1. Voltando para fechar.
A natureza humana envolve uma radical dependência de Deus. Nossa vida depende inteiramente dele. No paraíso, ser imaculado significava ser inteiramente dependente dele para viver e sobreviver, ter a vida como um dom. É certo, porém, que o ser humano tem dimensões capazes de sobreviver por alguns instantes sem Deus, como uma flor cortada do caule pode sobreviver algumas horas antes de murchar. Foi o que aconteceu com nossos primeiros pais: acreditando na serpente (“não morrereis”, Gn 3, 4), optamos radicalmente contra Deus e perdemos a inserção que nos dava vida. Mas, desligados da seiva da vida, nossa sobrevivência é somente a vida de um bicho, de um animal. Um animal muito esperto, mas apenas um animal. O ramo que não permanece na videira (João 15, 6) pode até parecer vivo por alguns instantes, mas logo seca e serve apenas como lenha.
Vejamos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
A noção de “mortalidade” entra no próprio conceito de “ser humano”. Ora, um ente só pode existir sob uma essência quando seu existir cumpre todas as noções contidas na definição dessa essência. Se a definição de ser humano envolve a noção de mortalidade, então: ou Adão e Eva eram mortais como nós, mesmo antes do pecado, ou não eram humanos como nós. Mas nós sabemos que eles são humanos como nós, têm a mesma natureza que temos, porque o pecado não destruiu a natureza humana, apenas a feriu. Logo, seria impossível que nossos primeiros pais fossem imortais, mesmo antes do pecado original, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento amplifica o primeiro. O primeiro argumento, como vimos acima, diz que, se Adão e Eva eram da mesma espécie que nós somos, então eles teriam que ser mortais como nós somos. Este segundo argumento vai mais longe: não se trata apenas de pertencer à mesma espécie: o gênero das coisas mortais é diferente do gênero das coisas imortais. Coisas mortais não somente não são da mesma espécie que as imortais, mas nem sequer são do mesmo gênero. Uma coisa não pode pertencer a dois gêneros diferentes ao mesmo tempo. Logo, se Adão e Eva, antes do pecado original, eram do gênero das coisas imortais, então não poderiam ser nossos antepassados, porque somos do gênero das coisas mortais. Logo, ou eles não eram nossos antepassados, ou não eram imortais. Mas eles eram nossos antepassados. Logo, não eram imortais, conclui o argumento.
A resposta de Tomás aos dois primeiros argumentos.
O ser humano, por natureza, por essência, por ser do gênero das coisas mortais, por ser da espécie humana, é naturalmente mortal. Assim somos nós, hoje, depois da queda, e assim eram nossos primeiros pais, antes do pecado; mas antes do pecado, a relação imaculada com Deus permitia a renovação perfeita das nossas forças no paraíso, algo que a Bíblia chama de comer da “árvore da vida” (Gn 2, 9). Não havia decadência, doença, degeneração, desastres, portanto não havia causa possível para a morte. Mas o pecado nos isolou desta única fonte de vida que é a amizade perfeita com Deus, o que fez com que a nossa natureza mortal pudesse seguir seu curso. Assim, as objeções não procedem.
O terceiro argumento objetor.
A natureza humana, mesmo antes do pecado, não era imortal. Logo, a única fonte de imortalidade seria a graça de Deus, perdida pelo pecado. Mas a graça nos foi devolvida por Jesus, em sua ressurreição, com o batismo que apaga o pecado original (Rm 6, 3-4) e nos devolve a graça perdida por Adão no pecado original. Ora, a graça que foi restaurada por Jesus em nós não nos livra de sermos mortais; e de fato, envelhecemos, adoecemos e morremos. Logo, a graça não concede imortalidade. Assim, se a natureza de Adão não era imortal, e se a graça por si mesma não concede imortalidade, temos que concluir que nossos primeiros pais não eram imortais, mesmo antes do pecado original, no paraíso, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, era por graça, e não por natureza, que o ser humano, no paraíso, mesmo sendo naturalmente mortal, de fato não morreria. Mas esta situação peculiar não foi restaurada por Jesus; ele próprio experimentou a morte por amor, de modo a entrar na sua glória. Assim, como o resgate do mundo decaído pelo pecado envolve a liberdade humana e não prescinde dela, é preciso que o ser humano restaurado pela graça de Cristo siga também o caminho da cruz para alcançar a glória. Vale dizer, a salvação oferecida por Jesus não envolve aquilo que nossos primeiros pais tinham, que era uma vida infindável aqui na terra, mas envolve algo muito maior: a participação na própria glória de Deus na eternidade, por meio da cruz, como veremos na resposta à próxima objeção.
O quarto argumento objetor.
O Livro do Apocalipse, 21, 4, declara que na Jerusalém celeste, na consumação dos tempos, não haverá mais morte. Ora, mesmo no paraíso, no início dos tempos, o ser humano não foi criado na glória, mas teria que optar por ele, fazer-se digno de recebê-lo como um dom. Logo, se a imortalidade não é parte da natureza criada, mas parte da promessa final como um dom a ser conquistado, isso significa que nossos primeiros pais, mesmo no estado inicial de inocência, não eram imortais, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
O que havia, no paraíso, para Adão e Eva, era uma vida que duraria para sempre, renovada, protegida, saciada. Mas não era a participação na glória celeste, prometida a nós pela redenção que nos foi oferecida em Cristo. Então, podemos dizer que o fato de que Adão e Eva seriam capazes de seguir vivendo para sempre, sem enfrentar a morte, e que a humanidade perdeu com a queda decorrente do pecado original, difere da glória da vida eterna que nos é oferecida por Cristo, e que supera infinitamente a situação de inocência original dos nossos primeiros pais. Poderíamos cantar com Santo Agostinho aquela frase que ele escreveu, e que a Igreja repete na liturgia da Vigília Pascal: ó feliz culpa de Adão, que nos conquistou tamanho redentor!
3. Conclusão.
É nesse sentido preciso que a inocência inicial nos garantiria a vida infindável: a relação com Deus nos manteria sempre renovados, sempre íntegros, sempre capazes de viver plenamente. Como um galho que está ligado ao tronco.
E é por isso que caminhar para fora do pecado nunca é uma perda, ao contrário: o pecado nos leva a viver como aquela flor que, cortada do caule, se envaidece por um minuto por enfeitar um lindo palácio; mas irremediavelmente fenecerá, porque já não bebe da seiva da vida.
20 de junho de 2023 at 18:14
Questão que sempre me interessou. Como negar a resposta do Aquinate? Entretanto, já ouvi outras explicações para esse estado antes do pecado, todas em caráter de suposição pois, como nos relatam as Escrituras, não temos notícia de mortos antes do pecado original.
Mas refletir sobre o tema me leva a voar na imaginação. Não se menciona em que momento Adão e Eva tiveram descendência. Então não é de se excluir a possibilidade de eles já terem filhos, netos ou bisnetos por ocasião do pecado original. O fato é que o pecado original parece ter inserido a “história” no seio da humanidade. Apenas reflexões.
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