1. Retomando.
O sexo é algo maravilhoso, se realizado humanamente; isso envolve a doação exclusiva e a união de corpos e almas, com abertura à vida e consciência da colaboração na obra de Deus. Não pode haver sexo mais alegre e cheio de prazer do que aquele que satisfaz os requisitos da razão, porque o ser humano tem seu sentido, sua razão de ser, na ordenação de todas as coisas pela razão.
É certo que o prazer sexual desordenado, resultado do pecado original – e dos pecados atuais – ainda é bastante intenso, e Deus não deixa de se valer dessas uniões para gerar seus filhos – quando, é claro, elas não são natural ou artificialmente inférteis. Neste caso, elas se transformam em mera relação de uso, aquilo que os psicólogos chamam de relação eu/isso, e diminuem a dignidade dos envolvidos. O ser humano deveria sempre ser sujeito da geração de um novo ser pelo amor conjugal, e nunca mero objeto da concupiscência alheia. A geração e a educação da prole prolongam o prazer sexual racional, porque consumam o sentido do ato – quando o casal contempla os filhos e netos que deram a Deus, devem sentir toda a consequência plenificadora do sexo. É isto que somente a sexualidade fecunda, entre duas pessoas que respeitam a dignidade recíproca e a dignidade humana da prole, pode conceder.
E como seria o sexo livre de toda marca do pecado? É exatamente o que queremos descobrir. Ouçamos a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A visão negativista do sexo.
Não faltaram grandes teólogos, alguns até considerados Padres da Igreja, como o próprio São Gregório Niceno, que não tinham o sexo em boa conta. De fato, tendo conhecido quão aviltado ficou o sexo depois da queda do ser humano no pecado, e desconsiderando a beleza do sexo conjugal realizado dignamente pelos cônjuges no leito sacramental do matrimônio, chegaram a defender que a procriação, no paraíso, não se daria pela via sexual. Para estes teólogos, a reprodução sexual seria uma característica do ser humano após o pecado; antes do pecado, para eles, não haveria sexo de modo nenhum, e os seres humanos seriam gerados como os anjos, por atuação direta de Deus. Estes teólogos, no campo da sexualidade, defenderam uma posição que, no fundo, separa a sexualidade da reprodução, louvando esta e desprezando aquela como uma forma grosseira pela qual os seres humanos podem se multiplicar depois do pecado. A diferença sexual, para eles, é alguma coisa que Deus teria criado no paraíso, mas apenas porque previu o pecado e viu que ela seria necessária num mundo decaído. Mas no fundo, para eles, a diferença sexual não é uma coisa essencialmente necessária ao ser humano. Esta visão, diz Tomás com todas as letras, está profundamente errada.
A bondade da diferença sexual e da atividade reprodutiva sexual.
Não é racional imaginar que Deus fosse criar algo que só se tornaria bom em razão do pecado humano. Porque é inegável que, se o ser humano é bom, reproduzi-lo também é igualmente bom. E Deus criou o ser humano com a capacidade natural de reprodução sexual, e com todos os sistemas e órgãos necessários ao sexo e à consequente reprodução.
O que Deus faz é bom. Este é um princípio que não podemos esquecer. Por outro lado, não podemos atribuir ao pecado o surgimento de algo bom: do pecado nada bom pode decorrer naturalmente, assim como nada de natural pode ser subtraído. Portanto, não somente a constituição biológica sexuada como modo de reprodução, nem toda a beleza da atividade matrimonial, pode ter decorrido do pecado, ou nem sequer poderia ter estado à espera do pecado como condição para acontecer. O ser humano, no paraíso, já era biologicamente completo, intelectualmente virtuoso e moralmente ordenado. Portanto, como todos os animais superiores, a sua maneira natural de reprodução biológica já existia ali, tanto quanto existe hoje. Não foi o pecado que introduziu a reprodução sexuada na história humana, mas foi o próprio Deus que nos fez e nos quis assim. Seria, portanto, irracional admitir que Deus nos fez biologicamente completos, capazes de complementação sexual e abertura à vida, mas que essa dimensão relacional só foi ativada após a queda. Falso. Ela existe desde o começo, e ainda de um modo muito mais belo, muito mais alegre, muito mais perfeito do que hoje.
A belíssima ordem sexual no paraíso.
O ser humano é um animal inteligente; mais do que isto, é um animal espiritual. Assim, há duas dimensões inseparáveis na sexualidade humana, diz Tomás:
1) Há a dimensão da complementariedade fecunda, que é própria de qualquer geração natural: há sempre dois princípios que se encontram para que se gere alguma coisa. No caso das coisas inanimadas, há o princípio material, ou matéria, e o princípio formal, ou forma. Assim, uma pedra gigantesca (princípio material) elevando-se por forças geológicas (princípio formal), é gerada como uma montanha. No caso dos seres vivos, há sempre um princípio feminino e um princípio masculino que, reunidos, dão origem a um novo ser. Esta complementariedade era vista, no tempo de Tomás, como se a mulher desse o princípio material (ela recebe o sêmen e aninha o embrião, formando-o e alimentando-o no útero). O homem seria responsável apenas pelo princípio formal (o DNA do seu gameta, que dá identidade e estrutura ao novo ser). Hoje, sabemos que ambos, homem e mulher, fornecem ao filho o princípio formal, já que o gameta feminino também compõe o DNA da criança. Mas continua sendo um fato natural aquele de que o homem é apenas um doador de informação genética, ao tempo que a mulher recebe o embrião e fornece a ele as condições materiais de desenvolvimento, de modo que a visão de Tomás não é absurda, mesmo com nosso paradigma científico. De certo modo, ainda vemos no princípio masculino algo que se dá simplesmente, e no princípio feminino algo que acolhe, que nutre e desenvolve.
2) A dimensão propriamente racional, propriamente espiritual da sexualidade humana, e que a torna diferente da sexualidade estritamente biológica dos outros seres vivos, é que, nos humanos, há o reconhecimento do outro como igualmente digno, igualmente humano, igualmente filho de Deus, e não como mero objeto de inclinação instintiva. Também o filho do relacionamento sexual humano é igualmente humano, digno, sujeito da própria história e não mero resultado de forças instintivas nos progenitores, como nos outros seres vivos. Assim, se, após a queda do pecado, a sexualidade está maculada, muitas vezes, pela concupiscência desordenada, pela inclinação instintiva, pela objetificação do outro e pela mera gratificação corporal, no paraíso a sexualidade era ordenada, temperada, respeitosa e submetida à inteligência, de tal modo que sempre era uma atividade integrada, em espírito e corpo, de dois humanos atentos e amorosos, complementares, exclusivos e abertos à vida e à fecundidade, desejosos de que seu amor trouxesse novas imagens de Deus ao mundo. O ato sexual era, portanto, um ato que integrava completamente o homem à mulher e ambos a Deus, para a recepção de um filho cuja geração saía também das mãos de Deus. O prazer sexual, portanto, não seria só corporal, mas físico, emocional, intelectual e espiritual.
3. Encerrando.
Depois desta bela descrição da sexualidade no paraíso, lembramos da riqueza que foi, para a Igreja, a chamada “teologia do corpo” de João Paulo II, que resgatou toda essa maravilha da sexualidade como querida e criada por Deus.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
12 de julho de 2023 at 16:25
Belíssima explanação.
Deus o abençoe hoje e sempre.
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12 de julho de 2023 at 16:29
Amém!!!
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