1. Para finalizar.
O autoconhecimento é, pois, um processo essencialmente existencial. Somente no caminhar posso me conhecer, perceber meus vícios, minhas qualidades, minhas virtudes e meus defeitos. Percebo-me, naquilo que os filósofos de hoje chamam de “perspectiva da primeira pessoa”: por um lado, a autopercepção direta: sei, por perceber meu próprio coração, que estou num episódio de ira, de ansiedade ou de covardia. Percebo que estou sendo justo ou injusto com alguém. Mas vivo também um processo mais dialético de autoconhecimento: conheço os estudos antropológicos, conheço outras pessoas virtuosas, meço a mim mesmo frente a Jesus e sou capaz de conhecer mais profundamente meus hábitos, meus defeitos e minhas qualidades.
Vimos tudo isto nos textos anteriores. Agora é hora de examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que, segundo Agostinho, a fé não pode ser percebida externamente do mesmo modo que a vida é percebida externamente. Quando vejo um ser humano que respira e se move, sei que ele está vivo. A vida se manifesta externamente, e pode ser percebida pelos atos do ser vivo. Mas a fé não é assim: ela é possuída por alguém, ele sabe que a possui, pode confessá-la se for questionado, mas ele a confessa porque conhece que ela está em seu coração. Assim, não é por algum ato que conhecemos que temos o hábito da fé, mas pela percepção de que sua essência está em nós, e o seu ato, que é a confissão de fé, é resultado de saber que temos fé, e não a causa de conhecermos a fé em nós. O mesmo, então, pode ser dito de todos os hábitos, diz o argumento: sabemos que os possuímos, e portanto agimos em conformidade com eles. Assim, não é pelo ato, mas por essência, que conhecemos nossos hábitos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai nos ensinar, aqui, justamente pela afirmação da perspectiva da primeira pessoa. A fé, como os nossos hábitos em geral, não são percebidos diretamente por quem nos observa, como a nossa vida pode ser percebida por terceiros. De fato, somos nós que, em primeira pessoa, exploramos e conhecemos nosso coração, do qual partem nossas condutas, nossos atos. Examinamos nosso coração, percebemos que está ali a aceitação da revelação divina, a confiança em Deus, e percebemos que as nossas condutas, a nossa existência, é guiada por essa amizade. É esta percepção interna dos nossos atos, em primeira pessoa, que nos ensina sobre os nossos hábitos. Isto é, não são os atos externos, mas os atos internos, os nossos estados de alma, que revelam, em primeiro lugar, quem somos a nós mesmos. Isto não significa que o autoconhecimento dos nossos hábitos seja uma visão direta da própria essência desses hábitos em nós, mas uma autopercepção feita em primeira pessoa, pelo exame reflexivo da nossa vida interior. É por isso que somente nós mesmos e Deus podem julgar adequadamente nossa conduta; as regras sociais, as regras de direito, não são capazes de penetrar o nosso mundo interior.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que conhecer é trazer, para a alma, a própria forma da coisa que está fora dela. É assim, que as coisas são assimiladas na mente como objetos de conhecimento: sua forma universal, sua species, passa a existir em nós, em nossa mente, assim como existe na coisa. O nosso intelecto passa a ser, assim, semelhante à coisa que ele conhece, porque o mesmo princípio de organização, a mesma quididade, o mesmo modo de ser, existe materialmente na coisa
e intelectualmente em nossa alma. Mas a sua substancialidade não está na alma, mas na materialidade do mundo real.
Se é assim, pergunta o argumento, como conhecemos os hábitos? É a essência mesma do hábito, não sua forma, não sua species que está assimilada em nós. É a própria coisa, o próprio hábito, que, por essência, existe em nós, em nossa alma. Então não é por algum processo de aprendizagem, de assimilação, que conhecemos nossos próprios hábitos, mas pelo fato de que eles são, essencialmente, parte mesmo de nós, de nossa mente, de nossa alma. Assim, não é por assimilação nem por reflexão, mas pela própria essência deles em nós, que conhecemos nossos hábitos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É certo que os hábitos está presentes a nós como realidades espirituais em nossa alma, mas não como objetos de conhecimento. O objeto natural de conhecimento da nossa mente, nesta vida, é a concretude das coisas, das criaturas materiais de Deus. O processo natural de conhecimento dessas coisas é a aprendizagem exploratória do mundo por meio de nossas capacidades sensoriais. Os hábitos estão em nós como meio e como resultado do processo de conhecimento, porque as virtudes e as ciências certamente aperfeiçoam nosso espírito e nos facilitam o conhecimento do mundo. Mas o conhecimento reflexivo dos nossos próprios hábitos, quer dizer, que eles estejam em nós como objetos de conhecimento, depende de um processo de aprendizagem, de observação e de reflexão que nos faz saber, de modo consciente, que os possuímos ou não. Portanto, a presença deles em nós como hábitos é diferente da sua presença em nós como objetos de autoconhecimento reflexivo.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor é muito complicado de compreender; de fato, no primeiro texto sobre este assunto, eu havia exposto que os hábitos e species seriam causa do nosso conhecimento, porque, pela observação dos hábitos e das estruturas ou formas das coisas, seríamos capazes de chegar ao conhecimento delas. Mas não é disso que o argumento trata, e somente a releitura mais cuidadosa, que realizei agora, foi o que me permitiu discernir isto.
