1. Retomando.
Há conhecimentos intelectuais, em nós, que não chegam a envolver imagens. É o caso, como vimos no último texto, de certos conhecimentos matemáticos muito abstratos, como a possibilidade de calcular figuras geométricas com mais do que três dimensões. Esta possibilidade matemática existe, mas nossa imaginação não consegue concebê-la como uma imagem, porque não há possibilidade de explorar, de modo sensorial, mais do que três dimensões. Há outro exemplo: são os anjos. Sabemos que eles existem, até como um conhecimento de fé, mas não conseguimos imaginar como se apresenta uma criatura puramente espiritual.
Quando morremos, perdemos inteiramente a capacidade de memória concreta e, com ela, a imaginação, além de todas as capacidades sensoriais. Conseguimos, no entanto, pensar, graças à iluminação de Deus em nós. E este pensamento envolve todas as coisas das quais tivemos ciência em vida, sejam elas coisas singulares, como vimos no artigo anterior, sejam simplesmente os conhecimentos intelectuais que adquirimos em vida. Eles também fazem parte da nossa identidade, e o fazem de modo indelével: somos quem somos porque sabemos o que sabemos e amamos ao que amamos.
Neste texto, passamos a examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, no seu famoso hino ao amor da 1ª Carta aos Coríntios, capítulo 13, São Paulo trata das coisas que passarão e das coisas que permanecerão. Especialmente no versículo 8, terceira parte, o Apóstolo diz expressamente: a ciência findará. Assim, conclui o argumento, com a morte perdemos toda a ciência que adquirimos em vida.
A resposta de Tomás.
Tomás interpreta esta passagem como se referindo à possibilidade de aprender, ou seja, à aquisição da ciência, que, de fato, cessa com a morte. Os mortos não aprendem mais. Portanto, conclui ele, não se trata, aqui, de alguma prova bíblica de que a morte destrói os conhecimentos intelectuais de nossa alma.
O segundo argumento objetor.
Há muita gente, nesta vida, que é muito mais culto do que os outros, porque teve vantagens econômicas, culturais ou mesmo geográficas para ter acesso a uma formação científica ou educacional muito maior do que a de outras pessoas, que, no entanto, são muito mais amorosas e santas do que eles. Ora, se a ciência e a formação intelectual permanecessem na alma após a morte, então esses mais cultos e mais informados intelectualmente teriam vantagem, na vida eterna, sobre os mais santos, o que seria injusto. Logo, conclui o argumento, a morte elimina todo o conhecimento intelectual da alma.
A resposta de Tomás.
Há algumas qualidades que tornam as pessoas diferentes entre si, mas não necessariamente as tornam melhores ou piores do que as outras. Assim, aqui no reino dos vivos, alguns podem ser mais altos, mais baixos, mais magros ou mais gordos, sem que isto implique serem melhores ou piores. Assim, do mesmo modo, na vida futura, alguém pode ser mais informado, mais culto, sem necessariamente ser melhor do que outro que ama mais ou é mais santo. Essa diferença de cultura ou intelecto não se comparará às prerrogativas da santidade e do amor.
O terceiro argumento objetor.
A iluminação de Deus, após a morte, sobre a alma, decorre do simples fato de que Deus ama cada ser que criou e o assiste, mas não pode ser confundida com a visão beatífica: esta última concede a glória pela eternidade. Ainda assim, esta iluminação permite que a alma tenha acesso ao próprio conhecimento divino, como lume para seu próprio pensamento. Uma vez que Deus é onisciente essa iluminação tornaria inútil ou redundante qualquer conhecimento que a alma tivesse levado consigo da sua vida terrena. Assim, o conhecimento terreno, ainda que intelectual, científico mesmo, não permanece na alma após a morte, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Estes dois modos de conhecer não têm a mesma natureza, e por isso não se anulam, diz Tomás. Uma coisa é ser recebido por Deus e ser iluminado por ele para conseguir seguir pensando após a morte; o acesso que se tem ao intelecto divino não torna a alma onisciente, mas apenas viabiliza o exercício do seu próprio pensamento, embora de um modo totalmente livre de ambiguidades, obscuridades, falsidades ou máscaras.
Por outro lado, a ciência que se adquiriu em vida é parte do que a própria alma é; de certa forma se incorpora nela e marca sua identidade mesma. Assim, iluminada por Deus, ela é capaz de pensar de modo claro e distinto sobre esses conhecimentos intelectuais que trouxe de vida, enquanto o restante da ciência divina apenas pode ser divisada pela ela de modo confuso, indeterminado. Portanto, não há superposição, mas complementariedade nesses modos de conhecer.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor parte da constatação de que nossos conhecimentos intelectuais podem se degradar, mesmo em vida, por força de doenças como a demência ou semelhantes, que prejudicam ou destroem certas estruturas em nosso corpo que são responsáveis pela memória ou pelo próprio exercício de imaginar ou pensar. Ora, nenhuma doença pode ser comparada, em termos de destruição corporal, com a própria morte. Assim, se a simples doença deteriora a ciência no intelecto, a morte deve simplesmente aniquilá-la, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Pensar, ou seja, exercitar o intelecto, é uma capacidade estritamente intelectual, e portanto espiritual, e não pode ser impedida pela morte. Por outro lado, nosso pensamento depende radicalmente das nossas capacidades corporais, como a memória e a sensibilidade, como já vimos na resposta sintetizadora, no texto anterior, e em outros debates anteriores. Assim, o argumento tem razão em parte: nosso modo propriamente humano, autônomo, de pensar, que envolve o corpo e a alma, é destruído irremediavelmente pela morte; mas isso não significa que nossos conhecimentos intelectuais também se percam, conforme já vimos no texto anterior.
3. Concluindo.
Assuntos fascinantes! Quanta riqueza escondida numa pequena questão da Suma, sobre um tema que fascina tanto nossos contemporâneos presos em filosofias e teologias equivocadas.
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