1. Retomando.

Somos corporais. Nosso corpo não é prisão da alma, nem castigo, nem um acidente que se une a uma alma que seria completa em si mesma. A nossa alma existe para estruturar um corpo, e nosso corpo para permitir nossas relações. Não há relação humana sem o corpo. Repetindo: não há relação humana sem o corpo. Isto poderia nos remeter à Santíssima Trindade, que é substância em relação, e explicar, teologicamente, a importância da corporeidade como instrumento de relação. Poderia remeter, também, ao Sacramento da Eucaristia, que nos dá um corpo para a vida eterna. Mas não vamos fugir do assunto do artigo: trata-se, aqui, de estabelecer como o corpo é indispensável, mesmo para uma atividade tão profundamente espiritual como pensar.

Vimos, alguns textos atrás, que o conhecimento intelectual é uma atividade que não envolve nenhum órgão corporal. Nosso intelecto age espiritualmente. Mas não podemos imaginar, com isto, que ele é independente do corpo. Ele não se localiza em algum órgão, nem depende de algum órgão para funcionar; é por isto que a dignidade humana é a mesma, independentemente, digamos, da quantidade de massa encefálica que um indivíduo possua, ou mesmo de algum defeito neurológico ou corporal. Somos dignos porque nossa espiritualidade não se condiciona ao corpo, nem diminui se o corpo for incompleto ou imperfeito. Mas o corpo é tão integralmente uma parte nossa quanto o espírito, e por isso mesmo o pensar depende sempre do corpo, de suas sensações, de suas relações, das imagens que ele pode formar para nós, de suas memórias.

Voltando, então, ao tema, visitaremos agora a resposta sintetizadora de Santo Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

Tomás vai começar sua resposta sintetizadora fazendo já uma afirmação categórica: os seres humanos, nesta vida, não conseguem sequer pensar em algo sem recorrer à imaginação, à memória e às imagens (fantasmas) das coisas que foram percebidas pelos nossos sentidos corporais. Portanto, não estamos tratando, aqui, do que acontece depois da morte, com a sobrevivência da alma separada do corpo. O interesse, aqui, é pelo ser humano vivo, em sua integridade corpo e alma.

Ele vai nos apresentar, então, dois indícios que servem de evidência para esta afirmação tão forte:

1) O ato do intelecto, como já vimos, é um ato que não está vinculado a nenhum órgão corporal. Assim, nós não poderíamos ser impedidos de pensar em nada, de acessar nenhum conhecimento intelectual, mesmo que sofrêssemos alguma lesão corporal, se o ato de pensar não precisasse sempre recorrer à imaginação ou à memória para acontecer. Precisamos registrar, aqui, que a memória das informações sensoriais, assim como a imaginação, que reúne e guarda as imagens dos objetos dos nossos sentidos, são ligados ao nosso corpo, ou seja, ocorrem materialmente em nosso cérebro. É por isto que pessoas com lesões cerebrais, ou em coma, ou com problemas neurológicos, não conseguem recorrer aos conhecimentos intelectuais, mesmo que já os tenham adquirido anteriormente. Vale dizer, pessoas em coma, ou com lesões neurológicas, ou com algum tipo de intoxicação ou desordem psiquiátrica séria, simplesmente não conseguem pensar adequadamente, mesmo quando já possuam o conhecimento intelectual. Isto sinaliza que, embora o pensamento em si não seja uma função corpórea, o seu exercício efetivo depende do corpo, porque depende de que seja possível recorrer à memória e à imaginação.

2) Podemos perceber em nós mesmos que, quando nos esforçamos para pensar em alguma coisa, da qual temos conhecimento intelectual, ou estamos em processo de aprendizagem, sempre recorremos a imagens da nossa memória, da nossa experiência empírica (ou seja, aos fantasmas) para relacionar com o conhecimento, como se tentando visualizar no pensamento aquilo que estamos inteligindo. De modo similar, quando tentamos ensinar alguma coisa muito abstrata, muito intelectual, para outra pessoa, sempre procuramos dar exemplos concretos, de tal modo que a pessoa possa visualizar concretamente, imaginar, formar “fantasmas” daquilo que estamos explicando.

A razão de que nós sempre precisemos das imagens para inteligir, para pensar, é que cada intelecto é proporcionado àquilo que é seu objeto próprio. O objeto próprio da nossa inteligência é o mundo material, e é para conhecê-lo em primeiro lugar que nossa inteligência foi criada.

Os anjos, por outro lado, são seres imateriais, e têm como objeto próprio da sua inteligência as ideias ou formas separadas, e é por conhecer em primeiro lugar estas ideias ou formas separadas que ele chega a inteligir o mundo material. O intelecto dos seres humanos, por sua vez, sendo o intelecto de um ser material, tem como objeto próprio o mundo material, as coisas cuja essência envolve serem materiais, concretas, individualizadas. E é pelo conhecimento desses entes que o intelecto humano chega a alcançar as ideias e as formas abstratas, ou mesmo das coisas que são essencialmente imateriais, como os próprios anjos.

Assim, quando conhecemos uma pedra, examinando-a, é por esse exame concreto que chegamos a conhecer o que são as pedras, como são estruturadas, de que são feitas, quais suas propriedades e em que podem ser úteis para nós; ora, uma vez que este conhecimento só pode ser alcançado pelo exame da própria pedra, adquirindo as informações sensíveis, formando imagens mentais e organizando estas informações de modo a abstrair delas o conhecimento intelectual, nosso modo de conhecer implica sempre lembrar dessas informações concretas, quando pensamos nas pedras em geral. Não podemos, então, acreditar que, uma vez que cheguemos a conhecer intelectualmente as coisas, estejamos dispensados das lembranças concretas, ao pensar nelas. É exatamente por sermos seres materiais que estas lembranças nunca serão dispensáveis para nós.

A proposta de Platão, de que o conhecimento intelectual é, na verdade, o conhecimento de um “mundo separado das ideias” parece ser mais coerente com o modo de conhecer dos anjos do que com o modo humano de conhecer. Para Platão, o mundo material seria apenas um estímulo para lembrarmos de uma intelecção que vem do mundo separado das ideias, e, portanto, uma vez que lembrássemos do conhecimento intelectual, já não precisaríamos das imagens concretas, ao pensar. Mas não é assim. O modo humano começa com o corpo, aperfeiçoa-se nele e não o dispensa mesmo quando adquire a intelecção.

3. Encerrando.

No próximo texto, municiados destas explicações tão reveladoras da nossa humanidade, tão esclarecedoras do modo propriamente humano de pensar e aprender, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.