1. Introdução.
Os anjos não podem ser conhecidos por nós. São inteligências subsistentes, formas puras que pensam em si mesmas. Não podem ser sentidas, experimentadas sensorialmente, senão pelos efeitos que provocam. São capazes de agir no mundo material, e portanto em nossa imaginação e em nossa memória, que, como vimos, são dimensões nossas que estão relacionados com a matéria. Mas não conseguimos entrar em relação com eles: todas as nossas relações dependem dos nossos sentidos externos, do nosso corpo, para se realizar. Como nossos sentidos não podem perceber os anjos, tampouco podemos chegar a conhecê-los em si mesmos ou manter com eles uma relação pessoal, salvo, é claro, por meios miraculosos, como ocorreu com Nossa Senhora, ou pela graça do discernimento dos espíritos, pela qual podemos, de certo modo e dentro de muitos limites, discernir quais inspirações eles provocam em nós.
É certo que a Revelação cristã nos dá a certeza de que eles existem, e todas as culturas intuíram sua existência, atribuindo a eles a condição de semideuses, de espíritos, de mensageiros ou de entidades sobrenaturais.
Então a pergunta é: eles estão além da nossa possibilidade de contato, de relação, como um efeito da queda no pecado? Será que nossos primeiros pais conseguiam ver os anjos, comunicar-se com eles, entrar em relação direta com eles?
Eis o tema deste artigo.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida é a de que nossos primeiros pais, no paraíso, eram capazes de enxergar os anjos, vê-los como eles são, entrar em relação real com eles, e não simplesmente saber teoricamente de sua existência e perceber eventualmente os efeitos de sua atuação, como nós. Com a queda é que teríamos perdido essa habilidade. Há três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que São Gregório ensinava que o ser humano, no estado de inocência original no paraíso, estava acostumado a usufruir das palavras de Deus e a ter a companhia dos santos anjos, dada a pureza de coração e a agudeza da sua visão. Ora, esse ensinamento prova que, de fato, Adão e Eva, ou seja, nossos primeiros pais, antes da queda, podiam se relacionar com os anjos, enxergá-los e conviver normalmente com eles, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Segundo o Livro da Sabedoria de Salomão (9, 15), “o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados”. Portanto, é em razão do presente estado, em que nossa alma imortal e incorruptível está unida a um corpo decaído pelo pecado original e corruptível, que não conseguimos enxergar os anjos. Nossa alma separada, depois da nossa morte, é capaz de perceber os anjos, porque já não está oprimida pelo corpo corruptível.
Ora, nos nossos primeiros pais, o corpo não era algo decaído, corruptível, isto é, não era um fardo, um peso para a alma, mas um complemento natural a ela. Logo, ele não poderia impedir a alma incorruptível e inocente dos nossos primeiros pais de enxergar os anjos e entrar em relação pessoal com eles, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
É por conhecer a si mesma que uma substância imaterial, que existe independentemente da matéria, é capaz de conhecer outra semelhante a si. É assim que os anjos são capazes de conhecer e entrar em relação com outros anjos, exatamente porque são capazes de se conhecer inteiramente, perfeitamente.
Mas nossos primeiros pais, que as Escrituras chamavam de Adão e Eva, eram capazes de conhecer integralmente suas próprias almas imortais; suas almas imortais são capazes de existência separada, como os anjos, e de perfeito autoconhecimento, como os anjos. Assim, suas almas eram perfeitamente capazes de conhecer diretamente os anjos e percebê-los, entrando em relação com eles, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, como já sabemos, sempre trará uma posição que impede de aceitar a hipótese inicial, recorrendo inclusive a uma autoridade que se posicionou de modo contrário.
No caso, trata-se de um argumento derivado da simples observação: os nossos primeiros pais não eram seres diferentes de nós, quanto à sua natureza. Tinham, como nós, a natureza humana. A diferença entre eles e nós é que sua natureza não estava ferida pelo pecado, no começo. Mas ainda assim, era tão humana quanto somos hoje, e apenas humana.
Ora, nossa natureza humana, hoje, não é capaz de perceber os anjos, de enxergá-los, de entrar em relação pessoal com eles. Este é um limite da própria natureza humana, e não algum fardo decorrente da queda, diz o argumento. Assim, nossos primeiros pais também não viam os anjos, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Não somos anjos. Não éramos antes do pecado dos nossos primeiros pais. Há sempre a tentação de imaginar que a nossa alma imortal e imaterial não é um simples elemento do ser humano, que se completa com o corpo, mas ela seria um anjos que se une eventualmente à matéria e só funciona perfeitamente quando se desliga dela, pela morte. Quem pensa assim não vê diferença essencial entre nós e os anjos: acredita que somos iguais aos anjos, embora, por alguma razão, ligados a um corpo que atrapalha. A única diferença entre nós e os primeiros pais é que, antes do pecado original, o corpo não atrapalhava a alma, e hoje ele se tornou um fardo. Visão falsa, espiritualista, gnóstica mesmo.
Esta não é, de maneira nenhuma, a visão de Tomás. Ele sabe que somos seres humanos, essencialmente corpo e alma, e éramos assim desde os primeiros pais. Não foi o pecado que determinou os limites humanos e a diferença entre nossa natureza e a natureza dos anjos. Somos diferentes desde o princípio.
Veremos mais sobre isto no próximo texto.
Deixe um comentário