O argumento trata, na verdade, do resultado do nosso processo de conhecimento. Ao fim do processo de aprendizagem, nossa mente adquire as species, que são as formas universais e abstratas das coisas; conhece-as em suas causas, e isto é adquirir a ciência sobre elas. Quando um astrônomo conhece o nosso sistema solar, ele conhece suas causas formais (a estrutura dos planetas, sua configuração, sua ordem), suas causas materiais (os elementos que constituem os planetas, o sol, os satélites, etc.), suas causas eficientes (as forças gravitacionais, as órbitas, as direções e sentidos, as relações das massas, as rotações e translações, etc.) e suas causas finais (a capacidade de sustentar a vida que a Terra tem, o equilíbrio entre massa, gravidade e velocidade que mantém os planetas em suas órbitas, etc.). Ora, este conhecimento não se constitui somente da mera aquisição das species (do conhecimento amontoado dos dados), mas também se constitui como um hábito no astrônomo, de tal modo que, mesmo quando ele está tratando de algum pequeno detalhe do sistema solar, ele considera, simultaneamente, o conjunto do seu conhecimento, mesmo que não o faça conscientemente, ativamente, num dado momento. Isto é, todo o conhecimento está lá como um tesouro em sua mente, ao qual ele pode recorrer a cada momento para perceber o sentido do todo e de cada detalhe. Neste sentido, podemos dizer que a ciência que temos é constituída pelas species, isto é, pelo conhecimento dos dados objetivos da realidade, e pelo hábito da ciência, isto é, pelo depósito habitual e sistematizado, em nossa mente, de todos os fatores que dizem respeito àquela realidade que conhecemos.
Ora, se conhecemos a realidade pela assimilação das species e da formação do hábito da ciência em nossa mente, então as species e o hábito da ciência são a causa, em nós, de nosso conhecimento do mundo. Conhecemos as coisas, o mundo, o universo, por causa das species e dos hábitos científicos que adquirimos, prossegue o argumento.
Ora, segue o argumento, quando conhecemos as causas e os efeitos, as causas contêm, em si, virtualmente, os efeitos, e, portanto, devem ser mais conhecidas, por nós, do que os próprios efeitos. Quando conhecemos, por exemplo, as leis da gravidade, podemos aplicá-las ao cálculo de órbitas de planetas em outros sistemas solares, mesmo sem conhecer diretamente esses planetas.
Ora, se as coisas são assim, e se as species e os hábitos são a causa cujo efeito é conhecer as coisas, e se a regra é que, quando conhecemos intelectualmente os efeitos, muito mais conhecemos as causas, então teríamos que concluir que conhecemos muito mais os nossos próprios hábitos de conhecimento do que as próprias coisas que eles nos fazem conhecer. Assim, teríamos que admitir que nosso autoconhecimento, o conhecimento dos nossos próprios hábitos, não decorre de algum processo de reflexão, mas é um conhecimento pela essência dos próprios hábitos, como causa do seu resultado, que é o conhecimento das coisas, conclui o complexo argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai nos explicar que, a respeito da afirmação de que “aquilo que é próprio do efeito é, com maior razão, próprio da causa” só pode ser verdadeira quando estamos tratando de duas realidades pertencentes à mesma ordem; não é verdadeiro quando aplicado a duas realidades de ordem diferentes. E, no caso que estamos examinando agora, a ideia de que os hábitos e as noções assimiladas sobre a coisa são a causa de nosso conhecimento sobre a coisa, por um lado, e a própria coisa, por outro, são realidades de ordem diferente: a coisa está na ordem da concretude real, os hábitos e noções estão na ordem do conhecimento ou da razão.
Assim, quando dizemos que a saúde é desejável por causa da vida, já que, sem a vida, não há saúde, mas morte, podemos concluir que a vida é mais desejável que a saúde, e que esta existe por causa daquela. (É por isto, inclusive, que, para salvar a vida de alguém, o médico pode causar agravos em sua saúde, como um corte para realizar uma cirurgia reparadora). Mas, do fato de que os remédios podem ser causa da saúde não podemos concluir que os remédios são mais desejáveis que a saúde, porque os remédios estão na categoria das causas eficientes, ao tempo em que a saúde está na categoria das causas finais. Estão em ordens diferentes da realidade, e, neste caso, aquela afirmação inicial não se aplica.
Algo análogo ocorre com a relação entre as coisas conhecidas e os hábitos e noções intelectuais que temos sobre elas. Os hábitos e noções são o meio pelo qual temos ciência das coisas, mas não são, eles mesmos, objeto do conhecimento. Assim, pelo fato de que conhecemos as estrelas porque temos habitualmente a ciência astronômica não pode nos levar à conclusão de que, pelo fato de que conhecemos as estrelas, também conhecemos automaticamente e conscientemente os métodos científicos e filosóficos sobre a própria ciência ou sobre a maneira de adquiri-la, aperfeiçoá-la ou utilizá-la. Aliás, não é raro que um grande cientista, grande conhecedor das realidades que são objeto de sua área do conhecimento, seja um completo ignorante a respeito de metodologia da ciência, ou de filosofia do conhecimento.
Assim, uma coisa é ter ciência, como hábito. Outra, diferente, é conhecer seus próprios hábitos de conhecimento e saber que os tem. Este último conhecimento não decorre diretamente do primeiro, mas vem como resultado de uma reflexão cuidadosa a respeito dele.
Por isso, para conhecer nossos hábitos, nossas capacidades, nossas disposições, virtudes e vícios, precisamos de um trabalho de reflexão. Esse conhecimento não vem como um resultado automático de possuir os hábitos.
3. Concluindo.
É exatamente este terceiro argumento objetor que se constitui no mais complexo deste artigo, o mais distante de nossas intuições modernas em comparação com aquelas existentes no tempo de Tomás. E esta percepção não me chegou até este texto. Assim, aproveito para pedir desculpas aos leitores e agradecer pela paciência. Aqui, verificamos na prática o ensinamento de Tomás de que somente na caminhada, na reflexão, chegamos a conhecer corretamente nossos próprios pensamentos.
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