1. Voltando para encerrar.

Imagem de Deus. A imagem está justamente na inteligência, compreendida como a capacidade de entender o fim com razão de fim e dirigir-se livremente a ele. Somente nós, humanos, podemos agir. Os animais, mesmo os mais dotados de estimativa, apenas são como que agidos, como que conduzidos por instintos e forças programadas no sentido do seu fim.

É certo que não temos pleno conhecimento de nós mesmos, no sentido de que muitas das nossas decisões e ações são adotadas não com base na decisão inteligente de alcançar o fim, mas por força de partes obscuras do nosso ser, obscuras para nós mesmos. É por isso que, apesar de responsáveis, somos também perdoáveis, somos aperfeiçoáveis no nosso caminhar. Somos sempre capazes de visitar nossas próprias tendências, nossas próprias decisões, nossas próprias ações, para reavaliá-las, pedir perdão e seguir em frente. Em suma, temos consciência, no sentido de que temos reflexão.

Visitaremos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais que tentam estender a noção de imagem de Deus a todas as criaturas. Não podemos deixar de ressaltar a importância de estabelecer a noção de imagem de Deus no ser humano: por um lado, sua dignidade que o torna mais valioso do que todo o universo e impede sua instrumentalização, diferenciando-o, por ser pessoa, de todos os outros entes que são apenas coisas. Por outro, sua responsabilidade de ser um sinal vivo de Deus na criação, de ser o administrador e não o dono despótico, de ser, para as outras coisas, um sinal do amor que Deus tem por ele. Vamos a Tomás.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, segundo o Pseudo-Dionísio, aquelas coisas que são causadas por outras são como que imagens transitórias resultantes das suas causas. Ora, todas as criaturas são efeito do poder criador de Deus; logo, devem trazer em si a imagem de sua causa primeira, que é Deus mesmo. Portanto, a imagem de Deus está também nas criaturas inanimadas e irracionais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás vai nos lembrar que a própria noção de imperfeição depende da comparação com alguma coisa que é perfeita. Assim, se eu vejo uma semelhança imperfeita em alguma coisa, com relação a algo que é ali retratado, isto significa que essa semelhança é inferior, incompleta, se comparada com uma semelhança perfeita. Mas não deixa de ser uma semelhança. Assim, mesmo que admitamos que o ser humano é aquela criatura que é mais perfeitamente semelhante a Deus, isto não exclui o fato de que as outras criaturas, mesmo as inanimadas ou irracionais, não tragam em si alguma semelhança, mesmo que distante, de Deus. É por isso que o Pseudo-Dionísio diz que todas as coisas que são causadas por outras trazem em si, mesmo que de modo transitório, contingente, imperfeito, de alguma maneira, a imagem daquilo que as causou. Não são, neste sentido, verdadeira imagem de Deus (denominação reservada aos seres humanos), mas são, por sua semelhança distante, um tipo de imagem limitada, como que rudimentar, do ser e da vida de Deus, embora não de sua liberdade.

O segundo argumento objetor.

Quanto mais um ser se assemelha ao outro, mais podemos identificar, nele, a realização da noção de imagem. Ora, ainda segundo o Pseudo-Dionísio, os raios solares têm a máxima semelhança com a bondade divina; e eles são, como sabemos, realidades inanimadas. Portanto, as realidades inanimadas podem também ser imagens de Deus, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Os raios solares são comparados, metaforicamente, à bondade divina por seu poder de espalhar luz e calor, que causam o desabrochar da vida e os ciclos das estações. Ora, esta metáfora compara, pois, certos efeitos da luz solar a certos atributos de Deus, mas isto não significa que os raios solares, em sua essência mesma, sejam semelhantes a Deus, ou mesmo que, por sua espécie, sejam verdadeiramente imagens de Deus, afirma Tomás.

O terceiro argumento objetor.

