1. Voltando ao artigo.

O pecado teve, como efeito, que nos tornássemos, como espécie humana, cegos de nascença às coisas espirituais. Isto tem um efeito que não deve ser esquecido, e que diz respeito à possibilidade de receber, mais tarde, uma revelação divina: como alguém que nunca viu uma cor teria uma dificuldade enorme para compreender e explicar o que é uma cor, de modo análogo é muito difícil, quase impossível, para nós, registrar em palavras humanas aquilo para o qual somos chamados pela revelação; são realidades que ultrapassam nosso vocabulário.

Assim, devemos ter muito cuidado para não interpretar de modo restritivo, tão literalmente, coisas como a descrição bíblica da Árvore da Vida. Sendo tipo daquela outra árvore (a cruz sagrada da qual pendeu Nosso Senhor Jesus Cristo), a Árvore da Vida, no paraíso, é algo muito maior do que uma espécie de macieira da qual pendiam maças mágicas que dariam superpoderes de imortalidade a quem os comece. É um símbolo, no sentido mais profundo da noção de “símbolo”: aquilo que une duas realidades. Ou seja, é um símbolo sacramental da nossa união ordenada com Deus, que nos preservava de todo mal, antes do pecado original. De fato, no paraíso, nenhum mal externo ou nenhuma degradação poderia nos atingir; mas isso decorria da nutrição espiritual, sempre renovável, da nossa relação com Deus.

Vamos escutar agora a resposta sintetizadora de Tomás, sempre com a consciência de que estamos no campo da linguagem revelada, simbólica – e portanto, muito mais verdadeira do que qualquer preconceito cientificista jamais poderia imaginar.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A vida biológica, a vida espiritual e a alimentação.

Quando a Bíblia fala de uma Árvore da Vida, não está tratando de uma espécie de “fonte mágica da juventude”, algo como uma fruta superpoderosa capaz de dar imortalidade a alguém. Na verdade, aqui estamos tratando de uma realidade que, no paraíso, seria capaz de nos proporcionar a vida plena, nutrindo-nos material e espiritualmente. Ou seja, a Árvore da Vida é o símbolo de um modo de viver pleno, capaz de garantir nossa incolumidade. O fruto da árvore da vida, portanto, não é, por si mesmo, uma fonte absoluta de imortalidade, mas parte de um modo de viver pleno, capaz de nos restaurar inteiramente, como descreveremos a seguir.

De fato, no paraíso, antes de qualquer pecado, vivíamos como seres perfeitamente unitários, perfeitamente integrados em nossas dimensões biológica e espiritual. Mas com os limites de sermos criaturas, e com todas as questões que envolvem manter uma vida dinâmica, relacional, livre e derivada, a um tempo autônoma, mas, por outro lado, plenamente dependente de Deus, dos outros, do ambiente e de nós mesmos.

Essa dinâmica biológica de perda e reposição de energia física envolvia a necessidade de repor a energia e os nutrientes perdidos pela própria atividade de viver, respirar, deambular, amar, enfim, de ser uma criatura viva no mundo. Essa reposição ocorria de modo natural pela alimentação, que tinha à disposição todo o jardim do paraíso, de frutas lindas, desejáveis, apetitosas.

O desgaste que decorre da dinâmica de perda e reposição.

Ocorre que todo esse processo de perda e reposição também implica, como sabemos bem e a ciência do século XXI confirma, um desgaste para o próprio corpo; Tomás, citando Aristóteles, diz que a nossa alimentação biológica funciona de modo análogo àquele processo do colocar água no vinho: no começo, colocar umas gotas de água no vinho não somente não altera seu sabor, como o faz crescer em volume. É um processo análogo àquele pelo qual, nos primeiros anos de vida, a alimentação nos faz crescer corporalmente. Mas, chegado um dado momento, a água, se colocada acima do limite para a reposição da evaporação, começa a diluir o vinho, embora ainda não altere seu aspecto. Seria, em nós, uma fase análoga à idade adulta, em que a alimentação nos mantém, mas não nos permite mais crescer. Por fim, a água dilui de tal modo o vinho que o torna progressivamente sem sabor e sem cor. Isso é análogo, em nós, à velhice, na qual a alimentação já não pode deter nossa degradação corporal progressiva e finalmente a morte.

A ciência de nossos tempos sabe que esse processo progressivo de degradação corporal, causado pela própria assimilação de alimentos, que causa oxidação, destruição de informação celular, desequilíbrio corporal e morte, é real e cientificamente comprovado, e os pesquisadores e cientistas lutam justamente para combater estes efeitos, estudando a melhor alimentação, as atividades físicas e as drogas que podem retardá-lo ou combatê-lo, ainda que apenas parcialmente.

A “Árvore da Vida” como alimento que restabelece esse desgaste.

