1. Retomando.
É essencial insistir que a sobrevivência da mente implica identidade; se, por um lado, somos imortais (quanto à nossa alma, essa imortalidade é natural), por outro a morte extingue irremediavelmente a nossa existência “animal”, mas não a nossa existência própria. Assim, prosseguimos numa existência fraturada, incompleta, que somente se mantém por força das relações que nos identificam: a principal delas é a relação com Deus, que, nos recebendo na morte, possibilita a nossa mente continuar pensando mesmo na ausência do corpo, pela iluminação. Essa iluminação equivale ao juízo individual, porque nos encaminha à autocontemplação perfeita à luz do amor. Nossas memórias pessoais estarão perdidas, porque a memória histórica é uma função do corpo. Mas Deus conhece todas as coisas, e possibilita que contemplemos a nossa própria história sob a luz dele. Esta é a outra consequência: é a nossa história que nos especifica, que nos garante que nã seremos simplesmente “absorvidos” na mente divina após a morte, mas continuaremos com a nossa própria identidade criatural.
E quanto aos conhecimentos intelectuais que obtivemos em vida? Sabemos que os conhecimentos sensoriais, os apegos, a possibilidade de continuar as relações com este mundo e sua história e suas coisas finda com a morte. Mas o debate aqui é de outra natureza: como ficam os conhecimentos intelectuais que obtivemos em nossa caminhada?
Vimos, no texto anterior, a hipótese de que esses conhecimentos cessam com a morte, e desaparecem junto com a memória corporal; vimos os argumentos iniciais nesse sentido, bem como o argumento sed contra, no sentido oposto. Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
A resposta materialista.
Durante todo o percurso da história humana, sempre houve quem defendesse um materialismo completo do ser humano. De fato, os próprios gregos pré-socráticos não tinham uma noção muito clara das realidades imateriais como as ideias ou formas; pensadores como Demócrito defendiam que toda a informação não era mais do que uma certa organização da matéria. Hoje, o materialismo ainda está muito em voga, e muitos pensam que o funcionamento de nossa mente nada mais é do que uma sequência de estímulos químicos e elétricos, que cessariam completamente com a morte. Assim, para estes, nem faz sentido falar em algo como a sobrevivência da mente, muito menos em cogitar sobre a permanência dos conhecimentos intelectuais na alma.
A ciência segundo Aristóteles.
A matéria não pode explicar tudo. É certo que as formas das coisas materiais são um certo modo de organização da matéria, mas essa informação mesma, ou seja, o modo pelo qual a matéria se organiza para estruturar-se em coisas, não é algo material. As formas geométricas, as quantidades matemáticas, as ideias de modo geral, tudo isso é imaterial. Há, portanto, na estrutura do real, aquilo que é material, e que podemos experimentar com nossos sentidos, organizar e guardar em nossa memória e imaginação, e aquilo que é formal, as estruturas ou species das coisas; um coelho não é um gato, embora sejam, ambos, animais mamíferos. Cada um é de uma species diferente. Mas esta é uma realidade imaterial, ou seja, o coelho que existiu há milênios é da mesma species que aquele que existe hoje, mesmo não compartilhando nenhuma realidade material entre si.
Em nós, a species é conhecida intelectualmente, e aperfeiçoa nosso intelecto com o hábito da ciência. É assim que um biólogo conhece as species vivas, um geólogo conhece as innimadas e assim por diante. Mas não é possível ter uma ciência perfeita das coisas naturais sem adquirir informações sensoriais, materiais, por um lado, e informações abstratas, universais, intelectuais, por outro. Assim, em nós humanos, o conhecimento da realidade é um só, íntegro, e se constitui pela combinação dos dados sensoriais e das abstrações intelectuais. Mas, mesmo sendo apenas um conhecimento, ele se constitui em nós de modo composto, parte dele guardado em nossa memória concreta, corporal, na forma de imaginação, e parte em nosso intelecto, imaterialmente.
Nosso modo de aprender.
Mas não há dois modos de aprender: há apenas um, e que se aperfeiçoa apenas em vida, porque depende da perfeita integração entre corpo e alma. De fato, o modo de aprender determina o próprio modo de saber, lembra Aristóteles. E o nosso modo de aprender é aquele de explorar o mundo material por meio de nossos sentidos, organizar as informações em imagens e, por abstração, chegar ao conhecimento intelectual, abstrato, universal, sobre as coisas. Mas, como já mencionamos, esse conhecimento é o conhecimento de um ser humano, isto é, de um ser material que pensa. Assim, ele é apenas um conhecimento, indivisível, que envolve sempre as dimensões sensoriais e intelectuais. A mente precisa da memória, da imaginação, dos dados sensoriais, para pensar nas coisas de modo abstrato. Isto determina que nós somos intelectos com sensibilidade, ou talvez, melhor dizendo, animais com mente. Não somos mentes presas em corpos animais, mas verdadeiramente animais que pensam, e nosso pensamento é sempre o pensamento de seres materiais. Portanto, toda ciência, toda sabedoria, toda aquisição intelectual, em nós, é de natureza integrada, simultaneamente sensorial e intelectual.