Quanto mais um ser é perfeito em sua bondade, quanto mais possui facetas que refletem toda a riqueza da bondade de Deus, tão mais ele se assemelha a Deus, e pode ser considerado como imagem divina. Ora, cada ser, em sua individualidade, revela uma pequena faceta da bondade de Deus, mas só o universo criado, em todo o seu conjunto, é capaz de exprimir mais claramente a densidade da bondade divina. Logo, a universalidade da criação tem, mais plenamente, a razão de imagem de Deus do que cada indivíduo humano, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Antes de examinarmos diretamente a resposta de Tomás, uma digressão: este argumento revela quão antiga é a tendência a submeter a parte ao todo, desprezar a bondade do indivíduo em prol da bondade do todo; vemos, hoje, essa tendência se manifestar claramente não somente no totalitarismo político, mas em certo ambientalismo anti-humanista, bem como em certas correntes econômicas neomalthusianas que militam pela redução da natalidade humana, para citar algumas. Eis, pois, o risco de subordinar incondicionalmente o bem da pessoa ao bem do todo. Mas voltemos a Tomás.

Tomás admite que, olhando de um ponto de vista de conjunto, como uma soma, o universo apresenta uma bondade mais completa do que cada ser humano. Mas o universo não é uma “coisa”, mas um conjunto de coisas; assim, o ser humano, em si mesmo, apresenta uma bondade mais intensa do que todas as coisas que, somadas, constituem o universo; além disso, mesmo o universo, em seu conjunto, não é capaz de conhecer e amar a Deus por si mesmo, sem o ser humano. O universo não é capaz de reconhecer o sumo bem e buscá-lo livremente.

Além disso, o ser humano não está fora desse conjunto que chamamos de universo; é parte integrante dele, de tal modo que não é por comparação com o universo que se mede a bondade do ser humano, mas em comparação com todas as outras partes que o compõem. Se há algo que coroa o universo é justamente a profundidade da bondade humana, consistente na capacidade de entrar em relação livre com Deus. O erro, aqui, está em opor o ser humano ao universo, quando a bondade do universo, sem o ser humano, não pode ser chamada de “bondade completa” ou “universal”. Somos, por assim dizer, a dimensão orante do próprio universo, a marca de Deus nele; em suma, a imagem de Deus no universo.

O quarto argumento objetor.

Tudo o que existe no mundo é concebido na mente de Deus, existe antes em Deus do que no mundo. Tudo o que existe no mundo, portanto, é espelho do que existe na mente de Deus. Ora, ser espelho é justamente a noção de imagem. Logo, todo o mundo é imagem de Deus, e não somente a criatura humana, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Se considerarmos o trabalho criador do artesão humano como algo análogo ao trabalho criador de Deus, de fato chegaremos à conclusão de que qualquer artefato, qualquer artesanato que sai das mãos de um artista foi, em primeiro lugar, concebido em sua mente, de tal modo que o resultado, a obra de arte, é sempre o reflexo daquilo que está, em primeiro lugar, na pessoa do artista, como concepção; e é fácil observar que, quanto melhor o artista, maior é a sua capacidade de realizar obras que espelham suas próprias concepções, sua própria personalidade, sua própria mente. Ora, se Deus é o artista perfeito, só poderíamos concluir que sua obra criadora expressa a sua pessoa de maneira perfeita. Assim, de fato, a natureza criada é uma “revelação natural” de Deus, podemos dizer assim. Mas não é neste sentido que estamos tratando, aqui, da noção de imagem.

Para a noção de imagem que nos importa agora, o que estamos tratando não é da semelhança entre o resultado da ação criadora, por um lado, e a concepção divina, por outro; estamos tratando da semelhança da natureza criada com a natureza divina, por analogia. Neste sentido, a natureza racional, por sua liberdade em reconhecer o sumo bem e se dirigir a ele livremente, espelha melhor a natureza divina do que aqueles entes que simplesmente existem, como os inanimados, ou que são vivos, mas não são livres, como os irracionais.

3. Conclusão.

Como já dissemos e ponderamos, ser imagem de Deus é um dom e uma tarefa. É um dom porque nos reveste de dignidade, principalmente reveste o outro de dignidade; cada pessoa deve ser respeitada em sua imagem de Deus, mesmo que ela nem saiba ou nem se importe com isso.

Também é uma tarefa porque, sendo imagem, sabemos que devemos agir, devemos proceder frente ao mundo com a consciência de que não é nosso, e que devemos refletir, em nosso agir, a dignidade, a honra e a glória que são de Deus de modo absoluto.