1. Retomando.

Este assunto relativo à aprendizagem intelectual e à relação entre nosso corpo e nossa alma, quanto à nossa inteligência, é, ao mesmo tempo, sedutor e complexo. Temos a tendência a conceber nossa inteligência como desencarnada, angelical, abstrata, mas, na verdade, ela é profundamente material, mesmo nas suas operações mais espirituais. Isto se demonstra pela nossa incapacidade de pensar sem a imaginação, sem a memória, como Tomás nos ensinou na resposta sintetizadora, que examinamos no texto passado. E ele deu duas razões muito simples pelas quais temos a evidência fenomenológica sobre esta relação estreita entre o corpo e a alma, entre o intelecto humano e a imaginação concebida em nossa memória sensorial: primeiro, a nossa incapacidade de pensar quando nosso corpo encontra impedimentos materiais ao funcionamento do cérebro ou das estruturas neurológicas em geral, como as pessoas que sofrem lesões ou patologias. E em segundo lugar está o modo pelo qual inteligimos e ensinamos, sempre recorrendo a imagens para melhor compreender e explicar.

Com isto, temos a tendência a imaginar que nosso pensamento precisa do cérebro para exercer seu ato. Mas, na verdade, o ato de pensamento, em si, não depende do cérebro nem de nenhum órgão corporal; isto é provado pela capacidade reflexiva do pensamento: o pensamento pode pensar em si mesmo, pode se observar pensando, e nenhum ato corporal tem este poder. Mas, por outro lado, o pensamento não pode deixar de recorrer às imagens obtidas da relação sensorial com o mundo físico, e por isso não pode se dar sem o corpo. Estudaremos mais sobre isto na questão 85. Por enquanto, vamos retornar ao exame dos argumentos objetores iniciais e das respostas de São Tomás a eles.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

A perfeição do intelecto é aprender; somos concebidos, no seio materno, e nascemos, como páginas em branco, ou seja, com o intelecto apenas potencial para o conhecimento. Ele se atualiza na medida que absorve em si as species, que são as essências universais das coisas, suas ideias, suas formas abstraídas das condições do tempo e do lugar em que as respectivas coisas concretas estão. Ora, se é assim, então o intelecto, atingindo o conhecimento, já se basta em conhecer as ideias de modo abstrato, sem precisar recorrer à imaginação e à memória das coisas concretas, que são classicamente chamados de “fantasmas”, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que aprender é reter, no chamado “intelecto possível” ou potencial, as species ou ideias abstratas das coisas aprendidas intelectualmente. Aqui, Tomás vai introduzir a diferença entre “ato” e “hábito”: o conhecimento intelectual é um hábito inscrito no intelecto, mas não está sempre em ato; a comparação, aqui, é com a de um grande músico: ele tem inscrito em sua alma o hábito de tocar o instrumento, mesmo que não o esteja tocando naquele exato momento. O hábito musical só se transforma em ato quando o músico apanha seu instrumento e executa nele uma melodia qualquer.

De modo similar, quando aprendemos, o nosso intelecto não fica sempre em ato para o conhecimento, como insinua o argumento objetor; ele adquire o hábito da ciência, e esta é a sua perfeição. Mas, de modo análogo àquele do músico que depende do seu instrumento para passar do hábito ao ato de tocar, o nosso intelecto possível depende da imaginação, das imagens das coisas concretas depositadas pelos sentidos na memória, para pensar em ato. Isto decorre mesmo do fato de que nossa inteligência é como que calibrada para o seu objeto próprio, que são as coisas materiais, e estas se apresentam na natureza sempre como entes concretos e individuais, de tal modo que, para pensar neles, mesmo intelectualmente, precisamos sempre recorrer aos fantasmas.

O segundo argumento objetor.

A imaginação e a memória são mais ligadas aos sentidos, ou seja, a imaginação e a memória dependem mais dos sentidos do que o intelecto depende da própria imaginação e seus fantasmas. Isto quer dizer que o grau de independência que existe entre o intelecto e a imaginação ou memória deve ser maior do que o grau de independência entre a imaginação (ou a memória e seus fantasmas) e os próprios sentidos.

Dito isto, o argumento nos recorda que a memória é capaz de imaginar as coisas que não estão mais presentes, ou seja, os fantasmas da memória podem surgir na nossa imaginação mesmo que a coisa mesma não esteja presente aos sentidos naquele momento: podemos, por exemplo, imaginar um cavalo, mesmo que não haja nenhum cavalo ao alcance dos nossos olhos, ouvidos e mãos.

Ora, se a imaginação, que é uma função da memória corporal ligada diretamente aos sentidos, pode funcionar sem precisar recorrer aos sentidos externos, então devemos concluir que o intelecto, que é mais independente da imaginação do que esta é dos sentidos, também deve poder funcionar sem ter que recorrer às imagens (fantasmas) da memória. Portanto, conclui o argumento, nosso intelecto não depende da imaginação, da memória e de seus fantasmas para pensar.

A resposta de Tomás.

A imaginação retém em si as imagens das coisas que foram percebidas pelos nossos sentidos. Ora, se estas imagens já estão retidas nela, ela não precisa mais dos estímulos sensoriais para recordá-las, porque estes dados já estão guardados na memória. E são os próprios dados das coisas percebidas, com sua concretude no tempo e no espaço.

