1. Introdução.

O tema aqui proposto é muito interessante. Será que, vivendo no paraíso, nossos pais tinham todas as virtudes morais que caracterizam uma pessoa bem formada em nosso mundo? Essa pergunta adquire tons bem interessantes quando pensamos no paraíso como um lugar em que não há guerras nem conflitos, o que tornaria desnecessária, por exemplo, a fortaleza do guerreiro. Tampouco haveria a cobiça ou a luxúria, o que tornaria dispensável o próprio uso de roupas e, portanto, o desenvolvimento da virtude da temperança. Aliás, a julgar pelo próprio relato bíblico, apenas após a queda é que se fala de roupa: dada a inocência original, seria impensável que alguém usasse roupas no paraíso, como que se ocultando ao perfeito amor do outro, numa atitude que, ali, poderia representar individualismo e egoísmo. Entre nós, que vivemos depois da queda, as coisas são justamente ao contrário: não usar roupas, em situações sociais, é não se preservar perante o olhar pecaminoso do outro; um pecado, portanto. Assim, seja lá o que entendemos por virtude, certamente no paraíso elas eram algo bem diferente do que são hoje, no nosso mundo decaído.

Será que poderíamos, portanto, falar em virtudes no paraíso? Virtudes não seriam simplesmente modos burgueses de repressão das inclinações naturais, como entenderam, por exemplo, Rousseau e Freud? O paraíso não seria, ao contrário, o ambiente da expansão, do desfrute, do prazer contínuo e ilimitado? Como pensar em virtudes no paraíso?

Já podemos notar quão estimulante será este debate. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é a de que nossos primeiros pais não possuíam todas as virtudes que um ser humano pode possuir, tanto porque a aquisição de determinadas virtudes pressupõe a experiência de vida, que só o tempo traria a eles, quanto porque, no paraíso, não havia determinadas situações conflituosas que determinam o surgimento de certas virtudes. Além disso, há o fato de que eles vieram a cair pelo pecado, o que pode determinar que faltasse a eles certas virtudes que poderiam evitá-lo. Ou seja, a hipótese inicial é a de que Adão e Eva, nossos primeiros pais, não possuíam todas as virtudes, antes da queda. Há cinco argumentos objetores que tentarão provar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que certas virtudes morais existem justamente para determinar o justo limite a certos impulsos e paixões sensoriais muito intensas, que, se seguirem seu curso, serão nocivas a nós. É o caso, por exemplo, da virtude da temperança, que pode limitar o impulso da gula. Ou a virtude da fortaleza, capaz de limitar o temor frente a alguma situação ameaçadora. Ora, prossegue o argumento, não havia paixões e inclinações sensíveis desequilibradas nos nossos primeiros pais, antes do pecado, como vimos no artigo anterior. Logo, tampouco existiam aquelas virtudes destinadas a refreá-las, e portanto nossos primeiros pais não tinham todas as virtudes, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento de certo modo aprofunda o primeiro. De fato, diz o argumento, certas virtudes se desenvolvem apenas perante situações potencialmente maléficas para o ser humano: aquilo que nos incomoda profundamente por ser falso ou enganoso poder nos levar à ira, que é controlada pela virtude da mansidão. Ou aquilo que nos apavora pode levar ao medo, que deve ser controlada pela virtude da fortaleza.

Mas no paraíso não existiam coisas ou situações que nos confrontassem como falsas ou enganosas, para desenvolver a virtude da mansidão, nem havia coisas que fossem pavorosas ou amedrontadoras, para despertar a virtude da fortaleza. Logo, nossos primeiros pais não chegaram a desenvolver essas virtudes e, portanto, não gozavam de todas as virtudes, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Quando caímos em erro, sentimos a contrição, que é a inclinação ao arrependimento e à penitência, que remedia o equívoco. Ora, a penitência, que expressa dor pelo pecado, é uma virtude, mas não poderia existir no paraíso antes da queda, justamente porque, naquela ocasião, nossos pais não conheciam ainda o pecado. Além disso, a misericórdia é aquela virtude que leva à compaixão com os miseráveis; mas não havia miseráveis no paraíso, logo a misericórdia não poderia ter lugar, ali. Portanto, nossos primeiros pais não desenvolveram todas as virtudes, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

A perseverança é uma virtude, que leva a permanecer no bem. Mas Adão e Eva não permaneceram no bem, como fica claro do fato de que caíram perante a tentação da serpente. Logo, não dispunham de todas as virtudes, conclui o argumento.

O quinto argumento objetor.

Por fim, o quinto argumento objetor lembra que a fé é uma virtude; trata-se, como sabemos, de uma virtude teologal, que tem por objeto o próprio Deus, e nos leva a receber em nosso intelecto aquilo que está oculto e velado a quem não tem a fé. Ora, no Paraíso não havia nada velado, nada oculto, porque o próprio Deus caminhava ali e se relacionava diretamente com nossos primeiros pais. Assim, eles não precisavam ter recebido a virtude da fé, e portanto eles não desenvolveram todas as virtudes, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra resgata uma homilia de Santo Agostinho, na qual este santo Padre afirma que “o Príncipe dos Vícios venceu Adão, que foi feito do barro à imagem de Deus, armado de pureza, munido de temperança, irradiante em esplendor”. Ora, com isso fica claro que Adão refulgia como alguém provido da mais elevada perfeição moral, quer dizer, como alguém que estava dotado de todas as virtudes morais humanas, conclui o argumento, contrariando a hipótese inicial.

5. Encerrando por enquanto.

Muito interessante, ou muito assustador, pensar que a vontade humana pode desviar-se de Deus, mesmo num ser humano provido de toda a perfeição intelectual e moral. Não foi por deficiência de formação, nem por falta de virtudes morais, nem mesmo pela falta da graça, que eles caíram. Caíram em matéria grave, da qual estavam bem cientes, e caíram porque quiseram, e o quiseram tão livremente quanto qualquer ser humano, em razão de sua liberdade e não de algum suposto defeito, poderia querer. Para nossa felicidade, porém, a queda de um ser humano, em razão exatamente dos próprios limites humanos, não é irremediável como a queda de um anjo. Éramos – e somos – redimíveis. Mas não por forças humanas. Mas isso é assunto para muitos outros textos.

Nos próximos textos, estudaremos as respostas de Tomás ao debate aqui colocado.