Como conhecemos nossas próprias aptidões e capacidades habituais? Primeira parte, questão 87, artigo 2, parte 2 de 3.
1. Voltando.
Os antigos platônicos acreditavam que todos os defeitos morais vinham da ignorância científica, ou seja, do desconhecimento das ideias universais e abstratas. Assim, se as pessoas conhecessem a ciência, estudassem, chegassem ao conhecimento intelectual das coisas, inclusive da ideia de bem e de virtude, isto bastaria para que fossem virtuosas.
Assim, segundo os platônicos, seria de esperar que os filósofos e cientistas fossem pessoas virtuosas e retas, mas os simples e humildes, ignorantes dos altos meandros da ciência e da filosofia, seriam viciosos e maus. Este tipo de preconceito chegou até nós: o cientificismo de nosso tempo leva a que alguns, por serem talvez professores universitários ou doutores em alguma ciência ou em algum ramo da filosofia, imaginem que possam dar conselhos existenciais aos mais simples. Nada mais equivocado.
O presente artigo debate justamente isto. Não é por saber, em teoria, o que é um “hábito”, uma disposição de caráter ou de intelecto, um vício ou virtude, que eu sou capaz de identificá-lo em mim mesmo. Os hábitos se manifestam por seus atos, ou seja, somente vivendo virtuosamente, somente aplicando o que conheço, somente debatendo e eventualmente cometendo erros é que conheço minhas virtudes e meus vícios, meus conhecimentos e minhas ignorâncias. Não temos a capacidade angelical de conhecer plenamente nossas virtudes e vícios por uma simples contemplação direta de nós mesmos, como se o fato de ser um crítico de música me levasse a ser mais músico do que um virtuose do piano que dedicou sua vida a estudá-lo. Somente um arrogante, um orgulhoso, seria capaz de imaginar que possui certa ciência ou certa virtude pelo simples fato de ter informações sobre ela.
Mas deixemos de digressões e vamos à própria resposta de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Perdemos, como vimos no texto anterior, a noção do que é um hábito. De fato, nós somos como que casas vazias, quando somos concebidos e chamados à vida: precisamos “mobiliar” essa casa que somos nós, e aquela mesa, aquelas cadeiras, aquelas lâmpadas que ora serão usadas, ora permanecerão à espera de uso, são como nossos hábitos, para usar uma metáfora.
De fato, uma sala sem mesa e cadeiras não tem sentido; mas as mesas e cadeiras não existem, numa casa, para serem usadas incessantemente. À hora da refeição, elas são usadas, e depois de limpas permanecem de prontidão para o próximo uso. Uma coisa similar ocorre com os nossos hábitos: nossa vida se estende no tempo, e por isso só podemos viver uma capacidade de cada vez. Não posso tocar piano e ensinar química ao mesmo tempo, não posso ser valente numa guerra e julgar uma demanda judicial ao mesmo tempo. Mas nem por isso essas capacidades desaparecem de mim: a minha disposição para tocar piano permanece mesmo quando estou numa aula de química de um laboratório; mas ela permanece latente, como que arquivada, como aquele “equipamento” que aperfeiçoa uma potência que, sem ela, é como uma casa vazia de móveis, mas, mesmo com ela, não é necessariamente um ato. Sem meus estudos de piano, que se depositam em mim como um hábito, minha potencialidade musical jamais deixaria de ser uma mera potência; mas o hábito não é, por si mesmo, um concerto de piano. Ele é, portanto, uma disposição que está colocada de modo intermediário entre a pura potência, que é a possibilidade de aprender ou de ser capaz, e o ato, que é a execução efetiva dessa possibilidade.
Portanto, sendo uma disposição, e não um ato propriamente dito, o hábito não pode simplesmente ser conhecido por si mesmo. Somos capazes de conhecer os atos, que são aquelas realidades manifestas, acontecidas, existentes, e não as potências, que são aquelas promessas, aquelas capacidades que permanecem no campo da possibilidade de existir.
O hábito, portanto, se manifesta em seu ato. É praticando a justiça que eu me descubro alguém justo, é tocando piano adequadamente que eu me revelo como um pianista, é fazendo atos de autocontrole que eu me percebo como temperante, é fazendo um experimento bem-sucedido no laboratório que eu me afirmo como químico.
No entanto, há duas maneiras pelas quais eu posso chegar ao autoconhecimento dos meus hábitos, diz Tomás. Tanto as minhas virtudes quanto os meus vícios, tanto os meus conhecimentos quanto minhas ignorâncias:
1) Eles podem ser conhecidos quando um ato manifesta a presença daquele hábito, como um pianista virtuoso executa um concerto difícil ao piano, revelando-se como alguém com o hábito da música. Muitas vezes, é apenas quando se toca que se descobrem os próprios limites e qualidades do músico, até para ele mesmo.
2) eles podem ser conhecidos quando eu reflito sobre meus atos, sobre a minha história, e, tendo noção do que é uma virtude ou um vício, percebo essa presença em mim. Assim, não é porque alguém sofreu um episódio isolado de ira que ele é uma pessoa viciosamente violenta; mas se ele costuma perder o autocontrole facilmente, quando contrariado, ele é, sem dúvida, alguém com o vício da ira. Não é porque alguém praticou um ato isolado de justiça, como devolver um troco excessivo, que ele pode se considerar alguém justo. É preciso que essa vontade de dar a cada um o que é seu seja alguma coisa cuja noção me seja consciente e cuja repetição ateste a presença dessa virtude em minha vida.
De certo modo, repete-se aqui o que se disse no artigo anterior sobre o autoconhecimento da alma: há uma percepção direta do “eu”, intuitiva, que se dá pela simples reflexão do meu intelecto que funciona; mas há um autoconhecimento profundo, complexo, que leva também ao conhecimento da humanidade do outro, e que é um processo longo, árduo e sujeito a grandes erros no caminho.
Assim é, também, o processo de conhecer os próprios hábitos: somente na trilha da existência é que aquelas intuições sobre nossas disposições e defeitos se vai confirmando e negando, e somente possuindo a virtude da humildade (que não é autodepreciação, mas capacidade de encarar a nossa própria verdade) que podemos chegar ao conhecimento adequado de nós mesmos. Do nosso valor e desvalor. Assim, alguém que decorou uma única peça ao piano, e é capaz de tocá-la mecanicamente, pode se passar, por alguns momentos, como grande pianista. Mas somente a reflexão honesta, o caminhar da vida, a sequência das oportunidades e dos desafios é que revelará a verdade sobre ele.
3. Encerrando.
Bela resposta. Como somos capazes de nos enganar sobre nós mesmos, sobre nossas aptidões, virtudes e defeitos. Somente o caminhar da vida nos revela.
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