1. De volta para terminar.

Vimos, então, a resposta sintetizadora de Tomás, que nos ensina sobre a sucessão nos pensamentos: ainda que pensemos muitas coisas, em virtude dos muitos estímulos que recebemos e da ação da nossa memória e da nossa imaginação, somente podemos inteligir uma coisa de cada vez. As outras coisas, as outras species ou ideias universais que conhecemos, ficam de fato em nossa alma; mas apenas como hábito, isto é, como aquela capacidade latente à qual podemos recorrer quando precisamos. Este limite, o da sucessão de intelecções, apenas Deus não tem.

Agora, municiados com estes princípios, é hora de voltar a examinar os argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o tempo, o desenrolar sucessivo do tempo, é uma característica das coisas materiais: ali onde não há matéria, tampouco há a passagem do tempo. Mas o intelecto, como já foi visto, é uma realidade essencialmente espiritual, e portanto não tem matéria em sua constituição. Logo, não está sujeito à sucessão de eventos no tempo, de tal modo a inteligir alguma coisa agora e outra depois; assim, podemos inteligir diversas coisas simultaneamente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, diz Tomás, o intelecto humano é uma realidade imaterial. E ele está, de fato, fora do tempo cronológico, isto é, ele não funciona sob o ritmo do deslocamento mecânico sucessivo e quantificável da matéria: nosso intelecto não funciona de modo que possa ser quantificado por um cronômetro. Isto é algo que a nossa experiência é capaz de perceber: muitas vezes a passagem do tempo parece ser insuportavelmente lenta para nós, como naquelas oportunidades em que esperamos alguém ou algo. Mas, em outras oportunidades, o tempo parece voar, como naquelas vezes em que somos submetidos a algum tipo de prova ou avaliação com tempo marcado, e o relógio parece andar mais rápido do que a nossa possibilidade de encontrar as respostas. Em todo caso, diz Tomás, a nossa condição de criatura não permite que lidemos com mais de uma ideia por vez; aqui, funciona aquele limite de que cada coisa só pode ser atualizada por uma forma de cada vez, como uma parede que, ao receber a tinta amarela, já não pode ser branca. Isto é algo que ocorre também com os anjos: eles também estão submetidos à sucessão de ideias no pensamento. Esta sucessão marca o “tempo psicológico” ou evo, que é a medida da sucessão espiritual, de tal modo que apenas Deus é capaz de ter, em sua mente, todos os lugares e todos os tempos presentes no mesmo instante. As criaturas inteligentes, mesmo tendo um intelecto imaterial, estão submetidas à sucessão dos acontecimentos, das intelecções, dos pensamentos. É por causa disso que Santo Agostinho, no seu cometário ao Gênesis, que Deus move a criatura espiritual no tempo, isto é, mesmo os seres intelectuais não podem deixar de se submeter à sequência de eventos históricos. Há, assim, de fato, um tempo psicológico que limita os intelectos.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que, até mesmo nas coisas, diversas formas podem subsistir simultaneamente, desde que não sejam opostas entre si. De fato, uma parede não pode ser amarela e branca ao mesmo tempo, mas uma fruta pode ser vermelha, doce, áspera e cheirosa ao mesmo tempo, e cada característica destas é a manifestação simultânea de uma forma diferente.

Ora, as ideias que estão em nossa mente, como universais, não são opostas entre si. São realidades imateriais, e uma não impede a outra de existir ao mesmo tempo: a existência de uma ideia universal de amarelo não impede a existência simultânea da ideia universal de branco. Ora, se ideias não concorrentes, não opostas, podem existir simultaneamente numa coisa material, como no exemplo daquela fruta, então nada impediria que as ideias universais pudessem se apresentar simultaneamente em nossa mente, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não é que as formas opostas não possam existir ao mesmo tempo num mesmo sujeito; de fato, elas não podem, porque alguma coisa não pode ser e não ser, ao mesmo tempo, sob o mesmo aspecto. Assim, uma parede não pode, ao mesmo tempo, ser pintada e não ser pintada. Mas, além disso, formas do mesmo gênero, mesmo que não sejam opostas, não podem existir ao mesmo tempo no mesmo sujeito. Assim, o vermelho não é oposto ao amarelo, mas é uma forma do mesmo gênero (do gênero das cores), e assim não podem comparecer simultaneamente numa mesma parede; ou a parede é amarela ou é vermelha.

