1. Retomando o assunto.

Vimos, no texto anterior, a importância de compreender muito bem o modo pelo qual podemos conhecer intelectualmente o mundo material, ou seja, as coisas corpóreas que nos cercam; defender isto é defender que somos humanos, temos um modo próprio de conhecer intelectualmente como humanos e, acima de tudo, somos mais uma das coisas corporais existentes. Somos parte da realidade corporal que nos interpela, e temos uma maneira peculiar de conhecê-la. É esta maneira peculiar de conhecer que vamos investigar agora, a companhando a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

Tomás vai começar nos dando uma bela aula de filosofia, ou melhor, de história da filosofia do conhecimento.

De fato, diz Tomás, quando os antigos começaram a filosofar, eles imaginavam que o mundo consistia apenas nas coisas materiais, ou seja, o mundo era uma realidade inteiramente corpórea, e se esgotava naquilo que poderíamos experimentar sensorialmente. Ora, se era assim, então havia uma grande dificuldade para conhecer o mundo e as coisas que estavam nele: o mundo material é marcado pela impermanência, pela mudança, pela decadência. Alguém poderia imaginar que conhecia aquela roseira, com suas belas flores, mas amanhã ele retornava ao local e as flores já estavam murchas ou haviam caído. Se toda a realidade estava configurada num mundo material, e se tudo o que é material é impermanente e transitório, e se o conhecimento é um saber que não muda, é fácil chegar à conclusão de que não se pode conhecer nada com certeza; e esta foi a conclusão a que eles chegaram. De fato, Heráclito chegou a afirmar que não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, ou seja, não há nenhuma estabilidade, na realidade material, que permita alcançar o conhecimento.

A teoria platônica.

Isto fez com que Platão tivesse a necessidade de pleitear a existência de uma outra realidade, não material, mas ideal, dotada de estabilidade e imaterialidade que, por serem estáticos, imutáveis e desprovidos de corpo, permitiriam o conhecimento certo pela mente humana. Assim, este universo separado, ou universo das ideias, composto de puras formas, seria mais real do que nosso universo material; aqui, as coisas materiais teriam formas apenas de modo passageiro, precário, por simples participação nas formas eternas, ideais, em cuja imagem os seres materiais são originados. Portanto, segundo Platão, todo conhecimento intelectual que temos não é o conhecimento das coisas materiais daqui do nosso mundo; quando um biólogo conhece os cães, ele não está se referindo ao conhecimento empírico que eu tenho da minha cadelinha Pipoca, mas à própria ideia de cão, existente no universo das formas, separado deste, e no qual a ideia de cão se dá de modo imaterial e estável ao nosso conhecimento intelectual. E isto se dá com toda e qualquer ciência sobre o mundo material: não se trata de um conhecimento das coisas concretas, para Platão, mas das ideias separadas.

O erro de Platão.

O erro de Platão é duplo, diz Tomás.

Em primeiro lugar, pleitear a existência de um “reino das formas”, ou “mundo das ideias” imateriais e imutáveis, que seria o objeto real do nosso conhecimento, e do qual o nosso universo seria apenas uma cópia participada, sujeito à alteração e ao fluxo do tempo, não resolve nosso problema do conhecimento. Continuamos sem conhecer intelectualmente o mundo concreto, histórico e material no qual vivemos e do qual fazemos parte; nosso conhecimento intelectual teria como objeto um mundo que não é o nosso. Pleitear que podemos conhecer um universo ideal não resolve o problema de conhecer o universo concreto no qual vivemos, ao contrário, declara que este conhecimento realmente não é possível.

Em segundo lugar, isto significa que o nosso intelecto não teria acesso ao fenômeno da mudança, da transformação, nem à concretude da matéria e seu poder individualizador. Ficaríamos, também, privados do conhecimento a respeito das causas de mudança, ou seja, das causas eficazes e das causas finais que dirigem o fluxo das mudanças das coisas materiais.

E por que Platão cometeu este erro? Ele cometeu este erro ao tentar caminhar no bom caminho; ele intuiu, corretamente, que, no caso do conhecimento intelectual, seria preciso que a mesma forma que está no objeto do conhecimento deveria também estar no sujeito que conhece: se conheço um cão, isto significa que a forma do cão está em minha mente, como está no cão. Esta identidade, esta presença da mesma forma no objeto de conhecimento e no meu intelecto, implica conhecimento intelectual.

