1. Retomando.

É difícil ler a Suma com atenção e não se encantar com as intuições de Tomás, especialmente aquelas que ajudaram a construir uma sociedade mais justa, mais civilizada, em nossos dias. De fato, em pleno século XXI, nós estamos presos num sistema econômico que torna o ser humano um estranho, com relação à natureza e ao outro. Ver, então, esse esforço intelectual de Tomás para nos fazer parte do mundo natural, criaturas com as criaturas, permite ao Papa Francisco escrever documentos maravilhosos como a Fratelli Tutti ou a própria Laudato Sí, em que nos chama à responsabilidade para com os outros e para com a natureza. Somos todos, nós e a natureza, barro do mesmo barro.

Examinaremos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor afirma que criar alguma coisa do nada manifesta mais claramente o poder infinito de Deus do que moldar o corpo humano do barro, já que a distância entre o nada e o ser é muito maior do que a distância entre a matéria e um ente em ato. Ora, o ser humano é, inegavelmente, o ápice da criação. Deve ter sido criado, pois, da maneira mais nobre possível. Logo, é muito mais conveniente admitir que ele foi criado do nada do que admitir que Deus o moldou do barro, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tudo o que há de material no universo foi criado do nada por Deus. Portanto, também o barro do qual Deus moldou o corpo humano foi criado do nada, e aí está manifestada a potência divina. Mas era preciso evidenciar, no caso do ser humano, essa dupla origem do corpo por geração e da alma por criação direta, o que faz do ser humano uma síntese entre o mundo material e o mundo espiritual, resumindo em si toda a criação. O barro, pois, representa a criação material incorporada na própria essência humana, conclui Tomás.

O segundo argumento objetor.

Aqui, o argumento vai buscar fundamento na visão científica do tempo de Tomás, que defendia a existência de um tipo de matéria mais nobre, chamada de “quinto elemento”, que formava os astros e estrelas, diferente dos quatro elementos que existem na Terra, como eles acreditavam. Esse “quinto elemento” não teria a propriedade de degradar-se para formar outras coisas, isto é, uma vez compondo um determinado astro ou estrela, ele permaneceria estável pela eternidade.

Ora, prossegue o argumento, se os seres humanos são caracterizados pela inteligência, eles são ainda mais nobres do que os próprios corpos celestes, que são inanimados. Assim, não é conveniente dizer que nós, com nossa dignidade de seres racionais, tenhamos sido feitos de barro: melhor sustentar que somos feitos da mesma matéria especial e preciosa que os astros e estrelas, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Mesmo que exista uma “quinta essência”, ou seja, um tipo de matéria especial que comporia os corpos celestes (que, no tempo de Tomás, a ciência acreditava existir), ela não seria um bom componente para o corpo humano. De fato, se os corpos celestes fossem feitos de uma matéria imutável, indestrutível, sujeita apenas a receber, de uma vez por todas, a forma de um astro ou estrela, isto significa que ela não poderia ser modificada por nenhum outro estímulo exterior; assim, ela não poderia compor o corpo de nenhum animal, porque os animais precisam receber estímulos exteriores pelos órgãos dos sentidos, e estes estímulos causam modificações materiais em nosso corpo. Como um corpo poderia ser composto de uma matéria absolutamente imutável e, ainda assim, possuir, por exemplo, o tato? Simplesmente não conseguiria sofrer as alterações na pele que são necessárias para a percepção, pelo tato, das superfícies com as quais entrar em contato. Do mesmo modo com todos os outros sentidos. Assim, uma “quinta essência” imutável e impassível não seria uma boa matéria-prima para um corpo animal.

É certo que alguns teóricos do tempo de Tomás imaginaram que essa “matéria celeste” entraria em nosso corpo como luz, ou como ligação entre o corpo e a alma. O que seria absurdo, diz Tomás. Primeiro porque a luz não é algo corporal, diz Tomás. E, além disso, se a quinta essência celeste se caracteriza pela imutabilidade e pela impassibilidade, ela jamais poderia se misturar com os outros quatro elementos para formar um corpo composto, porque esse corpo seria em parte destrutível e em parte indestrutível, o que não teria sentido. Além disso, se o quinto elemento existe apenas para formar corpos celestes, não há sentido em imaginar que ele pudesse se misturar com outros elementos “terrenos” para formar o nosso corpo, que não é celeste, mas biológico.

