1. De volta ao debate.
Parece muito claro, então, que é possível a nós, humanos, conhecer intelectualmente este mundo material no qual vivemos e do qual fazemos parte. A chave está nas formas, mas não, como queria Platão, formas existentes realmente em algum mundo real, espiritual, separado destes, mas as próprias formas que existem nas coisas, e fazem com que elas sejam o que são. Lembramos que “forma”, no sentido técnico, não quer dizer “formato”, mas estrutura interna e externa de alguma coisa. Estas formas estão na mente de Deus, que criou o mundo, estão nas próprias coisas em sua individualidade e, quando aprendemos sobre elas, passam a estar em nossa mente, intencionalmente. Isto é o que torna toda a ciência natural possível e verdadeira.
Examinaremos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que Agostinho ensinou que as coisas corpóreas, que são os entes materiais, não podem ser compreendidos pelo intelecto, porque somente os sentidos podem estabelecer uma relação de apreensão, ou seja, podem conhecer as coisas materiais. De fato, prossegue, conhecer é ter as coisas, por sua essência, em nosso intelecto; e as coisas materiais não poderiam entrar em nosso intelecto, que é espiritual. Seria impossível, por exemplo, que uma pedra, que é essencialmente material, pudesse entrar em nosso intelecto, para ser conhecida. Assim, o argumento conclui que não podemos conhecer intelectualmente as coisas corpóreas.
A resposta de Tomás.
Antes de examinar a resposta de Tomás, devemos lembrar que Agostinho não teve acesso ao pensamento completo de Aristóteles; conheceu apenas fragmentos de sua obra. Assim, Agostinho é muito influenciado pelo platonismo e pelo neoplatonismo. Dito isto, voltemos à resposta de Tomás.
Tomás vai fazer uma distinção, porque ele sempre evita desmentir simplesmente Santo Agostinho, a quem ele respeita muito. Então ele dirá que, neste trecho que o argumento cita, Santo Agostinho não está falando de um limite do próprio intelecto humano, como se não pudéssemos saber nada das coisas materiais. Ele está falando de um limite do nosso processo de aprendizagem: de fato, o intelecto humano não é capaz de se relacionar diretamente com as coisas materiais, como objetos de conhecimento. Assim, cabe aos órgãos sensoriais entrar em contato com o mundo material e fornecer estes dados brutos, a partir dos quais, por abstração, o intelecto extrairá as formas universais das coisas conhecidas, guardando-as em si como conhecimento, de modo intencional, como já foi explicado na resposta sintetizadora, no último texto. Portanto, é como essências, imateriais, universais, intencionais, e não com sua matéria, que as coisas estarão em nosso intelecto. Assim, aquela pedra estará em nosso intelecto como conhecimento intelectual de que se trata de um pesado fragmento de rocha cristalina, áspero ao tato e brilhante ao olhar, e não como um pedaço de pedra que carregamos na cabeça.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor faz uma proporção entre o conhecimento sensorial e o intelectual. O conhecimento intelectual, abstrato e generalizante, universal e lógico, é proporcionado ao intelecto, mas completamente desproporcional aos sentidos e ao conhecimento sensorial, porque este só pode lidar com as coisas materiais, individuais e concretas, na sua individualidade. Assim, também o intelecto seria desproporcionado às coisas individuais e concretas, que são objeto próprio dos sentidos e, portanto, seria impossível conhecer intelectualmente as coisas corporais, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai lembrar que o próprio Santo Agostinho, na Cidade de Deus, afasta a ideia de que as inteligências, por serem espirituais, só podem conhecer coisas espirituais, e as coisas corpóreas só poderiam ser aprendidas pelos sentidos, que são materiais. Se fosse assim, Deus e os anjos não poderiam conhecer o mundo material, apenas os animais apreenderiam, sensorialmente, sobre as coisas corporais. Isto não é verdade. A inteligência, sendo de natureza espiritual, tem uma capacidade que engloba a capacidade sensorial, que é estritamente material e limitada. Assim, aquilo que é inferior (os sentidos) não podem alcançar aquilo que é superior (o intelecto), mas aquilo que é superior abrange e contém aquilo que é inferior. Por isto, mesmo que os sentidos não consigam apreender o universal, que é imaterial, o intelecto consegue apreender o concreto, por conhecimento intencional.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor alega que é próprio do intelecto conhecer aquilo que é permanente e imutável: dois mais dois serão quatro por toda a eternidade. Mas uma nuvem, uma planta, ou mesmo uma pessoa mudam com o tempo, de tal modo que o fato de que eu olhe uma nuvem hoje não me fará reconhecê-la amanhã, porque ela terá outra forma, outra posição. Assim, o intelecto não pode conhecer as coisas materiais.
A resposta de Tomás.
Toda a realidade, mesmo a material, tem algum tipo de permanência em si. Quando, por exemplo, muda um acidente de alguma coisa, a sua substância permanece a mesma: se antes eu tinha os cabelos pretos, hoje os tenho brancos, mas ainda sou eu, a minha substância pessoal, quem tem os cabelos desta ou daquela cor. Mesmo quando há a corrupção da substância, como no caso de um grande incêndio que consome uma árvore, a matéria permanece – a madeira vira carvão, mas é a mesma matéria, que antes era madeira, que se apresenta agora como carvão. Mesmo no caso dos movimentos locais, como a mudança de posição, há alguma espécie de permanência: se alguém está sentado agora e depois se levanta, será verdade para sempre que ele esteve sentado naquele momento anterior. Portanto, nada impede que o intelecto conheça, por um conhecimento permanente, fixo e imutável, mesmo as coisas mais transitórias.
3. Conclusão.
Está, portanto, estabelecida com rigor a capacidade intelectual de conhecer as coisas na sua individualidade corpórea.
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