1. Introdução.
No artigo anterior, vimos o processo de intelecção, que vai do concreto ao universal pelo caminho da abstração, e caminha do universal mais indeterminado e genérico ao mais distinto e específico, no caminho do aperfeiçoamento do conhecimento. O debate, agora, muda um pouco de enfoque: diz respeito a descobrir se há multiplicidade em nosso pensamento mesmo: nossa mente pode pensar em mais de uma coisa ao mesmo tempo, ou seja, podemos inteligir simultaneamente mais de um objeto?
No mundo hodierno, temos a tendência a achar que sim. De fato, estamos sempre pensando em muitas coisas ao mesmo tempo: presentes fisicamente no trabalho, com a mente nos problemas domésticos, enquanto digitamos no computador, ouvimos música e verificamos o correio eletrônico e o aplicativo de mensagens no celular pela enésima vez em dez minutos. Muitos jovens fazem a tarefa de casa no notebook enquanto jogam no desktop e assistem TV. Estarão de fato inteligindo, ou simplesmente vivendo uma vida de estimulação sensorial multiplicada? Será que isto indica um uso mais eficiente da inteligência, ou apenas a falta de paz para usá-la? O fato de que podemos receber múltiplos estímulos sensoriais simultâneos, ou que nossa mente pode vaguear rapidamente entre vários pensamentos comprova que podemos inteligir muitas coisas simultaneamente? Ou é apenas a marca da dispersão que nos impede de inteligir qualquer coisa?
O tema é importante. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida propõe que somos capazes de inteligir muitas coisas simultaneamente. São quatro os argumentos iniciais, que parecem confirmar esta hipótese. Vamos examiná-los.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer nos lembrar que nosso intelecto é uma realidade espiritual; isto quer dizer que ele não está submetido aos limites da matéria, que são os limites do tempo e do espaço. Em tudo aquilo que está submetido a tempo e espaço existe sempre um antes e um depois, um antecedente e um consequente, um aqui e outro lá. É por isto que nosso corpo não pode estar em dois lugares simultaneamente, e nosso olho não pode ver aquilo que está no passado ou no futuro. Mas nossa mente não está submetida a estes limites, e pode pensar em coisas que não estão fisicamente próximas, ou mesmo lembrar do passado ou projetar o futuro. Assim, se nossa inteligência não se sujeita aos limites da matéria, do tempo e do espaço, então ela também não tem os limites da sucessão temporal e espacial, e pode inteligir várias realidades simultaneamente, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Pensar nada mais é do que trazer de volta à mente as diversas ideias, ou seja, as formas universais que nós inteligimos no nosso contato com as coisas. Ora, mesmo nas coisas, materialmente, as formas podem existir simultaneamente, desde que não sejam opostas entre si. Assim, algo não pode ser preto e branco ao mesmo tempo, mas algo pode ser simultaneamente branco e doce, como o açúcar, ou vermelho, áspero e azedo, como uma lichia. Ora, se nas coisas materiais podem ocorrer diversas formas ao mesmo tempo, as acidentais ao mesmo tempo que a substancial, muito mais em nosso intelecto pode acontecer a presença simultânea de várias ideias universais inteligidas. Assim, podemos pensar simultaneamente em vários universais, inteligindo-os, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Como já vimos, as coisas materiais contêm em si diversas informações simultâneas, ou seja, seu todo nada mais é do que um conjunto de ideias atualizadas concretamente num mesmo indivíduo. Ora, somos capazes de inteligir simultaneamente todos os elementos que compõem esse conjunto que é um ente: podemos pensar, por exemplo, numa bela casa, e nela inteligir simultaneamente as portas, as janelas, o telhado, as paredes, suas cores e texturas. Portanto, nosso intelecto pode pensar simultaneamente em várias ideias universais, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Nossa mente consegue comparar duas coisas diferentes, percebendo as diferenças e as semelhanças entre elas. Mas para comparar coisas diferentes precisamos pensar nas duas coisas simultaneamente, para identificar semelhanças e diferenças. Isso prova, portanto, que temos a capacidade de inteligir mais de uma coisa simultaneamente, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita Aristóteles que, nos Tópicos, afirma de modo muito claro: temos conhecimento de muitas coisas, mas inteligimos uma de cada vez. Assim, o argumento conclui neste sentido.
5. Encerrando.
No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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