1. De volta ao assunto.

Derrubando-se do ser humano o fato de ser imagem de Deus, ele passa a ser só mais uma coisa no meio das coisas; como diziam os antigos, jogando-se pedra em Deus, a pedra volta e atinge a cabeça do ser humano. Portanto, pode-se avaliar a importância desse artigo: se somos apenas uma coisa dentre as coisas, ou se o universo em seu conjunto, em seu bem comum, é mais imagem de Deus do que uma pessoa, então pode-se sacrificar a pessoa pelo bem das coisas ou do bem comum. Já ocorreu mais vezes do que seria possível contar. Mas, se não for reafirmado, perdemos até mesmo a noção de quão injusto isto é.

Assim, reafirmar que só o ser humano é imagem de Deus é simultaneamente reafirmar um privilégio e uma enorme responsabilidade, principalmente a responsabilidade de amar e de cuidar, de criar e de governar e conservar. Não somos livres para dominar e destruir, para cobiçar e devastar. Tampouco podemos ser objeto de dominação ou destruição, ou de redução a qualquer tipo de escravidão. Somos imagem de Deus, e só nós o somos. Imagem imperfeita, cujo fim é se parecer com ele mais e mais.

Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás à hipótese inicial de que todos os entes, mesmo os inanimados e os irracionais, seriam igualmente imagem de Deus.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Semelhanças genéricas e acidentais.

Não é o simples fato de que alguma coisa traz, em si, alguma semelhança com outra, que a transforma numa “imagem” daquilo que é semelhante. Existem, por exemplo, aspectos genéricos (por exemplo, pertencerem ambos ao gênero animal) e aspectos acidentais (por exemplo, manterem uma relação de hospedagem ou inquilinismo) que podem até tornar aqueles entes semelhantes, mas não os transformam em imagens um do outro. Tomás dá o exemplo de um verme que se desenvolve num homem: o verme e o homem compartilham, como semelhança, o fato de que os dois pertencem ao gênero animal, e compartilham entre si o fato de que o verme pode até se alimentar da carne do homem, nascer, crescer e se reproduzir no interior de seu organismo. Mas nem por isso diríamos que o verme é imagem do homem (a não ser num sentido muito figurado, para ofender alguém ou rebaixá-lo, num truque de retórica). Mesmo o fato de compartilharem alguma semelhança de aparência (como a cor) que os transforma em imagem um do outro. Um urso polar é branco, como uma garça também é branca, mas nem por isso dizemos que são imagem um do outro.

Semelhança de espécie, de acidente próprio e de figura.

Portanto, prossegue Tomás, existem três casos em que eu posso dizer que alguma coisa é imagem de outra: quando elas têm a mesma espécie (species); quando compartilham pelo menos algum acidente próprio da espécie e quando apresentam a mesma figura (aparência externa). Por isso, podemos dizer que o embaixador é imagem do rei (porque são dois seres da mesma espécie, com uma relação de referência de um para o outro). Ou podemos dizer que o papagaio, ao mimetizar a fala humana articulada, é como que uma imagem do ser humano (porque falar articuladamente é um acidente próprio da espécie humana). Ou, ainda, quando uma moeda traz a efígie do rei, podemos dizer que a moeda é imagem do rei, porque traz inscrita a sua figura. Em todos esses casos, há uma estrutura compartilhada que torna um ente em imagem do outro. É por isso que Hilário fala que a imagem sempre envolve uma estrutura comum, sem diferenças, ou seja, uma species compartilhada pelo ente que é retratado e por aquele que é a imagem do outro. Como o filho pode ser imagem do pai, a moeda pode ser imagem do rei ou o crocitar do papagaio pode ser imagem do ser humano.

A semelhança se intensifica pelos graus de perfeição específicos.

Como sabemos, a relação entre o gênero e a espécie é a relação entre uma semelhança comum e uma diferença específica. Assim, os seres humanos compartilham com todos os animais o fato de serem vivos e dotados de sensibilidade (semelhança comum), e a diferença de serem os únicos animais racionais (diferença específica). Portanto, quanto mais a semelhança se localizar na diferença específica, mais eu posso considerar que uma coisa é imagem da outra.

Ora, todas as criaturas, inanimadas ou animadas, possuem a existência; vale dizer, elas são. Neste sentido, elas têm uma semelhança muito genérica, de natureza analógica, com Deus, porque só Deus é de maneira absoluta, mas tudo o que tem o ser, ainda que de maneira derivada, tem uma certa semelhança com Deus. Mas essa semelhança não se constitui em imagem, porque é bastante remota.

As criaturas vivas, além de apresentarem a semelhança no ser, ainda apresentam a semelhança na vida, porque Deus é vivo no sentido absoluto, isto é, ele é puro dinamismo na permanência. Embora a vida criatural seja derivada, recebida e transitória, ela traz mais um grau de analogia com Deus. Neste sentido, os seres vivos são mais semelhantes a Deus do que as criaturas inanimadas, porque possuem outro nível de semelhança analógica que as inanimadas não possuem.

Por fim, dentre as criaturas vivas, há uma cuja diferença específica consiste na inteligência. Ora, neste caso, ao ser e ao viver inclui-se o inteligir como semelhança, de tal modo que a semelhança está inscrita na própria diferença específica desta criatura. Não há, pois, dentre os seres criados, nenhum outro com uma semelhança mais completa, nem algum cuja semelhança esteja inscrita na diferença específica mesma. Não há possibilidade de algum grau de semelhança mais próximo do que este, dentre as criaturas.

Assim, podemos dizer que aquelas criaturas cuja espécie se caracteriza pela existência, vida e inteligência são as que podem, adequadamente, ser chamadas propriamente de imagem de Deus.

3. Encerrando.

Alguns artigos de Tomás são mais fortemente técnicos do que outros. É o caso deste. Para afirmar que a semelhança que se apresenta na inteligência é aquela que configura uma criatura como “imagem de Deus”, ele desce a profundidades filosóficas talvez complicadas para nós, hoje. Não devemos desanimar.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.