Diante da proximidade do feriado civil da chamada “semana santa”, queria deixar meus votos de bons feriados para nós.
De fato, não se trata apenas de um fenômeno religioso, mas de um fato histórico, muito bem documentado por fontes (teológicas, administrativas, casuais, pictográficas) da época, como está muito bem registrado pelo jornalista americano Lee Strobel em seu belo livro “O Caso de Cristo” (que virou filme recentemente, disponível na Netflix).
A cultura humana (de todos os matizes) demonstrou esse interesse. Desde os belos ensaios junguianos sobre os arquétipos na Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo até análises forenses (“A Paixão vista por um Cirurgião”, de Pierre Barbet, com uma bela análise médico legal, ou “O Processo de Jesus”, de Paul Winter, dentre outros) ou estudos científicos (Projeto Sturp, dos cientistas da Nasa, registrado num documentário belíssimo da BBC).
Este fato cruzou também fronteiras religiosas (não só as Escrituras cristãs o registram, mas o Corão, alguns escritos judaicos como os de Flávio Josefo, além de escritos espiritistas e esotéricos como os de Kardec e Blavatski, para citar pouquíssimos) e provoca reflexões profundas até hoje, não excluídas algumas reflexões de viés ateu ou agnóstico – dentre as reflexões filosóficas, uma das mais profundas sobre a semana santa é aquela em que Nietzsche, com muita coragem, proclama a morte de Deus pelas mãos dos homens.
O que se trata, aqui, é da cruz. A cruz, ao contrário do que se pensa, não é um mero símbolo religioso: é uma realidade existencial humana. A cruz está presente na vida de todos. Ela vem para ateus e crentes, para cristãos e espíritas, para budistas e muçulmanos. Não há vida humana sem o mistério do sofrimento, da dor, da solidão, do abandono. E da morte.
Ninguém escolhe o próprio fim, diziam os antigos. Nem mesmo os suicidas: eles podem apressá-lo, mas ainda assim podem apenas provocá-lo, nunca inventá-lo. A própria morte é um fato, não uma criação pessoal – ela é dada. É a única coisa profundamente democrática, porque nos iguala a todos, sem exceção: os túmulos variam, mas a morte é a mesma para pobres e ricos, sábios e ignorantes, santos ou desorientados. Não em vão São Francisco dizia: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”.
Mas podemos meditar naquilo que aconteceu há tantos anos, naquele fato histórico único que nos foi origem dos feriados que ora gozamos. Nem relatos de guerras incríveis, como a dos espartanos ou dos troianos, nem de feitos heroicos como os de Hércules, nem sequer de conquistas e invencibilidade como Alexandre: curioso que as festas que restaram dessa antiga civilização envolvam a memória de um homem pobre, vindo uma cidade obscura do oriente, morto pateticamente por um procurador poderoso do maior império de então.
Mas não há, analisando bem, outra razão que pudesse maravilhar o mundo, senão a de vencer a morte. É disso que se trata. Nenhuma pessoa jamais o conseguiu. Poderia isto ter ocorrido logo com esse miserável condenado?
Que estes dias nos levantem essa pergunta, mesmo em meio àquilo que Pascal chamava ironicamente de nossos “divertissement”. A morte virá mesmo para quem não quiser pensar sobre ela. Mas isso não significa que torná-la desejável seja a solução: se há solução, ela virá de fora. Não há saída humana para esse paradoxo.
Mas o fato de não haver saída humana não significa que não pode haver saída. Procurar a saída, eis o dom; o dom é a busca. Ou, como dizia o genial Pascal, que inventou a matemática computacional três séculos antes dos computadores: “Tu não me procurarias, se já não tivesses me encontrado”. Eis o centro do que está sendo celebrado neste feriado civil no Brasil.
Feliz semana santa.
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