1. Introdução.
Parece claro, então, que o pensamento, mesmo naquilo que tem de mais puramente intelectual, e portanto espiritual, está ainda bastante ligado à memória e à imaginação, como dimensões da chamada “alma sensorial” ou potências relacionadas aos sentidos corporais; para pensar, sempre recorremos à memória e à imaginação e seu acervo de informações organizadas, que os antigos chamavam de “fantasmas” das coisas materiais.
Mas ainda resta um problema: na verdade, temos a experiência de pensar, mesmo em situações em que, aparentemente, estivemos privados dos sentidos, como naquelas vezes em que, adormecidos, temos ideias e intuições que parecem resolver problemas intelectuais complexos. Será que a espiritualidade da nossa inteligência, sua imaterialidade, sua independência com relação aos órgãos corporais, não determinaria que, algumas vezes, fôssemos capazes de pensar, mesmo quando estamos sem sentidos? Estar desperto, consciente, alerta, não pode ser mais um obstáculo ao pensamento do que uma ajuda a ele? A questão, aqui, não diz respeito simplesmente à capacidade de lembrar, de visualizar imagens, de ter pensamentos, ou até de ter intuições, mas de formular juízos mesmo, ou seja, de raciocinar corretamente quando se está privado dos sentidos, da condição de alertas para nós mesmos e para o mundo exterior.
Vemos, pois, quão sério é o debate proposto neste artigo. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida propõe que somos capazes de raciocinar, de fazer juízos intelectuais, mesmo se estivermos privados de nossos sentidos. Há dois argumentos objetores no sentido desta hipótese controvertida inicial.
3. Os argumentos objetores.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que o ato de raciocinar é superior à simples atitude de perceber o mundo externo por meio dos sentidos. Ora, diz o argumento, aquilo que é superior não pode ser turbado ou impedido por aquilo que é inferior. Assim, o fato de estarmos privados dos sentidos, em algum momento, não poderia nos impedir de usar nossa razão, de raciocinar adequadamente, de construir juízos de inteligência de maneira lógica. Assim, mesmo se estamos privados dos sentidos, ainda somos capazes de inteligir e construir juízos intelectuais, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O raciocínio, que consiste na construção de silogismos (premissas e conclusões lógicas que são o caminho da intelecção) é o ato do intelecto por excelência. Por outro lado, quem dorme está privado dos sentidos, como está registrado na obra De Somno et Vigilia, de Aristóteles. Mas acontece que, às vezes, ocorre que nós raciocinemos quando estamos dormindo; ora, se pode ocorrer de raciocinarmos dormindo, e se dormir é estar privado de sentidos, então podemos raciocinar mesmo se estamos privados de sentidos, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que ninguém comete pecado pelas coisas que lhe ocorrem durante o sono, mesmo quando são ilícitas ou imorais. Ninguém pode ser responsável pelas visões, ideias, pensamentos e enredos que se sucedem em seus sonhos, por mais ilegais, por mais impróprios ou inconvenientes que sejam, simplesmente porque não ocorrem pelo uso da razão, e portanto não são atos de inteligência propriamente ditos. Assim, o argumento sed contra conclui que, na privação dos sentidos, o intelecto não consegue raciocinar.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Como já sabemos, após colocar a hipótese inicial e levantar os argumentos que tentam defender essa hipótese, bem como o argumento que a refuta, Tomás passa a dar a sua própria resposta sintetizadora, para chegar a uma solução adequada para o debate, que leve em consideração todos os aspectos da questão.
Para responder ao debate proposto aqui, Tomás vai começar lembrando que, enquanto os anjos, por natureza, têm uma inteligência abstrata, para a qual os objetos próprios são as ideias, os conceitos, as formas e as universalidades, nós humanos temos uma inteligência naturalmente inserida no mundo material, histórico, impermanente, concreto, individual. A inteligência dos anjos é naturalmente desencarnada, naturalmente dada ao eterno e permanente, ao passo que a nossa é naturalmente existencial, vivencial, experimental. Assim, o objeto natural da nossa inteligência, o objeto que é adequado a ela, são as coisas materiais, tais como são encontradas em sua existência concreta. Nossa inteligência está “calibrada” para conhecê-las, senti-las pela experimentação, pela relação e pela vivência. Para nós, o abstrato, as ideias, as formas, a lógica, tudo isto é alcançado num segundo momento, quando já experimentamos a realidade concreta, já exploramos sua concretude existencial e, sobretudo, quando sabemos qual o sentido e o fim dos nossos raciocínios, dos juízos que fazemos sobre a realidade.
E, como nos lembra Aristóteles (que, como sabemos, Tomás chama de “O Filósofo”) no livro III da obra Sobre o Céu, há dois tipos de raciocínios ou juízos que nós utilizamos em nosso intelecto humano: os juízos especulativos, cujo fim é inteligir aquilo que é apreendido pelos nossos sentidos em contato com o mundo, e os juízos práticos, cujo fim consiste em uma obra humana. Assim, por exemplo, quando examino um cão e procuro raciocinar sobre ele (descobrir sua composição corporal, sua raça, sua espécie, seu gênero, os fins de sua atividade), construo raciocínios especulativos sobre ele, do tipo: “dentes longos e afiados e um bom olfato são próprios para a caça; este animal tem dentes longos e afiados, além de um excelente olfato, logo ele deve ser um animal caçador”. Mas, quando se trata de raciocínios práticos, o seu termo não consiste num conhecimento, mas num agir, do tipo: “quando se tem fome, é bom alimentar-se com algo nutritivo; este pão está disponível agora, e ele é nutritivo, logo, comerei este pão”.
6. Concluindo.
E como estes raciocínios, estes dois caminhos da inteligência, relacionam-se com os nossos sentidos? É o que veremos no próximo texto.
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