1. De volta.
O corpo humano nos insere na criação, torna-nos semelhantes às outras criaturas, faz-nos homogêneos com a natureza. Mas temos uma dificuldade para aceitar isso; aceitar louvar o Senhor por todas as coisas de quem somos, pelo corpo, irmãos. É o que o Papa Francisco nos ensina na Laudato Sí. E o que Tomás nos ensina aqui. Sim, pode ser que os elementos que compõem a Terra, e especialmente aqueles que possibilitam a vida, tenham surgido como resultado das reações que ocorrem nas estrelas, e, de cerro modo, possamos ser considerados como formados de “poeira de estrelas”. Mas isso não deve nos levar a imaginar, como fazia a ciência antiga, que as coisas que estão no Espaço Sideral sejam, de alguma maneira, mais nobres ou mais elevadas do que as coisas da Terra. Não há uma “quinta essência”, não há uma matéria-prima exclusiva para os corpos espaciais. O universo é uniforme em sua estrutura, e isso aumenta a nossa própria solidariedade com toda a criação material. E o mais impressionante é ver que Tomás, apesar de respeitar a ciência de seu tempo, não se deixa enganar por ela, e reafirma o princípio de que nosso corpo é homogêneo com toda a criação material. Não somos seres feitos de “matéria sutil”, de fogo e ar, nem somos seres espaciais vivendo como exilados na Terra: somos terra também.
É bom lembrar que isso é reiterado a cada momento pela própria Bíblia; quero recordar o Salmo 08, em que a dignidade do ser humano é colocada de um modo plenamente inserido na natureza, e em especial, a oração dos três jovens na fornalha, em Daniel 3, 57-88 (lamentavelmente ausente da versão protestante da Bíblia).
Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás quanto à hipótese de que nós não sejamos também feitos do mesmo barro que as outras criaturas.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O entorno cultural de Tomás.
A resposta sintetizadora de Tomás traz, é claro, as marcas dos limites da ciência do seu tempo, que não conhecia a nossa “tabela periódica” com centenas de elementos, e trabalhava com a hipótese de que houvesse, em nosso mundo, apenas quatro elementos, o fogo, o ar, a água e a terra. Nos corpos celestes haveria um outro tipo de matéria, chamada de “quinto elemento”, que seria marcada pela incorruptibilidade e não teria potencial para ser outra coisa senão um corpo celeste.
Assim, nessa visão de mundo de então, que não separava teologia, filosofia e ciência empírica, Tomás encontra o caminho certo para reafirmar a enorme dignidade do ser humano, a partir de uma interpretação muito bela de Gn 2, 7, ou seja, trazendo o significado mais rico a respeito do que significa, para o ser humano, ter sido formado do barro.
A hierarquia do ser.
Na concepção da hierarquia do ser, Deus está no topo. Ele é a perfeição, ele é o ser por si, sem partes, sem composição, sem transformação, sem causas, pleno em poder e em amor. Assim, todas as coisas que existem (e que não são o próprio Deus) recebem dele a existência. Pode-se dizer, pois, que todas as coisas preexistem em Deus como os efeitos preexistem na causa. Para tornar mais claro, pensemos num exemplo: de certa forma, para que eu coma maçãs, preciso que exista uma macieira, porque as maçãs preexistem, de certo modo, na macieira. Se não há macieira para produzir maçãs, não há maçãs. Assim, tudo preexiste em Deus; mas, nele, as coisas preexistem de modo simples e unificado, como a água preexiste na fonte antes de se tornar rio, lago, cachoeira e assim por diante.
Da perfeição simples de Deus, em sua plenitude de saber e de querer, derivam os anjos, que dele recebem o conhecimento de todas as coisas criadas e a possibilidade de querer ou rejeitar o próprio amor de Deus. No anjo, pois, está a simplicidade espiritual, o conhecimento amplo, a vontade poderosa, mas não está a divindade: ele é criatura, isto é, seu ser é concebido por Deus, sua existência é dada por ele, seu conhecimento é derivado do conhecimento divino, seu querer depende da graça para chegar à perfeição, e sempre pode rejeitá-la e escolher a perdição. Mas no anjo está o conhecimento de tudo o que Deus produziu, de modo indiviso e simples. Assim, não há outra criatura mais próxima, mais elevada ontologicamente, do que os anjos; neles existe a síntese espiritual de toda a criação.
O ser humano, síntese de toda a Criação.
Logo em seguida vem o ser humano. Somos criados com a capacidade de conhecer, mas somos criados na ignorância. Diferentemente dos anjos, nosso conhecimento e nosso querer são imperfeitos, incompletos, provisórios, necessitados sempre de aperfeiçoamento e correção. Mas, por outro lado, possuímos em nós a síntese de toda a criação impressa em nossa estrutura mesma: somos, de certa forma, espirituais como os anjos, porque temos uma alma espiritual, mas somos, pelo corpo, materialmente semelhantes a toda a criação material. Assim, somos uma síntese do mundo espiritual e do mundo material, mas uma síntese que é, ao mesmo tempo, uma tarefa: mesmo materialmente compostos de todas as coisas, nós não sabemos nem amamos como deveríamos saber e amar; para isso, precisamos caminhar pelo mundo e viver na graça. Diferentemente dos anjos, que são criados na plenitude de sua natureza, e aos quais resta apenas optar por Deus ou contra ele, para nós, humanos, a perfeição natural precisa ser conquistada.
De certa forma, a descrição do Gênesis (2,7) é precisa: somos compostos, por um lado, do barro, isto é, dos elementos mais grosseiramente materiais, e, por outro lado, animados pelo próprio hálito divino, que não é Deus, mas vem diretamente dele. Por isso, diz Tomás, os elementos superiores predominam em nós pelo espírito, e os inferiores, mais rudemente materiais, pela corporeidade que nos insere no universo das coisas criadas, e que parece prevalecer em nós quando somos gerados (já que o corpo nos é dado, mas a perfeição do espírito em nós deve ser conquistada).
Assim, ao descrever o corpo como formado do barro, a Palavra revelada nos ensina que somos uma verdadeira síntese de toda a criação, uma espécie de microcosmos, no qual todo o cosmos está resumido – representamos, de certo modo, cada um de nós, todas as criaturas perante Deus.
É o que nos ensina o Salmo 8, que Tomás, de certo modo, resume aqui na sua resposta:
Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!
Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus.*
Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde vossos adversários,
e reduz ao silêncio os vossos inimigos.*
Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes:
“Que é o homem – digo-me então –, para pensardes nele?
Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?”
Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes.
Deste-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo.
Rebanhos e gados, e até os animais bravios,
pássaros do céu e peixes do mar, tudo o que se move nas águas do oceano.
Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!
3. Encerrando.
Belíssima a resposta de Tomás, e nos deixa com uma enorme responsabilidade.
No próximo texto examinaremos suas respostas aos argumentos objetores iniciais.
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