Hoje, em pleno século XXI, sabemos que não existe nenhuma “matéria especial” que forme astros e estrelas e não esteja presente na Terra, mas há uma homogeneidade de matéria em todo o universo. Portanto, as intuições de Tomás se apresentam como ainda mais fundamentadas pela ciência de nossos dias do que pela ciência de seu tempo.

O terceiro argumento objetor.

No tempo de Tomás, a ciência ensinava que o mundo é constituído de quatro elementos, o fogo, o ar, a água e a terra. Destes, dois são sutis e muito fluidos: o fogo e o ar. Dois são mais densos e pesados, a água e a terra. Ora, o ser humano é elevado, é a mais nobre dentre todas as criaturas, e suas capacidades são sutis e fluidas. Logo, ele deveria ser constituído de fogo e ar, e não de água e terra; portanto, o barro não é uma matéria-prima adequada para o corpo humano, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Esta resposta de Tomás marca o respeito que ele tinha pela ciência do seu tempo, mas, ao mesmo tempo, marca sua visão forte e irrenunciável sobre a dignidade do ser humano. A resposta é colocada em termos quase incompreensíveis para nós hoje, porque leva em conta a visão científica da época sobre o comportamento dos “quatro elementos”. Ora, a proposição do argumento objetor e a de que o corpo humano não devia ser feito de “barro”, mas de ar e fogo, elementos “sutis” e elevados”. Ora, se fôssemos feitos de ar e fogo, seríamos fantasminhas flutuando por aí, atravessando paredes e soprados pelo vento. E, como Tomás lembra muito bem, nossos sentidos simplesmente não funcionariam: como poderíamos ter um aparelho ocular feito de ar e fogo? Como poderíamos ter tato sem ter consistência corporal para resistir ao toque e ao calor? Já não teríamos nenhum tipo de sensibilidade para com as outras coisas materiais. Seríamos como espectros diáfanos e insensíveis, e não animais inteligentes como somos hoje. Quer dizer, se nosso corpo fosse gasoso, simplesmente não seríamos humanos. É preciso, pois, louvar a Deus pelo fato de que nosso corpo tenha a composição exata e adequada para interagir com o universo material, experimentá-lo e aprender com ele. É o que a física contemporânea (do século XXI) costuma chamar de “princípio antrópico”: a descoberta de que toda a composição das constantes do universo possibilita exatamente que sejamos humanos, e que o sejamos justamente do jeito que somos. Portanto, não seria uma boa ideia se fôssemos feitos de ar e fogo.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor afirma que, no nosso corpo, não existe apenas barro, ou seja, terra e água; existem todos os elementos, inclusive o ar (da nossa respiração) e o fogo (nossa condição de seres homeotérmicos). Logo, o relato da Bíblia, quando diz que fomos feitos do barro, está equivocado, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

É preciso cuidado para ler a Bíblia; disso Tomás já sabia em pleno século XIII, quando ele viveu. É impressionante, também, que Tomás se recuse a ser um “fundamentalista bíblico”, e nos ensine, ainda hoje, a ler adequadamente a Bíblia.

É claro que o escritor bíblico está sujeito às limitações científicas do seu tempo, diz Tomás. E, diríamos hoje, ele não seria obrigado a conhecer a tabela periódica e a estrutura microscópica do ser humano, porque estava revelando verdades teológicas, não verdades químicas ou biológicas.

Assim, nem sequer a chamada “teoria dos quatro elementos”, que é de origem grega, precisaria ser conhecida pelo escritor bíblico, que viveu em outra época e em outro contexto cultural. O objetivo do escritor, devidamente inspirado pelo Espírito Santo, é o de ensinar que nosso corpo é terra com a terra, é matéria com a matéria, é feito da mesma matéria comum que compõe todos os seres. Se a Bíblia usa, para isto, a imagem da “lama”, do “barro”, ela o faz porque esta era a imagem que permitiria a comunicação com as pessoas simples Às quais a mensagem bíblica é destinada, desde os tempos mais antigos, e não para induzir debates científicos ou filosóficos. Por isso a imagem bíblica faz uso do “barro”, que é algo da realidade de todos, mesmo dos mais simples, e não faz uso de algum discurso erudito. Mas deve ser entendida com toda a prudência, no mesmo espírito com que foi escrita.

3. Conclusão.

Tomás não transige. Somos barro, porque somos um com a Criação, e não há maneira mais conveniente de dizer isso do que aquela que as Escrituras encontraram. Por outro lado, é muito conveniente, para que sejamos o que somos, que sejamos feitos de barro.