1. Retomando.

Saber qual é o estado de inocência original do ser humano é saber qual é o bem natural próprio dele, qual é a integridade da sua natureza, tudo o que o ser humano é de verdade. Saber, portanto, qual o efeito do pecado em nós, que não é pequeno. Vimos, no último texto, a hipótese de que, no estado original, ainda no paraíso, o ser humano fosse capaz de se relacionar diretamente com Deus, contemplar Sua essência divina sem ocultações, sem obscuridades, assim como ele é. E vimos o argumento de que há um caminhar, na história humana, desde o simples estado animal até o estado espiritual, e que apenas neste último, que é a culminação do ser humano, Deus se deixa ver em essência. Ora, o estado de inocência original não é o último, mas o primeiro; assim, este argumento objetor conclui que não éramos capazes de contemplação divina plena, mesmo na inocência original do paraíso.

Mas veremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta de Tomás.

A possibilidade de pecar e a presença imediata de Deus.

Os nossos primeiros pais, no estado inicial de inocência, não tinham uma relação direta e presencial com Deus, diz Tomás, salvo, é claro, aquelas situações de iniciativa do próprio Deus em que essa contemplação direta, essa relação direta, acontecia: Tomás dá o exemplo da criação de Eva, quando Adão foi posto a dormir e, do seu lado aberto, foi retirada a mulher. Há, aqui, uma relação direta entre os primeiros pais e Deus, mas como uma exceção, como um caso particular. Portanto, os primeiros pais, no estado de inocência primordial (ou seja, antes da queda) não viam Deus em sua essência.

De fato, diz Tomás, Deus é a completude absoluta, a alegria completa, a inteireza do bem. Isso é uma coisa que precisamos resgatar, nós, pessoas da atualidade. Depois de tantos séculos a partir de Tomás, nós perdemos a noção de que a possibilidade de pecar não faz parte da liberdade, mas é uma deturpação dela. Deus não pode pecar, mas é o mais livre dos seres: é o único capaz de atingir, imediatamente e sem dificuldade, a plenitude da alegria, da perfeição, em tudo o que faz. Todos os santos anjos e todos os humanos santos, estando em Deus, têm essa mesma liberdade plena, a de nunca falhar em obter a felicidade decorrente da plenitude. Diante de Deus, que é a plenitude mesma, não há como escolher errado: a liberdade consiste em querer e fazer o bem e fugir do mal, e Deus é o bem pleno. Quem o vê face a face jamais cometerá o engano de julgar que o mal é bom e vice-versa. Assim, uma vez que nossos primeiros pais cometeram esse engano, e buscaram o mal pensando que era bom, é certo que eles não estavam na presença mesma de Deus, no Paraíso. Se estivessem, não teriam a possibilidade de errar, não por deficiência de liberdade, mas exatamente pela presença inequívoca do bem a que a liberdade visa.

O modo mais elevado pelo qual os primeiros pais conheciam Deus.

É certo, porém, que, antes da queda, isto é, no estado de inocência original dos primeiros pais, o simples fato de que viviam com a natureza em ordem e com o influxo da graça permitia que conhecessem Deus de um modo muito mais elevado do que aquele pelo qual o conhecemos hoje.

De fato, Deus pode ser entrevisto pela sua criação, como diz São Paulo em Romanos 1, 19. E mesmo considerando a revelação de Deus em Jesus, ela é uma revelação que se dá em meio à criação e usa seus elementos, como se vê pelo fato da própria encarnação de Jesus e do registro de sua vida e palavras na Escritura e na Tradição, bem como sua presença real na Igreja e nos seus Sacramentos.

Para os que estão já na glória, Deus é visto em si mesmo. Mas para os que ainda caminham aqui, Deus se revela naturalmente na contemplação das coisas criadas. Discernir essa revelação (natural ou em Jesus) é muito difícil no estado atual da humanidade, após a queda no pecado, porque nossa natureza se tornou desordenada. Nossas paixões, nossos afetos, nossos prazeres sensuais, que deveriam estar submetidos à nossa alma inteligente, estão muitas vezes no controle de nossa vida. Essa desordem não existia para os primeiros pais, antes da queda. Neles, a inteligência controlava perfeitamente os instintos, os afetos, as paixões, de tal modo que podiam, muito mais claramente, contemplar Deus indiretamente, pelos efeitos inteligíveis que o próprio Deus causa na criação.

De fato, a inteligibilidade da criação é um espelho muito mais nítido para contemplar Deus do que a atração desordenada pelos simples prazeres instintivos e materiais. Disso sabem os grandes cientistas que vieram a se converter a Deus após contemplarem lucidamente a criação.

Mas a vida ordenada, equilibrada, dos primeiros pais no estado de inocência, permitia a eles muito mais clareza, muito mais lucidez do que qualquer cientista de hoje em dia. Do que qualquer teólogo ou mesmo do que qualquer um que caminhe num mundo decaído. De fato, antes da queda, o mundo era um claro espelho de Deus, de tal modo que eles tinham muito mais facilidade para enxergá-lo nessa contemplação ordenada.

O discernimento espiritual dos primeiros pais.

Além disso, como tinham um discernimento adequado, ainda não turbado pelo pecado, os primeiros pais podiam perceber muito mais claramente a voz do Espírito Santo falando em seus corações, ilustrando suas almas com a verdade e a inspiração direta de Deus. Para nós, hoje, é muito difícil discernir, em nossos corações, qual é a verdadeira voz de Deus, em meio a nossos pensamentos caóticos e desordenados e a tanta influência maligna que sofremos.

Assim, eles tinham facilidade no discernimento, porque podiam ter segurança sobre as inspirações divinas que recebiam – não como os santos anjos, que podem se relacionar com a própria essência divina e receber diretamente os influxos da vontade de Deus, mas como crianças dóceis e confiantes no Pai eterno. Mas os anjos foram criados já com a plenitude do conhecimento da criação infundido, o que nossos primeiros pais não tinham. Era uma inocência como que infantil. E, sem querer nos adiantar a Tomás, isso pode explicar, ao mesmo tempo, a sutileza da tentação demoníaca que os levou a pecar e a gravidade da anuência com a tentação demoníaca que sofreram. Eram, de certo modo, crianças, mas crianças íntegras quanto à natureza. Por isso o primeiro pecado não poderia deixar de ser essencialmente espiritual. Ainda debateremos mais isto, em outros textos.

3. Encerrando.

Nós não deveríamos sentir prazer no mal. Nem a desgraça alheia, nem a desordem sensual, nem a sexualidade desordenada, nem mesmo a injustiça ou soberba deveriam nos alegrar, porque são males, ou seja, são irracionais em si mesmos. São bens aparentes para nós apenas por causa das feridas deixadas em nós pelo pecado. E aí está o mistério: como puderam nossos primeiros pais, ainda vivendo na inocência, ainda dotados da graça suficiente para a salvação, optar contra Deus? Certamente isto diz muito sobre o amor de Deus: para que pudéssemos ser filhos, para que pudéssemos nos encaminhar para ele livremente, seria necessário que corrêssemos o risco de optar contra ele. E de fato nossos primeiros pais fizeram isto. Mistério do mal. Sua inocência era uma inocência do início, sem experiência, sem plenitude. De certo modo, estavam perfeitos na natureza humana, mas apenas de modo potencial. Somente vivendo, somente escolhendo, é que podemos aprender. A perfeição, portanto, está no fim da caminhada, e a queda de nossos primeiros pais demonstra como é bem possível cair.