Ora, todos as ideias universais são do mesmo gênero: o gênero das species abstratas. Assim, elas não podem comparecer simultaneamente ao nosso intelecto, mas podem apenas se suceder em nosso pensamento. Assim, podemos inteligir apenas uma ideia de cada vez.

O terceiro argumento objetor.

Nós conseguimos pensar, inteligir simultaneamente, certas coisas cujo todo é composto pelas partes. De fato, quando inteligimos, por exemplo, o que é um automóvel, pensamos simultaneamente em sua lataria, em seus vidros, em seus pneus e em seu motor, entre outras coisas. Logo, conclui o argumento, o intelecto consegue lidar simultaneamente com múltiplas formas universais abstratas.

A resposta de Tomás.

Tomás nos ensina que há dois modos pelos quais podemos pensar nas partes de alguma coisa: a primeira é pensar nelas como integradas no todo, sem distinção, de tal modo que, ao pensar na casa, pensamos simultaneamente no telhado, nas janelas e nas portas, mas de modo integrado, fundido com a casa, ou seja, “confuso” (não no sentido de confusão, mas no sentido de indistinção). A outra maneira é pensar direta e distintamente na parte, contemplando-a independentemente do todo ao qual pertence. Assim, dirigimos nossa atenção às belas janelas envidraçadas daquela casa, ou a uma determinada planta do seu jardim. Neste caso, aquilo que está sendo objeto da atenção direta está sendo inteligido por sua própria species ou ideia, de tal modo que, ao pensar nela, nosso intelecto aplica a ela todas as suas forças e exclui da intelecção simultânea todas as outras coisas. Portanto, pensar na parte como integrante de um todo é diferente de pensar na parte por si e distintamente; em cada um dos casos, inteligimos apenas uma coisa de cada vez.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento traz a questão da nossa capacidade de comparar coisas distintas. Não poderíamos comparar duas coisas se não fôssemos capazes de inteligi-las simultaneamente, de modo a confrontar seus aspectos e sopesar as diferenças e as semelhanças. É uma experiência comum, que temos em nós, a de que somos capazes de fazer essas comparações; ou seja, que duas ou mais coisas podem ser objeto de intelecção simultânea em nosso pensamento. Assim, o argumento conclui que nosso pensamento é capaz de inteligir duas ou mais coisas simultaneamente.

A resposta de Tomás.

A comparação entre duas coisas estabelece uma relação entre elas, e a comparação é precisamente a razão sob a qual as duas coisas se apresentam em nosso pensamento. Neste caso, elas formam como que um todo, que inclui as partes comparadas, as diferenças e as semelhanças. Assim, quando conhecemos as coisas sob a noção da comparação, nosso pensamento funciona de uma maneira análoga àquela pela qual ele é capaz de inteligir as partes sob a razão de todo: as coisas são inteligidas sob a razão de comparação, que as inclui numa única intelecção. Portanto, nem sequer o caso da comparação pode ser considerado como uma verdadeira exceção para a regra de que somos capazes de inteligir apenas uma coisa de cada vez, em nosso pensamento.

3. Conclusão.

É importante fixar que a finitude do intelecto criado determina que nossos pensamentos ocorram em sucessão, embora essa sucessão não seja rigorosamente cronológica; nossa mente não está presa ao tempo e ao espeço, de tal modo que nosso pensamento pode saltar tempos e espaços, mas sempre está limitado à sucessão. A simultaneidade de intelecção é própria apenas de Deus.