Integrado, mas distinto.
No entanto, apesar de ser um conhecimento integrado nas dimensões espiritual e sensorial (física), essas dimensões permanecem distintas entre si. Assim, o conhecimento humano, sendo um conhecimento intelectual, está em primeiro lugar no intelecto, que, sendo a faculdade mais elevada, tem o comando do processo de pensar.
Assim, as experiências sensoriais, mesmo que organizadas na memória como imagens adequadas do mundo exterior, e mesmo sendo suporte necessário ao modo especificamente humano de pensar, são, por assim dizer, a “camada inferior” do pensamento, não seu núcleo nem sua essência. Esta “camada” é perdida pela morte: não somente os sentidos, mas também todos os conhecimentos sensíveis, a imaginação, o sentido comum, a capacidade de estimativa (intuição de futuro), tudo isso se vai, com a perda do corpo. Mas o próprio conhecimento intelectual, no que ele tem de abstrato e universal, permanece na mente, após a morte.
Não é difícil perceber como podemos ter ideias sem ter capacidade de imaginá-las ou de pensar concretamente nelas. Nossa mente humana, mesmo no estado de inteireza que nos proporciona a vida nesta terra, não consegue imaginar um anjo, mesmo se obtiver boas informações intelectuais sobre ele. No reino da matemática, apesar de conseguirmos calcular perfeitamente a existência de dimensões geométricas além da terceira, não conseguimos imaginá-las nem pensar concretamente nelas, porque essas ideias estão além da nossa imaginação. Após a morte, ficaremos numa situação, de certo modo, análoga: capazes de lidar com informações intelectuais abstratas e universais, mas incapazes de imaginá-las ou pensar nelas de modo concreto. Mas toda a ciência permanecerá em nosso intelecto, porque a ciência é imaterial, e não pode ser destruída pela morte.
A destruição que a morte provoca.
O que a morte destrói? Em que situações há destruição? pergunta-se Tomás. Há duas situações em que as coisas se destroem, diz ele: (1) quando são anuladas pelo seu contrário, e (2) quando aquilo em que existiam é destruído.
O caso (2) ocorre quando, por exemplo, aquela bela rosa que estava na roseira é destruída pela destruição da própria roseira, quando, por exemplo, ela é subitamente atingida por um raio. Similarmente, um treinador que adestrou, digamos, um cão, para fazer belos truques no circo, verá todo o adestramento se perder quando o animal vier a morrer. O adestramento existe no cão, como a flor existe na roseira; num e noutro caso, a destruição daquele ente que é o “sujeito” desses acidentes levará à destruição daquela realidade.
No caso da mente humana, já sabemos, porque já o estudamos, que a alma intelectual é indestrutível; ora, se ela não pode ser destruída, isso significa que não é por essa via que seus acidentes, isto é, o conhecimento intelectual que ela detém, será destruído. Se a roseira persiste, a rosa persistirá, até ser destruída por outro motivo; o que nos leva de volta ao modo (1) de destruição.
Neste caso, diz Tomás, a destruição se dá quando aquela realidade é suprimida pelo encontro com seu contrário. Assim, uma chama de fogo é apagada por um jato de água fria; a escuridão é eliminada ao acender-se a luz, a ignorância é eliminada pela aprendizagem, um conhecimento falso é eliminado pelo encontro com a verdade.
As consequências da perda do corpo e da iluminação por Deus na morte.
Mas, diz Tomás, as coisas não têm contrário; assim, a mera apreensão intelectual das coisas não pode ser destruída por este caminho. Se eu conheço, por ciência certa, digamos, os elefantes, não existe a possibilidade do surgimento de um “não-elefante” que venha a eliminar o meu conhecimento. Mas isso se dá apenas quanto à apreensão da quididade das coisas. Na construção de juízos e raciocínios, existe a possibilidade de formar juízos errôneos e raciocínios falsos; a falsa argumentação gera, então, uma falsa ciência, que pode ser destruída pelo encontro com a verdade. Esta não resistirá à iluminação divina após a morte. Toda falsa ciência, todo autoengano, todo desvio intelectual, será eliminado no encontro com Deus.
Portanto, tanto a memória, quanto a imaginação serão destruídas pela destruição do corpo, na morte, porque o corpo é o “sujeito” em que esses conhecimentos estão. Toda ciência falsa e todo engano que o intelecto presume ter serão destruídos no juízo individual, pelo encontro com a iluminação divina. Mas toda ciência verdadeira, toda sabedoria, todo verdadeiro crescimento intelectual, estes permanecem íntegros após a morte.
3. Encerrando.
Belas explicações. Profundas. Consoladoras. Perturbadoras. Deveriam ser também transformadoras, no sentido de nos levar a buscar o verdadeiro crescimento espiritual, aquele que sobrevive à morte.
No próximo texto, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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