1. Introdução.

Esta questão, a questão 87, trata do autoconhecimento humano. É um tema, aliás, com enorme atualidade: vivemos numa era de busca de autoconhecimento, de meditações, de cuidado consigo mesmo, e portanto numa era em que o autoconhecimento foi elevado ao centro da vida espiritual. Não é. O centro da vida espiritual é a união com Deus, não o autoconhecimento; mas, como o próprio Tomás disse na resposta sintetizadora do artigo primeiro, é muito fácil que nos enganemos sobre a nossa própria natureza, o que pode nos levar a desvios no próprio caminho da salvação. É muito importante, portanto, saber a respeito do processo de autoconhecimento, seus limites, seus resultados, seu método, sua importância.

É por isto que estamos percorrendo esse caminho tão rico. No primeiro artigo, estudamos a percepção do próprio “eu”, a autoconsciência, ou, diríamos, a autopercepção. No segundo, estudamos a maneira pela qual nos tornamos conscientes de nossas virtudes e vícios, nossas boas disposições, intelectuais e artísticas, que permanecem latentes em nós, como uma “segunda natureza” entre nossas potências e nossos atos, possibilitando que estes últimos sejam alcançados com perfeição e facilidade.

Agora, estudaremos algo importantíssimo, que, aliás, tem tudo a ver com o fato de que somos seres dotados de alma espiritual. A nossa capacidade de nos contemplar pensando. Não simplesmente de saber que somos capazes de pensar, nem tampouco saber que somos habilitados em matemática ou em biologia, nem mesmo a noção de que temos a virtude da fé em nosso coração: é algo mais profundo. É a própria capacidade de contemplar o nosso pensamento ali quando ele acontece, de discernir, de refletir. De ter uma consciência, que nos observa em nossos atos e é capaz de ponderá-los. Temos esta capacidade? É este nosso debate agora.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que essa reflexão, pela qual o intelecto é capaz de contemplar-se no próprio ato de pensar, de querer, de aprender, de criar, não existe. Não somos capazes de conhecer intelectualmente nossos próprios atos intelectuais, diz a hipótese. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento lembra que nossa capacidade de aprendizagem intelectual tem um objeto próprio, sobre o qual o intelecto deve se debruçar. Esse objeto próprio, como já vimos, é a essência daquelas coisas concretas com que nos deparamos, ou, para usar linguagem técnica, sua quididade, quer dizer, aquilo que elas são. É este objeto próprio que nosso intelecto conhece adequadamente. Logo, podemos conhecer as coisas e pensar nelas, mas não podemos conhecer diretamente o pensamento que, em ato, pensa nas coisas que conhecemos, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Conhecer, chegar ao conhecimento da coisa, estar pensando nela, é o ato do intelecto, ou seja, é o seu aperfeiçoamento, aquilo para o que ele existe. Quando pensamos em alguma coisa que conhecemos, este é o ato do pensamento, perfeição do intelecto. Mas se somos capazes de conhecer e pensar sobre o próprio pensamento em ato, então este pensamento seria o ato de pensar no ato. E então seríamos capazes de conhecer que conhecemos o nosso conhecimento sobre as coisas, isto é, de realizar um ato de pensar sobre o ato de pensar no ato de pensar. E isto prosseguiria até o infinito, e o intelecto humano jamais atingiria sua própria perfeição. Assim, seria absurdo admitir que a nossa mente pudesse praticar o ato de contemplar o nosso próprio ato intelectual, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor quer fazer uma analogia entre o ato dos sentidos e os atos do intelecto. O ato do sentido consiste em perceber seu objeto, diz o argumento. Mas o sentido não é capaz de perceber seu próprio ato de perceber: o olho não se vê enxergando, o ouvido não se ouve ouvindo e assim por diante. Logo, tampouco a mente consegue se contemplar nos seus atos intelectuais de aprender, conhecer ou querer, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai lembrar que na obra sobre a trindade, livro X, capítulo 11, o próprio Santo Agostinho, falando sobre a alma espiritual humana, nos ensina que nosso intelecto é capaz de se inteligir inteligindo, ou de se conhecer querendo. A autoridade de Agostinho leva o argumento a defender, portanto, que somos capazes de contemplar nossos próprios atos intelectivos.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Para iniciar sua resposta, Tomás vai nos lembrar que somente aquilo que está em ato pode ser propriamente objeto de conhecimento intelectual. Não se pode conhecer de fato a galinha antes que o ovo ecloda, como não se pode conhecer a árvore antes que a semente brote. A semente é apenas a potência de uma árvore; o ovo é a galinha em potência. A atenção para a distinção entre ato e potência, com a afirmação de que somente os atos, e não as potências, podem ser objetos próprios de conhecimento intelectual direto, é algo que nunca se repetira o suficiente.

Portanto, nossa mente, nos primeiros momentos de nossa concepção, está completamente em potência para o conhecimento intelectual e para a vontade. Somente quando viermos a conhecer é que poderemos querer, e somente quando a nossa mente efetivamente realizar os atos de conhecimento e de vontade é que ele atingirá sua perfeição de existir, e portanto será um objeto adequado para ser conhecido.

Mas estes atos do nosso intelecto (os atos de conhecer e querer) são atos que começam e terminam em nós mesmos. São atos imanentes, como se diz em linguagem técnica. Quando, por exemplo, alguém constrói uma casa, faz um ato transeunte, ou seja, um ato que inicia nele, mas termina como uma construção, uma casa erguida em algum lugar. O ato de construir é transeunte, os atos de pensar ou de querer são imanentes. Mas são atos.

Quando, portanto, o intelecto realiza os atos de inteligir (e os subsequentes atos de querer), ela passa da potência ao ato, e portanto pode ser conhecido: passa a ser algo em ato, e portanto passa a ser, ele próprio, um objeto próprio para o conhecimento intelectual. É por isso que Tomás nos ensina que a primeira coisa que a mente conhece acerca de si mesma é o seu ato de conhecer.

Neste ponto, Tomás nos lembra que, no entanto, nós não somos os únicos entes inteligentes. Deus é inteligente. E, dentre as criaturas, os anjos são inteligentes e nós somos inteligentes. Cada inteligência dessas, no entanto, tem uma relação diferente consigo mesma, porque tem uma natureza diferente. Deus intelige seus próprios atos de uma maneira, os anjos, de outro jeito e nós, humanos, ainda de um terceiro modo.

6. Encerrando.

E que modos são estes? É o que veremos no próximo texto.