1. De volta.
Sabemos que este é um daqueles artigos nos quais, quando terminou a sua resposta sintetizadora, tão precisa e completa, Tomás não sentiu necessidade de oferecer respostas individualizadas porque entendeu que as dúvidas já estavam adequadamente respondidas. Propomos, no entanto (por nossa conta e risco) voltar aos argumentos objetores iniciais e fazer o exercício de responder a eles explicitamente, com base naquilo que Tomás já nos ensinou. Estas respostas, portanto, não são exatamente de Tomás, mas minhas, embora com atenção ao que ele ensinou. Vamos a elas.
2 As objeções iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor alega que aquilo que nos permite conhecer outras coisas deve ser maior do que as coisas conhecidas, e deve ser conhecida antes das coisas. Por exemplo, a noção de triângulo, como figura geométrica fechada de lados retos, cuja soma dos ângulos internos é igual a cento e oitenta graus, é mais importante do que qualquer triângulo desenhado por aí. Na verdade, o conhecimento da noção de triângulo deve ser conhecida de modo anterior ao conhecimento dos triângulos concretos, e é mais importante do que cada triângulo concreto que existe por aí; se um triângulo concreto for destruído, a noção de triângulo continua existindo sem nenhuma alteração.
Assim, se as razões de Deus são o fundamento dos nossos conhecimentos da realidade concreta, devemos poder ver Deus, quer dizer, ter acesso direto à própria inteligência dele. Mas sabemos que, como diz o (Pseudo) Dionísio, não conhecemos Deus enquanto caminhamos nesta vida, porque estamos unidos a ele em nossa ignorância. Logo, não conhecemos as coisas pelas razões eternas de Deus, conclui o argumento.
Respondendo.
Nós não temos a visão imediata de Deus, a chamada “visão beatífica”, nesta vida. Isto é verdade. Mas temos que considerar que as ideias ou formas, como estrutura universal de uma coisa, só pode existir na própria coisa, como indivíduo, ou numa mente, como conhecimento. Assim, como nossa mente, nosso intelecto humano, nasce como uma página em branco, o nosso processo progressivo de aprendizagem vai preenchendo nossa inteligência dessas ideias ou formas universais; ora, ao conhecê-las intelectualmente, nós não as conhecemos daquele modo pelo qual estão nas coisas, isto é, individual e concretamente, mas daquele modo pelo qual está na mente de Deus, isto é, universal e abstratamente. Ao chegarmos a este conhecimento, alcançamos, embora de modo limitado e imperfeito, as próprias razões divinas sobre as coisas, e é por estas mesmas razões divinas que podemos, então, conhecer intelectualmente as coisas concretas. Um exemplo: quando nascemos, não sabemos o que é um círculo. Examinando alguns círculos concretos, tanto aqueles que se oferecem naturalmente a nós, como por exemplo o reflexo do sol ou da lua na água, quanto aqueles desenhados pelo ser humano, lentamente chegamos à noção de que o círculo é uma figura geométrica fechada, bidimensional, na qual todos os pontos da circunferência perimetral encontram-se à mesma distância do centro. Chegando aí, encontramos não um círculo individual na natureza ou obra de mãos humanas, mas a própria razão de círculo, que está na mente de Deus. A partir daí, reconhecemos os círculos concretos que encontrarmos pela razão divina que atingimos. E isto sem que precisemos ver diretamente a essência divina.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que em Romanos 1, 20, São Paulo nos ensina que “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras”. As coisas materiais são visíveis, e as razões divinas são invisíveis. Assim, de acordo com a Bíblia, são as coisas materiais que nos fazem conhecer as razões divinas, e não o contrário, conclui o argumento.
Respondendo.
Como vimos na resposta sintetizadora, de fato, uma vez que não temos a visão beatífica, é o nosso processo de aprendizagem intelectual que nos faz chegar às razões divinas, ao chegar nas species universais. E neste ponto o ensinamento bíblico é muito preciso. Mas, uma vez que chegamos ao conhecimento intelectual, as razões divinas passam a residir em nosso intelecto, e é com elas que conhecemos o mundo material que nos cerca. Se não houvesse a estabilidade e a universalidade da mente divina, dando inteligibilidade e estabilidade ao mundo, o próprio conhecimento intelectual nos seria impossível.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra que a noção de que há “razões eternas” na mente de Deus se confunde, afinal, com a noção das “ideias” de Platão. Segundo o próprio Agostinho, aquilo que Platão chamou de “ideias” nama mais seriam que razões estáveis das coisas, existentes na mente divina. Assim, se estas razões eternas são ideias, e se elas nos fazem conhecer todas as coisas, então Platão estaria certo em dizer que nós não aprendemos pelo contato empírico com as coisas, mas recebemos nosso conhecimento intelectual diretamente a partir das ideias, ou seja, da mente divina.
Respondendo.
O fato de que existam, realmente, “razões eternas” das coisas na mente divina, e que estas razões sejam o fundamento e o meio pelo qual conhecemos intelectualmente todas as coisas, não exclui, como já vimos, que o nosso processo de aprendizagem passe pelos sentidos e pelo exame das coisas em sua materialidade. Estudaremos mais sobre esse processo nos próximos artigos.
3. Concluindo.
Todas estas respostas já estavam implícitas no texto da resposta sintetizadora de Tomás, mas explicitá-las é muito útil. Além disso, é de considerar que a pedagogia de Tomás pressupõe que já tenhamos conhecimento prévio de assuntos que ele só explicará em artigos posteriores, e por isso não é inútil o trabalho de reafirmar, explicar, pesquisar, aprofundar estes temas, para que fiquem mais evidentes para nós.
31 de agosto de 2022 at 12:54
O Senhor a cada dia continue te iluminando.
Muito obrigado.
Gratidão
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