1. Introdução.

No último artigo que debatemos, o centro da discussão estava na possibilidade de que continuássemos, depois de mortos, a saber concretamente sobre as coisas aqui do nosso universo material, ou seja, não apenas saber de sua existência mas continuar em relação com elas, atualizados quanto ao seu rumo na história; a resposta parece apontar para a ideia de que continuaremos a conhecer aquilo que nos foi caro, aquilo que chegamos a conhecer, em sua singularidade, na nossa caminhada aqui na terra. Mas já não teremos contato, já não saberemos mais sobre seus rumos históricos.

O problema que será, agora, colocado em debate, é um pouco diferente: em que medida aquelas virtudes intelectuais, ou seja, os conhecimentos científicos e mesmo filosóficos que obtivemos em vida, por nossos estudos, experiências e exploração do mundo, permanecem em nossa mente após a morte? De fato, se a memória se perde, há a possibilidade de que também toda a ciência que adquirimos venha a se perder também.

Nós já vimos que, com relação à memória concreta dos fatos, ela é uma capacidade corporal, e portanto desaparece com a morte. Não é difícil perceber isto: patologias corporais como o mal de Alzheimer podem eliminar progressivamente este tipo de memória; a morte seria, então, como que a radicalização desse mal, com a completa destruição da capacidade física de lembrar.

Mas há conhecimentos, especialmente aqueles de natureza abstrata, universal, espiritual, que não estão inscritos no corpo, mas na alma mesma. Ainda há pouco, tornou-se viral um vídeo em que uma senhora idosa com o mal de Alzheimer, que havia sido bailarina, executava corretamente os movimentos do balé quando ouvia a respectiva música, embora, quanto a outras funções, estivesse inteiramente esquecida.

Ocorre que a nossa capacidade de pensar está indelevelmente ligada ao corpo, quando em vida. Após a morte, é a nossa ligação com Deus (que decorre do infinito amor dele por todas as criaturas) que nos devolve esta capacidade, já não mais a partir das nossas próprias lembranças, mas da iluminação que ele nos dá. É certo que essa iluminação não necessariamente é salvífica (Deus ama infinitamente todas as suas criaturas, e por isso as ilumina, após a morte, indistintamente; mas seu amor também respeita aquelas que livremente rejeitaram, em vida, a graça salvífica; mas isso será assunto para outras partes da Suma), mas cabe debater seu exato alcance, inclusive quanto às nossas habilidades intelectuais em sentido estrito.

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese inicial, aqui, é a de que a morte nos tornaria completamente ignorantes, de novo, quanto à ciência que possamos ter adquirido em nossa vida terrena. Assim, mesmo alguém que, digamos, tornou-se um doutor em física ou em matemática, ou mesmo um reconhecido filósofo com livros publicados e profundas intuições intelectuais, voltaria simplesmente ao estado de ignorância inicial. A alma, após a morte, simplesmente esqueceria tudo o que aprendeu aqui, em termos intelectuais. São quatro os argumentos objetores iniciais que tentarão comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor quer comprovar que perdemos todos os conhecimentos científicos e intelectuais, após a morte, por meio de uma simples citação bíblica. De fato, no famoso hino ao amor da Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 13, 8c), dentre as coisas que serão suprimidas está, justamente, a virtude da ciência. Diz o texto, referindo-se àqueles tempos em que só restará o amor: “a ciência será destruída”. Assim, o argumento conclui que, segundo a autoridade das Escrituras, a morte aniquila os conhecimentos intelectuais, científicos, que adquirimos em vida.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor parte da ideia platônica de que aqueles que são mais cultos são sempre pessoas numa situação melhor, mais elevada, por terem mais instrução intelectual, científica.

Ora, diz o argumento, há pessoas, nesta vida, que são muito cultos, muito estudados, muito capazes intelectualmente; muito ricos em virtudes intelectuais, portanto. Mas há outros, menos capazes intelectualmente, que são até pessoas melhores, do ponto de vista moral ou mesmo da fé e piedade.

