1. Introdução.
Eis uma discussão importantíssima, cuja relevância fica escondida a nossos olhos pelos nossos preconceitos quanto à palavra bíblica e à nossa suposta “superioridade intelectual” com relação ao pensamento medieval, no qual Tomás estava envolvido. Não se trata, aqui, de defender uma leitura literal da Bíblia, no sentido de que o primeiro homem tenha sido realmente moldado artesanalmente por Deus do barro, mas esclarecer a profundidade do significado desse trecho: nós, humanos, somos pó do pó, somos constituídos essencialmente dos mesmos elementos que constituem o resto da criação. Não somos estrangeiros no mundo material, não somos anjos presos na matéria má, mesmo porque a matéria não é má; ela é uma dimensão da criação que, tendo sido produzida por Deus, foi por ele declarada como “boa” (conforme o primeiro relato da Criação em Gn 1, 1 a 2, 4). É isto que significa ser “feito do barro”: ter cidadania na criação como parte dela, ser a voz espiritual das coisas materiais, de cuja constituição compartilhamos. É isto que está em jogo aqui.
É preciso lembrar que não há apenas um relato de criação na Bíblia, mas, de fato, a criação é relatada em várias passagens, com objetivos teológicos diversos. No Livro do Gênesis, temos dois relatos iniciais: o primeiro encontra-se em Gn 1, 1 a 2, 4. O segundo relato encontra-se em Gn 2, 5 a 25, e narra novamente, com outro enfoque, o modo pelo qual o Senhor criou todas as coisas. Se no primeiro relato, Deus cria tudo com sua palavra, aqui neste segundo debate há uma maior relação dele com a criação. Ele age como artesão, cirurgião, administrador, enfim, com um envolvimento muito maior com o ser humano.
É muito interessante notar que o Espírito Santo, ao inspirar os redatores e os editores da Bíblia (que já não sabemos quem foram), inspirou-os a deixar, no material editado, tantos relatos diversos, que não são contraditórios, mas complementares. Somente uma leitura literal, rasteira, não compreenderia isso. É preciso crer, lendo a Bíblia, que Deus não precisa de material anterior para criar; mas também é preciso crer que somos feitos do mesmo material que o resto da criação. Isso é muito belo.
Esclarecidos estes detalhes, vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial quer justamente negar essa homogeneidade entre o ser humano e o restante da criação, quanto à nossa dimensão material. E propõe que, aparentemente, o corpo do primeiro ser humano não foi feito do barro da Terra, como a Bíblia propõe. Ou seja, Deus não nos concebeu originalmente com a mesma matéria com que fez o resto das coisas criadas, propõe esta hipótese. Somos diferentes, em constituição, com relação ao resto da criação. As implicações desta proposição, como podemos perceber, são gravíssimas: se as coisas fossem assim, nós, humanos, não seríamos parte da natureza, do ambiente, mas verdadeiros intrusos aqui, para dominar ou destruir, ou de algum modo mudar a harmonia de todas as outras coisas. É fácil, portanto, relacionar esta hipótese, por exemplo, com certas correntes anti-humanistas que defendem que nossa simples presença no mundo é um perigo para as outras coisas, por um lado, ou então com aquelas correntes que pregam que o resto da natureza não deve ter nenhum valor para nós senão para ser usado e apropriado pela capacidade superior da inteligência humana, ou seja, apenas pelo trabalho humano é que a natureza adquiriria valor e significado. Desequilíbrios gravíssimos, que podem desvalorizar, por um lado, o ser humano, ou, por outro, o meio ambiente, podem esconder-se nesta hipótese.
Há quatro argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que é necessário muito mais poder para criar algo a partir do nada, como Deus faz no primeiro relato da criação, do que para moldar alguma coisa a partir do barro, como está relatado no segundo relato, Gn 2, 7. Ora, o primeiro relato respeita mais, portanto, a dignidade intrínseca do ser humano, ao relatar que ele foi criado do nada, e culminou, no sexto dia, toda a obra da criação. Assim, é muito mais adequado crer que o ser humano foi retirado do nada do que acreditar que ele foi moldado do barro, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento também parte da ideia da dignidade do ser humano, e quer concluir que essa dignidade é tão grande que o torna materialmente diferente do resto das coisas que existem aqui na Terra.
É preciso lembrar, nesse ponto, que a ciência do tempo de Tomás acreditava que os corpos celestes eram feitos de uma matéria diferente daquela que compunha os corpos materiais das coisas terrestres; essa matéria, conhecida como “quinta essência”, era diferente dos quatro outros elementos (terra, fogo, ar e água) porque não era mutável: uma vez que se convertia naquilo que devia ser, ficaria assim por toda a eternidade. Era assim que a ciência daquele tempo explicava a aparente imutabilidade da lua, do sol e das estrelas, que, apesar de moverem-se no céu, pareciam nunca mudar de rota nem mudar de brilho. Pareciam ser eternos, enquanto as coisas terrestres pareciam todas corruptíveis. Assim, a ciência propunha que elas eram constituídas de uma matéria mais nobre, indestrutível, imutável.
(apenas como digressão, registramos que a ciência do século XXI, embora muito mais rica em termos do conhecimento dos elementos que compõem o universo, e mesmo já sabendo que há uma homogeneidade de composição em todo o universo – e que nada como a quinta essência separa os corpos celestes dos terrestres – veio a propor que as estrelas serviram para a síntese química dos elementos que, hoje, compõem nosso corpo. Somos, de certo modo, compostos também de poeira das estrelas, mas não como este argumento propõe).
Ora, uma vez que o ser humano, sendo dotado de alma espiritual e sendo imagem e semelhança de Deus, tem, sem dúvida, o status de obra mais nobre da criação, então seu corpo não deveria ter sido constituído com a matéria terrestre, pensa o argumento; isto seria uma verdadeira desonra. Nosso corpo deve ser constituído com a quinta essência, que é a matéria celeste, muito mais compatível com a nossa nobreza do que a matéria terrena, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento também parte da ideia de que somos nobres demais para termos sido feitos de uma matéria tão prosaica quanto o barro (digressão: o que nos indica que o relato da criação que está sendo debatido aqui traz uma bela mensagem de humildade também). De fato, barro é terra e água. São os dois elementos mais pesados, mais rasteiros, mais prosaicos da criação. Por outro lado, os outros dois elementos, o ar e o fogo, são leves, dinâmicos, belos, elevados. Assim, se fôssemos feitos com barro, isso seria incompatível com a nossa dignidade. Logo, deveríamos ser feitos do ar e do fogo, e não do barro, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Este argumento usa a ciência do seu tempo, de um modo mais razoável, para criticar o segundo relato da criação e a ideia de que nosso corpo foi feito do barro.
A ciência demonstra que somos compostos dos quatro elementos em nosso corpo. Mas o barro é composto apenas de dois: terra e água. Logo, não somos feitos do barro, mas de todos os elementos naturais, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra traz simplesmente a autoridade das Escrituras para dizer que, se o Livro do Gênesis (2, 7) afirma que Deus criou o ser humano do barro, então isso deve ser tido como verdade.
5. Encerrando.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás nesse tema tão bacana, que envolve interpretação bíblica, harmonização científica, natureza humana e dignidade da criação, além de nos revelar a verdade sobre nossa relação com todas as outras coisas criadas. Tema tão importante numa era de tantos conflitos ambientais, como o Papa Francisco registra na Encíclica Laudato Sí: nós, humanos, embora tendo a dignidade de portar a imagem e semelhança de Deus, somos um com a criação que nos cerca, e por isso devemos respeitá-la.
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