Mas com a inteligência ocorre algo diferente. O conhecimento intelectual é abstrato, universal, incorpóreo, permanente. Por isto, nosso pensamento, que é o pensamento de um ser humano (e, portanto, de um ser que é, ele mesmo, concreto e temporal) precisa recorrer à imaginação para recordar o conhecimento intelectual; assim, ele traz de volta a semelhança concreta do pensamento abstrato, tornando o pensamento adequado ao modo humano de inteligir.

O terceiro argumento objetor.

Nós não podemos nem sequer imaginar um ente incorpóreo, como um anjo. É que nossa imaginação, tão ligada aos sentidos, não tem a capacidade de criar uma imagem (fantasma) de um ente incorpóreo como um anjo ou o próprio Deus. Também não conseguimos criar imagens de conceitos abstratos como a verdade ou a beleza. Nossa imaginação não consegue visualizá-los como “fantasmas”.

Mas nós conseguimos conhecer, intelectualmente, os anjos, os conceitos abstratos como a verdade e a beleza, e mesmo chegar a ter algum conhecimento intelectual sobre Deus. Conseguimos pensar sobre eles. Portanto, se o pensamento fosse tão estreitamente ligado à imaginação e seus fantasmas, não haveria como explicar essa nossa capacidade. Disto tudo o argumento conclui que nosso pensamento não precisa necessariamente recorrer aos fantasmas para pensar.

A resposta de Tomás.

Não conhecemos diretamente os seres incorpóreos, como anjos e o próprio Deus, ou os conceitos lógicos de verdade ou de beleza. O nosso conhecimento direto precisa sempre dos fantasmas, isto é, das imagens formadas na nossa imaginação pelos dados sensíveis obtidos do mundo material pelos sentidos.

Assim, quando chegamos a conhecer, por exemplo, a noção de verdade, isto se dá de modo reflexivo, quando conhecemos alguma coisa concreta (por exemplo, uma árvore ou uma pedra) e, chegando à própria species, percebemos que ela corresponde à noção divina a respeito da coisa conhecida e, portanto, é verdadeira; examinando, pois, o próprio processo de conhecimento, chegamos a conhecer a noção de verdade. Mas este conhecimento da noção de verdade não dispensa o exame reflexivo dos próprios fantasmas envolvidos no processo de conhecimento que foi reconhecido como verdadeiro, e portanto a própria noção de verdade não pode ser pensada, apreendida ou explicada sem esse recurso à imaginação.

Quanto a Deus, o (pseudo) Dionísio nos ensina que chegamos a conhecer alguma coisa dele quando refletimos sobre as causas naturais que conhecemos naturalmente (pelo processo sensorial de aprendizagem, que envolve os fantasmas) e, por reconhecer que há causas que excedem o nosso conhecimento sensorial (lembramos, aqui, da questão 2 desta primeira parte da Suma, que trata das vias para chegar a conhecer Deus), ou que, removendo as imperfeições e as contingências do mundo material, podemos chegar a conceber o que é incondicionado e perfeito; assim, há sempre um conhecimento com base sensorial, imaginativo, que pode nos revelar naturalmente alguma coisa sobre Deus – mas sempre por analogia. Portanto, sem usar a analogia com aquilo que é dependente dos fantasmas da imaginação, não poderíamos pensar nada sobre Deus.

De modo similar ocorre com o nosso conhecimento a respeito dos anjos: não conseguimos pensar diretamente sobre eles, porque eles não podem ser percebidos pelos nossos sentidos, e portanto simplesmente não podemos imaginá-los. Assim, nosso pensamento sempre se vale de analogias para pensar neles, usando de realidades materiais para inteligir aquilo que não é proporcionado a nossa inteligência natural.

Portanto, a analogia é a chave que nos permite usar da imaginação para inteligir mesmo aquilo que, a rigor, nem poderia ser imaginado.

3. Conclusão.

Este processo maravilhoso de conhecimento intelectual está, sempre e em cada momento, na dependência da memória, da imaginação, daquilo que em nós é corporal e nos relaciona com o mundo corporal. Nosso intelecto precisa da analogia para chegar àquilo que não é material nem pode ser, como os conceitos lógicos, os anjos e o próprio Deus. A perda da noção de analogia leva ao empobrecimento do nosso conhecimento da realidade, e isto é um mal que nos atinge, hoje, ainda mais do que no tempo de Tomás: há um positivismo redutor que prega, como valor exclusivo, o conhecimento unívoco. Mas isto é uma perda. O conhecimento unívoco, para nós, só é possível para aquilo que não ultrapassa as categorias de gêneros e espécies das coisas materiais. Tudo o que é criatural e imaterial, ou o que é o próprio ser e seus transcendentais (o bom, o verdadeiro, o belo, o uno e assim por diante) precisa ser conhecido por nós apenas analogicamente. Este é um limite humano, que precisa ser aceite para que possamos ter a esperança de conhecer as realidades que ultrapassam o entorno material. Veremos mais sobre isto nas próximas questões.