Ora, prossegue o argumento, se essa bagagem cultural e intelectual permanecesse após a morte, haveria uma injustiça após a vida, com aquelas pessoas mais simples, menos cultas, mas mais amorosas, ficando em desvantagem com relação aos mais cultos e menos amorosos. Assim, para que não haja essa injustiça, nenhum conhecimento intelectual é mantido na alma após a morte, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Vimos, nos textos anteriores, que, depois da morte, somos criaturas fraturadas, sem o suporte do corpo para exercer aquelas capacidades que sobrevivem, que são as capacidades estritamente intelectuais. Assim, somos recebidos por Deus, que, por sua relação de amor com todas as criaturas, supre nossa incapacidade, iluminando-nos com seu próprio conhecimento para que possamos manter nossa identidade e nossa capacidade de pensar.

Ora, se Deus, que é o conhecimento pleno, recebe a alma depois da morte e a ilumina, permitindo a ela que exerça a capacidade de pensar, então não teria sentido imaginar que essa alma, iluminada pela ciência perfeita e pela sabedoria perfeita de Deus, precisasse ainda de sua própria ciência e sua própria sabedoria, adquiridas durante a vida. Seria uma redundância ter a mesma ciência na mesma mente por duas fontes diferentes; na verdade, isso seria impossível, porque uma se fundiria na outra. Assim, a ciência e todo conhecimento intelectual adquiridos de modo pessoal durante a vida simplesmente desaparecem depois da morte, conclui o argumento.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento vai resgatar uma citação do próprio Aristóteles, que, como sabemos, é sempre chamado de “O” Filósofo na Suma. Ele diz, no livro das Categorias, tratando da noção de habitus (que são aquelas disposições incorporadas em nós como “segundas naturezas”, e que resultam dos nossos esforços, de nossas boas ou más escolhas ou de nossa educação), que os hábitos (que podem se caracterizar como vícios, virtudes ou aquisição de conhecimentos intelectuais, práticos ou poiéticos) são disposições profundamente arraigadas em nós, e que são muito difíceis de remover (como sabe bem quem já tentou desenvolver uma virtude ou eliminar um vício). Mas Aristóteles assinala que determinados processos patológicos (como as patologias demenciais) ou lesões corporais, o hábito do conhecimento intelectual (como a ciência intelectualmente adquirida pelo sujeito) pode vir a se degradar em nossa mente.

Ora, prossegue o argumento, não há processo patológico ou lesão corporal mais radical do que a própria morte, que separa a mente do corpo e destrói totalmente este último. Logo, a morte degrada completamente os hábitos intelectuais de nossa mente, ou seja, os conhecimentos intelectuais que possamos ter adquirido em vida, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra (ou seja, aquele argumento que impede a aceitação da hipótese inicial em razão da existência de alguma autoridade – seja a Bíblia, a Tradição, algum santo, algum ensinamento filosófico ou teológico – que aponta em sentido contrário àquela hipótese), traz, no caso presente, uma citação de São Jerônimo, Padre da Igreja, santo e tradutor da Bíblia (é responsável pelo texto da Tradução Vulgata). É um conselho do referido santo, no qual ele nos exorta: “busquemos adquirir, enquanto estamos na Terra, aquela ciência que perseverará no Céu”. Ora, então existe alguma ciência, algum conhecimento intelectual da nossa mente que, adquirido nesta vida, não se perderá após a morte, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Existem, nesta matéria, dois riscos imensos, que devem ser afastados: (1) A ideia de que, após a morte, seremos como que “absorvidos” de modo impessoal no “oceano” de conhecimento de Deus, ou seja, perderemos nossa identidade para nos dissolvermos nele; esta ideia será reforçada se admitirmos que, de algum modo, perdemos todos os nossos conhecimentos humanos quando morremos, e somos simplesmente anexados à mente divina; (2) O outro grande perigo consiste em desenvolver uma espécie de “rejeição” ao esforço, na vida terrestre, de adquirir conhecimentos, virtudes, técnicas, perfeições intelectuais, por nossa própria iniciativa, imaginando que são de nenhum valor, já que desaparecerão na morte.

Veremos, pois, como Tomás responderá a esses graves desafios, nos próximos textos.