1. Introdução.

A questão do domínio do ser humano sobre a natureza é muito importante e atual. Não é à toa que o mundo chegou ao estado de degradação ambiental em que vivemos, e que o Santo Padre, o Papa Francisco, tanto nos alerta na sua bela carta encíclica Laudato Sí, sobre o cuidado da casa comum: uma leitura economicista, utilitarista, do Livro do Gênesis (1, 28), quando determina que o ser humano “domine” sobre a natureza, levou a uma degradação ambiental suicida. E, de fato, o pecado de nossos primeiros pais tem um reflexo enorme sobre o resto da criação: Diz São Paulo, na Carta aos Romanos, que a própria criação geme sob o peso do nosso pecado, esperando a nossa libertação, que não é outra senão a libertação dos efeitos do pecado original.

Assim,d evemos compreender bem o modo de falar de Tomás. Quando ele discute se Adão e Eva tinham domínio sobre os animais, o que ele quer propor é uma reflexão sobre qual seria a relação entre os seres humanos e os animais se não houvesse a queda, se não houvesse o pecado original. È por que essa reflexão é necessária? Para que possamos tomar consciência de como agir, nós, filhos de Deus adotivos, para que a desordem do pecado seja, na medida do possível, evitada, corrigida ou anulada. Este é nosso dever. Portanto, nada poderia ser mais importante para que isto aconteça do que refletir sobre como seria uma saudável relação entre o ser humano e os outros animais. Apenas um olhar materialista, economicista, burguês no pior sentido do termo, acharia que este debate é pura falta de praticidade. O Papa, como vemos na Laudato Sí, não acha isso.

A reflexão visa distinguir o que é a sadia liderança humana, por um lado, e o que é a marca da consequência da queda, por outro. Para que possamos desenvolver um e evitar a outra. Trata-se de saber se o ser humano pode dar sentido à existência dos animais, por exemplo, domesticando-os ou utilizando-os para trabalhar, reproduzindo-os e selecionando-os, ou se atividades humanas desse tipo decorrem do pecado humano, do fato de que vivemos num mundo decaído, não da ordem intrínseca das coisas.

A reflexão de Tomás tem, então, também o condão de evitar certos exageros ambientalistas, como a de achar que todos os animais não racionais têm a mesma dignidade que temos, na criação. Não têm. Somos feitos à imagem e semelhança; não para sermos déspotas, mas para servirmos mais. Para isso, temos a liderança, no sentido de guiar a criação para Deus. E para isso, os outros animais são liderados, são coordenados, e podem ser usados por nós para chegar naquele fim. As correntes de pensamento que imaginam que a centralidade do humano na criação é apenas um preconceito insensato estão erradas, e são fruto da desordem do pecado também: rejeitam a própria dignidade da inteligência, rejeitam a liderança que não foi usurpada, mas dada por Deus para que cheguemos a ele.

Vamos, então, ao debate: num mundo que não fosse marcado pelo pecado, pela queda, como seria a relação entre os seres humanos e os outros animais? Esta é a pergunta que passa a ser respondida.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é uma hipótese ousada, como que de um “ambientalismo radical”, diríamos hoje. Ela propõe que não haveria nenhuma hierarquia de dignidade entre nós e os outros animais não racionais, se não fosse a queda no pecado. O ser humano não teria direito a reclamar nenhuma ascendência sobre os animais não racionais, nenhuma liderança, nenhum dever especial de cuidar deles no sentido de caminhar à sua frente para Deus, nenhum dever de cuidar, proteger e administrar os outros animais para Deus. Haveria, pois, um perfeito igualitarismo entre nós e todos os animais, se não fosse o pecado. Ou, colocando as coisas na linguagem que era falada no tempo de Tomás, parece que Adão e Eva, antes do pecado original, vivendo no paraíso, não possuíam nenhum poder ou qualquer tipo de domínio sobre os outros animais. Existem quatro argumentos objetores iniciais no sentido desta hipótese controvertida.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor resgata uma citação de Santo Agostinho, que, no seu comentário ao Livro do Gênesis, diz que os animais foram trazidos para Adão, para serem nomeados, por meio do ministério dos anjos.

É preciso, agora, para nós, pessoas do século XXI, decifrar o que está sendo dito neste pequeno trecho agostiniano. Principalmente o que ele queria dizer com “ministério dos anjos” e com “ser nomeado”.

