1. De volta.

Ver Deus pessoalmente, entrar em relação direta com ele por Jesus, eis a liberdade perfeita e a felicidade plena. Deus é bom em todos os sentidos, não existe nenhum grau de bondade que não esteja nele em primeiro lugar e de modo fundamental. Assim, uma vez que o primeiro princípio da razão prática consiste em buscar o bem e evitar o mal, não há como buscar outro bem senão Deus, se estamos na presença dele. Mas, uma vez que nossos primeiros pais, no paraíso, buscaram algo fora de Deus que lhes pareceu bom, isto significa que não estavam na presença do Senhor, não o viam face a face. Vimos isto nos últimos textos.

Examinaremos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

A felicidade plena não pode consistir em outra coisa senão na presença de Deus, ou seja, em vê-lo assim como ele é, diretamente, sem intermediários. Ora, prossegue o argumento, São João Damasceno nos ensinou que os primeiros pais viviam na felicidade plena, no paraíso, antes da queda. E Santo Agostinho confirma: se os primeiros pais tinham os mesmos gostos e necessidades que nós, então eram plenamente felizes ali, porque podiam saciá-las completamente. Logo, conclui o argumento, o ser humano, antes da queda, vivia na presença direta de Deus.

A resposta de Tomás.

Havia felicidade plena no paraíso, mas não aquela felicidade da presença de Deus, que é a felicidade da consumação, que é a meta da peregrinação do ser humano nesta terra. A felicidade que havia no paraíso era aquela das necessidades e desejos naturais perfeitamente satisfeitos e da reta ordenação da natureza humana, que estava íntegra do modo pelo qual fora criada por Deus. O paraíso era capaz de satisfazer e sustentar completamente o ser humano ordenado, reto, virtuoso, que morava nele, antes da queda. Mas não havia ainda a visão beatífica de Deus ali.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que Santo Agostinho ensinou que ao ser humano, no Paraíso, não faltava nada que se pode desejar com uma boa vontade. Ora, não há nada mais adequado para o desejo de uma boa vontade do que o próprio Deus em pessoa, vê-lo e estabelecer uma relação direta com ele, ou seja, a visão beatífica plena. Logo, temos que concluir que o ser humano, antes da queda, gozava da visão plena de Deus no paraíso, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Chama-se “boa” à vontade plenamente virtuosa, bem-ordenada, na qual a razão controla integralmente as inclinações e afetos. Ora, uma vez que o ser humano, no paraíso, tinha uma vontade assim boa e virtuosa, ele sabia que não deveria almejar, ainda no início de sua peregrinação terrestre, aquilo que estava prometido como prêmio ao final dessa caminhada. Logo, ele não tinha a visão beatífica plena.

O terceiro argumento objetor.

A visão beatífica plena consiste em contemplar Deus diretamente, sem intermediários ou véus. Estabelecer uma relação pessoal com ele, vendo-o como ele é. Ora, sabe-se que o próprio Pedro Lombardo, chamado de “Mestre das Sentenças”, dizia que nossos primeiros pais “viam Deus sem intermediários”. Também Santo Agostinho ensinava que a obscuridade, a falta de clareza, a dificuldade de compreender a revelação são aspectos decorrentes do pecado; antes da queda, quando o ser humano ainda não andava em pecado, portanto, não havia obscuridade, nem linguagem cifrada ou enigmática na nossa relação com Deus. Logo, os primeiros pais viam Deus mesmo, em sua essência, antes da queda, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Pode-se entender essa noção de intermediário, ou de termo médio, em dois sentidos.

O primeiro sentido é aquele de um intermediário no qual se vê a própria coisa refletida, além de ver o intermediário. Assim é o que ocorre com um espelho: se eu olho pelo espelho retrovisor do meu automóvel e vejo que há um caminhão atrás de mim, eu vejo o próprio caminhão no espelho retrovisor, e vejo também o espelho retrovisor. Assim, a visão do reflexo é simultânea à visão do objeto refletido, e nesse sentido o espelho é um termo médio que me permite ver a própria coisa refletida.

Em outro sentido, um termo médio ou intermediário é aquilo que, uma vez conhecido, me permite chegar ao conhecimento de outra coisa que desconheço. Assim, se vejo uma criança junto com o seu pai, posso chegar à conclusão de que essa criança tem uma mãe, raciocinando assim: Toda criança necessariamente tem um pai e uma mãe; eis uma criança apenas com seu pai. Logo, ela deve ter uma mãe que, no momento, está ausente. Neste caso, o fato de ser uma criança e o fato de ter apenas um pai presente permitem-me chegar ao conhecimento de que há uma mãe em algum lugar, mas que ela não está presente agora. A criança que está apenas com o pai é, assim, uma espécie de termo médio para que eu chegue ao conhecimento de que há, em algum lugar, uma mãe que não posso ver agora.

Esse segundo tipo de termo médio não se colocava para os nossos primeiros pais. Eles não precisavam raciocinar, deduzir a partir da criação (como São Paulo menciona em Romanos 1, 19) para chegar à noção de que há um Deus criador. Eles não tinham esse tipo de desconhecimento, que precisasse de um raciocínio para ser suprido. É nesse sentido que Pedro Lombardo ensinava que nossos primeiros pais não precisavam de um “termo médio” para contemplar Deus. É o termo médio do raciocínio, que passa do conhecido para o desconhecido, que eles não precisavam.

Mas no primeiro sentido de termo médio, ou seja, naquele sentido análogo àquele pelo qual o espelho retrovisor nos mostra o automóvel que está nos seguindo, quando não podemos olhar diretamente para trás, eles precisavam de um termo médio para contemplar a Deus: mas a natureza era como que transparente para eles, porque era capaz de transmitir a eles diretamente a sua própria inteligibilidade, tal como fora concebida por Deus. Eles eram, portanto, capazes de enxergar a própria inteligibilidade divina com a qual tudo foi criado, e nessa visão podiam contemplar Deus como num límpido espelho.

Também a noção de obscuridade, de visão enigmática, pode ter um duplo sentido.

Se pensarmos que Deus mesmo é luz, claridade, ser absoluto, então necessariamente qualquer reflexo seu na criação, por mais visível e nítido, sempre será, em algum grau, obscuro com relação ao que ele é em sua essência mesma. Neste sentido, nossos primeiros pais viam, de algum modo, de maneira obscura, cifrada, em comparação ao que ele é em si mesmo.

Mas há outra forma de obscuridade, de visão enigmática, que decorre das limitações que nos são impostas pela queda no pecado. É a dificuldade de pensar, de contemplar, de enxergar os inteligíveis a partir das coisas sensíveis, com a qual nos deparamos hoje. Assim, para nós, a obscuridade, o caráter enigmático de nossa contemplação, não decorre apenas da natureza de Deus que nos supera infinitamente, mas também das marcas do pecado que feriu e debilitou nossa própria natureza. Neste sentido, os primeiros pais não tinham este tipo de obscuridade, registra Santo Agostinho.

3. Concluindo.

A pureza, a inocência das crianças é a inocência de quem ainda não viveu, de quem não foi confrontado e desafiado. A inocência dos nossos primeiros pais era um pouco assim. Mas, uma vez que o amor é sempre um caminhar livremente, mesmo eles precisavam ser desafiados a optar por Deus ou contra Deus, para poder entrar na glória. Ora, essa opção era necessária exatamente porque eles ainda não estavam na presença plena de Deus, ao qual somente se chega livremente. Ou, como dizia Santo Agostinho: Deus nos criou sem pedir nossa opinião. Mas não nos salvará contra a nossa vontade.