Aquilo que, no paraíso, chamamos de “comer da Árvore da Vida”, então, seria justamente a reposição, por alguma maneira análoga à alimentação, pela qual o próprio desgaste corporal decorrente da reposição de energia e nutrientes pela alimentação e digestão seria evitado. Seria como colocar de novo o vinho ali onde a água o estava diluindo. Assim, Santo Agostinho nos ensina: “A comida estava em nosso alcance para matar nossa fome; a água, para matar nossa sede. Mas a Árvore da Vida estava para impedir que a degradação nos aniquilasse”; é o próprio Santo Agostinho que nos ensina que “a Árvore da Vida era como que um remédio para nossa degradação”.

A necessidade de renovar essa cura.

Como já vimos, a Árvore da Vida, como remédio de imortalidade, não era algo como um remédio definitivo para a morte, nem uma poção mágica da vida eterna, que, uma vez tomado, nos desse a imortalidade biológica permanente. Na verdade, se tivéssemos a indestrutibilidade biológica permanente, já não dependeríamos de uma relação permanente com Deus e com os outros para nos manter na existência, e o risco de que caíssemos no mesmo pecado dos anjos rebeldes seria grande: o pecado do orgulho. O que, aliás, seria incompatível também com a própria corruptibilidade que é natural nas coisas materiais; não há seres biológicos naturalmente imortais.

Portanto, a imagem de um “alimento” ou de um “remédio” são adequados aqui: a cura da morte, que era dada pela Árvore da Vida, era algo temporário, passageiro, como a ligação da flor com o ramo. Cortado o ramo que prende a flor, ela perde o sustento vital e, embora permaneça viva por algum tempo, tende a murchar e a morrer. Assim seríamos nós: dada a nossa natureza biológica, dinâmica, tendente à decadência, precisaríamos sempre nos renovar, pela ingestão dos frutos da Árvore da Vida, isto é, por esse alimento dado por Deus para nosso restabelecimento completo. Esta busca, esta renovação de ingestão desse remédio maravilhoso, nos manteria sempre biologicamente vivos. Se deixássemos, no entanto, de ingeri-lo, a morte seria inevitável – embora, como sabemos, a nossa alma sobreviveria, incompleta, separada, isolada.

Eis, portanto, o significado da ideia de Árvore da Vida como alimento de imortalidade, no paraíso, antes da queda.

3. Os argumentos objetores revisitados.

Tomás considera que os argumentos objetores já estão suficientemente respondidos pela resposta sintetizadora, e não irá reavaliá-los individualmente. Lembramos que os argumentos são os seguintes:

O primeiro argumento alega que, se era possível comer da referida árvore, então ela podia ser digerida, isto é, era corruptível. Mas nada pode dar aquilo que não tem: se ela era corruptível, não podia conceder incorruptibilidade. Tomás já respondeu, acima, que a incorruptibilidade não era concedida de modo absoluto ao se comer da árvore, mas que se referir a ela implicava a existência de um meio para recuperar a própria degradação corporal, restaurando o ser humano do processo de envelhecimento, decadência e morte.

O segundo argumento lembra que a imortalidade não pode ser natural para qualquer ser biológico. Mas comer é uma atividade natural. Logo, a imortalidade não poderia ser resultado de uma atividade natural como comer da árvore da vida, mesmo no paraíso. Tomás já explicou, na resposta sintetizadora, de que modo a recuperação das forças estava disposta, no paraíso, para impedir a degradação humana.

Por fim, o terceiro argumento compara a revelação bíblia da imortalidade pela Árvore da Vida com as fábulas gregas míticas, tentando ridicularizar essa descrição como apenas uma crendice. Mas não se trata disso, como vimos na resposta sintetizadora: trata-se de uma relação equilibrada, perfeitamente equilibrada, entre o ser humano e seu Deus, e entre o ser humano e a natureza, no paraíso, que possibilitaria a renovação das forças para sempre. O que pode ser visto como um prenúncio do poder ainda mais maravilhoso da eucaristia, que conhecemos pela fé.

3. Conclusão.

Já não temos a incolumidade corporal, mesmo depois de conhecermos a verdadeira e plena Árvore da Vida, que é Jesus morto na cruz por nós. Mas temos aquele fruto que nos alimenta espiritualmente todo dia, o “pão nosso de cada dia”, que se chama Eucaristia. E, se ela não é capaz de deter a velhice, a doença física e a morte, é porque o próprio Deus não se recusou a entrar na morte para nos dar algo muito maior do que uma vida terrena biologicamente interminável: trata-se da plenitude da vida na própria glória de Deus, a que somos por ele chamados em Jesus. Que aproveitemos dessa Árvore da Vida que é a redenção na cruz, e desse alimento que é remédio de imortalidade e se chama eucaristia.