a realização dessas atividades sem nenhum risco ou lesão ao corpo humano. Também o parto ocorreria de um modo natural, simples, harmonioso, sem dores ou lesões. Qualquer desconforto, lesão, dor, ferimento ou mesmo dificuldade relacionada com o sexo, a gravidez e o parto decorrem da queda, que prejudicou a harmonia e feriu a natureza humana, conclui Tomás. 

3. Concluindo.

Muito bom resgatar a belíssima visão de Tomás sobre a sexualidade, o prazer sexual, a harmonia entre homem e mulher e a alegria da gravidez e do parto no paraíso. Ali onde as relações eram harmoniosas, racionais, adequadas, complementares, respeitosas e virtuosas, que envolviam o amor por Deus e pelo outro, o prazer só podia ser mais intenso, mais perfeito, mais forte do que sentimos hoje. O sexo que envolve qualquer tipo de desordem na relação com Deus e com o outro é sempre menos prazeroso, não mais. Ainda hoje, viver uma relação sexual que renuncia ao pecado e se expressa na retidão do amor é fonte de mais prazer. Mas nós, na desordem em que vivemos, não nos damos conta disso.