Essa noção de ministério dos anjos é muito interessante; de fato, antes da idade moderna, os fatos naturais não eram ignorados pelos filósofos. Fenômenos como a gravidade, a movimentação dos corpos celestes, a regularidade das estações, o magnetismo, dentre outros, que hoje nós imputamos a forças impessoais que obedecem a leis naturais, eles consideravam que não podiam ser fenômenos impessoais: cada fenômeno desses envolve uma coordenação perfeita com todos os outros fenômenos do universo, uma sincronia fina que não poderia, segundo eles, ser explicada senão pela inteligência. Nós, hoje em dia, com nossa visão científica do mundo, podemos nos espantar que alguém possa ter pensado que as leis naturais fossem forças espirituais inteligentes. Eles, talvez, ficassem espantados se nós disséssemos a eles que estamos debatendo coisas como o “princípio antrópico, fraco ou forte”, que determina que justamente esta sintonia fina entre o universo, que permite que existamos, é muito difícil de explicar sem apelar para alguma inteligência supra-humana. Enfim, quando Agostinho fala do “ministério dos anjos”, devemos entender isso como uma referência àquilo que chamamos, hoje, de “forças naturais”.

Por outro lado, dizer que os animais foram trazidos para Adão “para serem nomeados” não significa apenas que Adão saiu colocando nomes nas coisas. Não se trata, aqui, de uma afirmação linguística, de alguma afirmação sobre a criação da linguagem como associação arbitrária entre as palavras e as coisas. Colocar nome, aqui, significa integrá-las à sua esfera de relações, dar significado existencial a elas, estabelecer uma verdadeira relação de convivência coordenada com elas.

Dizer, portanto, que os animais foram trazidos a Adão pelo ministério dos anjos para serem nomeados equivaleria a dizer que, num estado de perfeição do universo, sem a mácula da queda, a relação entre os seres humanos e os outros animais seria decorrente apenas das forças naturais, não da iniciativa humana. Portanto, Não haveria nenhuma proeminência, nenhuma capacidade de domínio e liderança humana, nenhum uso humano dos animais, se não fosse o fato de que o ser humano vive num mundo decaído, por conta do pecado original, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Aquelas criaturas que são opostas umas às outras, que existem como opositoras, que são naturalmente conflituosas entre si, não podem ser submetidas a um mesmo comando. Ora, há muitos animais que são inimigos entre si, como o lobo e a ovelha. Logo, eles não poderiam estar submetidos à liderança de um mesmo condutor, ou seja, ao ser humano, mesmo no estado imaculado que havia antes da queda; o ser humano somente poderia entrar no jogo da natureza, neste caso, ao lado do predador ou ao lado da presa, e em ambas as hipóteses ele desequilibraria injustamente o jogo – o que é incompatível com a ideia de que a natureza é perfeitamente equilibrada, no estado inicial. Logo, o ser humano não tem nenhum tipo de proeminência, mesmo excluída a ideia da queda, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Este terceiro argumento tem um viés bem atual, e tem muita relação com o que determinadas correntes, como o veganismo e os militantes dos direitos dos animais, pregam hoje. Todas estas filosofias pregam que, no fundo, dominamos os animais porque somos maus, e isto deve ser eliminado pelas boas pessoas.

Não fosse o pecado, diz o argumento, e a situação decaída do mundo, o ser humano não precisaria se valer dos animais. Nem para comer, porque as fontes vegetais são suficientes para a nutrição (e apenas o pecado inclina a comer animais) nem como fonte de energia para o trabalho, como no caso dos testes de medicamentos ou mesmo do uso do couro ou como meio de transporte, que no fundo demonstram que é a maldade humana que o leva a explorar os animais. O próprio São Jerônimo chegou a dizer que Deus concedeu o domínio dos animais ao ser humano, antes da queda, apenas porque previu que, depois da queda, o ser humano teria necessidade deles. Assim, não é da ordem natural das coisas, mas como resultado do pecado e da maldade humana, que o ser humano domina os animais, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

Aquele que lidera, que coordena, que domina sobre os demais, faz isto usando de ordens, que são expressões de razão emitidas por aquele que governa, que tem poder.

Mas somente se pode emitir ordens razoáveis quando se está numa relação em que a outra parte também tem o uso da razão, e pode compreendê-las e cumpri-las. Doutro modo, o que existe é uma relação de despotismo, de tirania.

Mas os animais, também no paraíso, seriam irracionais, isto é, incapazes de entender ordens e cumpri-las. Ora, no paraíso, antes do pecado, não poderia haver tiranias e despotismo. Logo, não se poderia falar em qualquer tipo de “dominação” do ser humano sobre os animais, senão após a queda, na realidade pecaminosa e ilegítima em que vivemos hoje, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento que vai no sentido contrário à hipótese inicial, e nos impede de aceitá-la, traz simplesmente a autoridade das Escrituras, que, a respeito da posição do ser humano frente aos animais, dizem (Gn 1, 26): “Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”.

Ora, reinar, no paraíso, implica cuidar, servir, mas também implica liderar no caminho que conduz a Deus. Logo, o ser humano, desde o paraíso, e independentemente da queda, tem uma posição de proeminência frente aos animais irracionais, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Estudando este artigo, vemos como é conveniente que a igreja retome, em pleno século XXI, esta questão, como fez o Papa Francisco na Laudato Sí: ela está entranhada na mais profunda tradição cristã, que nasce com as Escrituras e tem em Tomás um testemunho precioso.

No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.