1. Introdução.
A atividade sexual humana é um dom: trata-se daquela entrega total, de corpo e alma, para que, dessa união, surja uma terceira pessoa. Todo esse mistério de união, todo esse mistério de alegria e prazer, estritamente humano, sempre foi visto, em toda a história humana, com uma certa desconfiança, e nossa era não é diferente: enfraquece a noção de que a atividade sexual humana não existe como lazer, nem pessoas são objeto de uso por outras. Toda a alegria, toda a felicidade da atividade sexual vem apenas do encontro de duas pessoas, abertas a uma terceira. E sempre em parceria com Deus: a Bíblia tem muita noção disso, quando, por exemplo, em Gn 4,1 registra que o filho de Adão e Eva foi concebido com a ajuda do Senhor. O fato de que a Igreja tenha definido a união propriamente sexual como “sacramental” mostra que ela sempre teve claridade sobre o valor da atividade sexual humana e seu profundo significado: como sinal sensível da graça invisível de Deus, o sexo, ordenado, é colaboração humana na obra criadora, já que o ser humano não pode transmitir espírito. A atividade sexual sempre envolve, pois, a intervenção divina na geração de um novo ser humano. Como seria diferente a vida sexual, se lembrássemos de que, nela, Deus sempre se alegra junto conosco!
A vida sexual, pois, é algo imaculado, e pertence ao plano original de Deus. Isso apesar de todas as distorções e desvalorizações que a humanidade decaída inscreveu na atividade sexual. Por isto, é tão bom debater a ideia sobre o sexo e a influência do pecado original nele. Como seria a atividade sexual de uma humanidade não contaminada pelo pecado? Desapareceria ou seria ainda mais intensa e alegre? É o que veremos neste interessantíssimo artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
Qualquer pessoa que enxergue a vida sexual como algo desprezível, indigno da espiritualidade humana, tenderá a dizer que, se não fosse o pecado, não haveria nenhuma vida sexual entre os seres humanos. Mas, por outro lado, aqueles que vivem fora da fé, e portanto talvez não conheçam a dignidade humana de imagem de Deus também venham a se sentir tentados a banalizar o sexo: imaginar que o paraíso seria uma espécie de atividade sexual incessante e promíscua, sem riscos e sem consequências: algo como uma grande orgia animal. Esses dois extremos, o moralista e o promíscuo, revelam uma deficiência em valorar adequadamente o ser humano: ou transformá-lo num ser sem corpo, como os moralistas, ou aviltá-lo a um animal, como os materialistas.
A dificuldade de encontrar um meio termo para a atividade sexual virtuosa pode nos impelir a criar a hipótese de que no paraíso simplesmente não existia atividade sexual. Esta é a hipótese proposta, agora, para estimular o debate. Há quatro argumentos objetores iniciais que tentam comprovar essa hipótese de que a atividade sexual é resultante da queda no pecado. Vamos a eles.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Já sabemos que os argumentos objetores iniciais tentam comprovar que a hipótese inicial está correta, e sabemos também que haverá sempre um ou alguns argumentos sed contra que tentarão rejeitar essa hipótese, de tal modo que apenas com a análise e as respostas de Tomás é que o problema terá uma solução equilibrada.
Neste caso, o primeiro argumento objetor é espiritualista, e quer equiparar o ser humano aos anjos, já desde a sua criação no paraíso, antes da queda no pecado. É um argumento que desvaloriza a biologia, a corporeidade, a materialidade humana, dimensões humanas igualmente amadas e criadas por Deus. O argumento resgata uma citação de São João Damasceno, para quem o ser humano, no paraíso, antes do pecado original, vivia como se fosse um anjo. Ora, este estado, diz o argumento, coincide com a descrição feita por Jesus em Mateus 22, 30, quando nos ensina que, na ressurreição, os seres humanos já não se casam, ou seja, não têm mais atividade sexual, biológica; serão, diz Jesus, como os anjos do céu. Portanto, no paraíso não há reprodução sexual, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
A primeira menção a atividade sexual, na Bíblia, está em Gn 4, 1. E ocorre depois da queda, do pecado original de Adão e Eva. Ora, Deus trata Adão e Eva, no Paraíso, como seres humanos adultos, capazes e inteligentes, como eles de fato eram. Logo, se houvesse acontecido alguma união sexual no paraíso, certamente ela estaria registrada na Bíblia. Mas não está. Logo, não houve atividade sexual entre nossos primeiros pais, no paraíso, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Há algo de brutalmente animal, na atividade sexual. De fato, o prazer intenso que está associado a qualquer atividade sexual, ainda que ordenada, retira do ser humano, ainda que momentaneamente, o uso da razão: tomado pelo prazer, ele fica como que animalescamente dominado pelo prazer corporal. Ora, segundo a Bíblia, pelo pecado o ser humano rejeita sua identidade espiritual de imagem de Deus e se torna mais semelhante aos animais; isto se dá no prazer corporal do coito, também. Veja-se o Salmo 49 (48), 21: O homem que vive mergulhado em prazeres materiais e não é capaz de reflexão é semelhante ao gado que se abate. Logo, a união sexual não poderia existir no paraíso, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
O corpo humano, no paraíso, estava livre de qualquer degradação ou lesão. Ora, a atividade sexual e reprodutiva tem um potencial de degradação: não somente há o rompimento de barreiras físicas no corpo feminino, pelo sexo, como a própria gestação e parto são danosos para o corpo, sem falar de inúmeros outros perigos e lesões relacionadas ao sexo. Assim, uma vez que este tipo de dano não poderia existir no paraíso, pode-se afirmar que não havia reprodução humana sexuada no paraíso, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra mostra que a sexualidade é, na própria Bíblia, uma dimensão humana inserida por Deus na primeira criação, logo no paraíso: homem e mulher os criou, diz Gn 1, 27; e em seguida, acrescenta a ordem de Deus: “crescei e multiplicai-vos” (Gn 1, 28). Ora, Deus não faz nada em vão. Se ele fez a diferenciação sexual e ordenou a multiplicação, fica claro que a própria atividade sexual era esperada, no paraíso.
Além disso, a Bíblia ensina que a diferenciação sexual foi feita para que os sexos se auxiliassem no atingimento de seus objetivos (Gn 2, 18); ora, para qualquer atividade que não seja a atividade reprodutiva, não há nenhum sentido em dizer que a mulher, e somente ela, deve auxiliar o homem e vice-versa. Assim, fica claro que Deus criou a diferença sexual para que houvesse a reprodução sexuada já no paraíso, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Não somos anjos. Não somos bichos. Não somos objeto da atividade de outro, mas sempre sujeitos de uma relação que inclui Deus. Este é o sentido da diferença sexual. E ela, como veremos no próximo texto, é algo de fundante, de fundamental; de paradisíaco mesmo. Veremos a resposta de Tomás no próximo texto.
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