1. Voltando.

Muitos estímulos podem passar ao mesmo tempo por nosso pensamento; mas a nossa inteligência só pode lidar com uma intelecção de cada vez. Daí porque a pluralidade de estímulos que recebemos, hoje em dia, não favorecem nossa inteligência; ao contrário, a dispersão dificulta a intelecção. Vejamos, agora, a resposta de Tomás quanto à nossa capacidade de pensar: se podemos inteligir muitas coisas simultaneamente, ou se temos que pensar uma coisa de cada vez.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Não há dúvida, diz Tomás, que a nossa inteligência pode inteligir muitas coisas simultaneamente. Mas a questão é o modo pelo qual essas coisas são inteligidas: quando elas estão reunidas sob algum aspecto que as unifica, nada impede que se apresentem simultaneamente à nossa inteligência. É assim que podemos pensar simultaneamente, por exemplo, na cidade em que vivemos, que é um objeto complexo, composto de muitas coisas; mas são coisas reunidas em nosso intelecto sob a razão de cidade. Mas não poderíamos inteligir essa mesma complexidade simultaneamente sob o modo de multiplicidade: não podemos, ao mesmo tempo, pensar na cidade e em cada um dos prédios que a compõem, individualmente. Neste caso, a nossa inteligência estaria sob o modo da multiplicidade, e não da unidade, e não conseguiria pensar simultaneamente em cada uma dessas construções separadamente.

A razão é que nosso intelecto só consegue lidar com uma species, vale dizer, com uma única ideia universal de cada vez. Assim como nosso agir só pode lidar com uma deliberação, que é a “forma” da ação, nosso intelecto só pode lidar com uma única ideia universal. De fato, quando agimos, deliberamos e estabelecemos, em nossa razão prática, o modo pelo qual agiremos, que é a “forma” da ação. Quando o escultor olha para o mármore, ele escolhe uma única forma para impor à pedra. Se o arquiteto não consegue decidir como será a casa que ele deve projetar, não consegue construir nenhuma casa. De modo similar, quando estamos aprendendo, temos que fixar nossa mente numa única forma inteligível, uma única ideia universal. Assim, se estamos inteligindo a ideia de “cidade”, ela inclui tudo: construções, ruas, moradores, acidentes geográficos, história, etc. Mas se queremos estudar, especificamente, o prédio da sede do Governo, temos que abandonar a ideia de “cidade” e pensar nele sob a ideia de edifício, de modo a inteligi-lo. Isto porque a ideia de “cidade é um universal, e a ideia de edifício, um outro universal.

É certo que Deus pode inteligir tudo simultaneamente, e não tem, em sua inteligência, este limite que a mente criatural tem. Mas isto se dá porque ele é Deus, princípio de unificação da criação, e pode ver todas as coisas simultaneamente simplesmente porque a essência divina, sendo única, é, ao mesmo tempo, a razão de tudo o que existe. Mas nós, nossa inteligência humana, não é razão das coisas; assim, precisa entendê-las uma por uma.

De fato, diz Tomás, cada forma só pode atualizar um potencial de cada vez, e cada matéria ou substrato só pode receber uma forma de cada vez. A mesma porção de argila não pode ser, ao mesmo tempo, jarro e estátua. A mesma maçã não pode ser, ao mesmo tempo, vermelha e verde. É certo que as coisas, os entes individuais, podem ter em si várias formas diversas; mas não sob o mesmo aspecto. Quando pinto a parede de uma cor, isso impede a parede de ser de outra cor ao mesmo tempo.

Ocorre algo análogo com o nosso intelecto. O intelecto passivo é o substrato da forma universal, ou seja, ele está pronto para receber a ideia universal da coisa, pela aprendizagem. Mas todas as ideias que ele pode aprender são universais do mesmo tipo, isto é, universais intencionais a serem impressos num intelecto. Assim, pelo mesmo princípio pelo qual a parede não pode ter duas cores na mesma superfície simultaneamente, o intelecto não pode ter duas formas universais em ato simultaneamente. Só podemos pensar ativamente numa única ideia universal aprendida, de cada vez.

É certo que aqueles conhecimentos intelectuais que adquirimos não são perdidos quando não estamos pensando neles. Eles permanecem em nós, em nossa alma intelectiva, mas não em ato. Apenas em hábito. Isto significa que, por exemplo, aquele grande matemático não perde a capacidade de resolver equações por estar a brincar com seu filho no jardim. Esta capacidade permanece latente, ou, como se dizia na filosofia clássica, em hábito, esperando para aflorar em ato no intelecto quando ela for necessária.

É por isto que, às vezes, quando estou muito concentrado estudando ou escrevendo textos aqui para a nossa conversa, às vezes não ouço a minha esposa me chamar. Os meus filhos brincam dizendo que eu sou “monotarefa”… Mas Tomás me dá razão.

3. Encerrando.

Depois desta lição magistral sobre o modo de funcionamento de nossa inteligência no tempo, examinaremos, no próximo texto, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.