O erro de Platão, então, ocorreu quando ele imaginou que a forma deveria estar nas coisas pelo mesmo modo que ela está no meu intelecto! Quer dizer, se eu conheço a pedra, a estrutura da pedra, sua ideia, ou seja, sua forma, deveria estar na matéria do mesmo modo que está na minha mente. Mas isto obviamente não acontece: na minha mente, eu tenho um conhecimento abstrato, universal e conceitual da pedra; este conhecimento fica estabilizado e fixado em mim. Daqui a, digamos, cinquenta anos, a noção de pedra que conheci na infância continua igual. Mas a pedra que está ali no chão tem uma existência mutável, histórica, contingente: daqui a cinquenta anos ela pode ter sofrido erosão, ou mesmo ter sido derretida para transformar-se em algum minério, ou ainda ter sido incorporada, por algum processo natural, em alguma formação sedimentar. Uma vez que Platão acreditava que a mesma forma deveria estar, do mesmo modo, no objeto de conhecimento e no intelecto do sujeito que conhece, ele teve que propor que o que eu conheço não é esta pedra aqui, mas a própria ideia imaterial e permanente de pedra, existente num reino ideal e imutável. Portanto se imaginarmos que a mesma forma precisa existir da mesma maneira no sujeito do conhecimento e em seu objeto, diante da impossibilidade de que a pedra esteja materialmente no meu intelecto, eu tenho que concluir que ela deve existir objetivamente, imaterialmente, em algum lugar, e foi exatamente esta a conclusão a que Platão chegou. Imaginou um mundo separado, cheio de ideias perfeitas de todas as coisas cognoscíveis, tais como deveriam estar em nossa mente quando as conhecemos intelectualmente.

O mundo material e a pluralidade dos modos pelos quais as formas se apresentam.

Mas as formas não precisam estar em todos os lugares do mesmo modo; na verdade, há muitos modos pelos quais uma forma pode estar numa coisa, mesmo nas coisas materiais, diz Tomás.

Vamos abrir um parêntesis aqui para lembrar que “forma”, para Tomás (e para toda a filosofia clássica) não é simplesmente o formato (como pensamos hoje), mas a estrutura da coisa. Pensemos numa folha: a estrutura da clorofila determina que ela apresente a cor verde, quando nós a olhamos. Assim, a folha tem a forma do verde aos nossos olhos. Esclarecido este conceito, voltemos a Tomás.

Tomás diz que as formas se apresentam, na natureza, de muitas maneiras. Tomemos a forma de um cão: a sua estrutura biológica é a mesma, uma vez que eles conseguem se reproduzir fertilmente, quando cruzam. Mas a forma do cão se manifesta de uma maneira muito diferente num Chihuahua e num Mastim. Mesmo uma forma acidental, como a cor branca, pode se manifestar de modo diferente num pássaro, numa nuvem ou no leite. Não é preciso, pois, imaginar (como faz Platão) que as formas sempre devam se apresentar do mesmo modo em todas as suas manifestações.

Pensemos nos nossos sentidos: é claro que a cor não está do mesmo modo na coisa vista e no olho, mesmo se sabemos, como sabemos, que é a mesma cor, a cor que vemos, que está na coisa vista. Assim, a cor verde está na folha como manifestação visível da presença da clorofila, mas está em nossa visão como assimilada pelo sentido, sem que a própria folha, em sua materialidade, esteja em nós. Quando vemos a folha, é apenas a sua cor que entra em nossos olhos, não a folha em sua materialidade concreta. Assim, a cor verde, a mesma forma verde, existe na folha de um modo e em nossa visão de outro modo. Na folha, como acidente da matéria. Em nosso olhar, como percepção sensorial, ou seja, como conhecimento de que aquele verde é o verde daquela folha. É por isto que dizemos que a forma está no sentido como intenção: a intenção é aquilo que aponta, que dirige, que encaminha. Quando conhecemos o verde da folha, assimilando em nós esta forma, este conhecimento aponta para a folha real e concreta.

Isto, que acontece com o conhecimento sensorial, acontece também com o conhecimento intelectual. Aqui, não é apenas um dos aspectos da coisa que se dá ao conhecimento, como é o caso do conhecimento sensorial, em que cada sentido apreende apenas o seu sensível próprio. No conhecimento intelectual, é a própria estrutura formal da coisa, como um todo, que se dá ao nosso intelecto. Assim, ao conhecer a folhinha da árvore, eu assimilo em mim a sua estrutura, sua composição, sua função, sua finalidade, suas capacidades, mas o faço por abstração. Se minha inteligência é uma estrutura puramente espiritual (como já vimos que é, em debates anteriores), isto significa que aquela estrutura, que dá existência concreta à folha na matéria, deve passar a existir em mim, em meu intelecto, de modo imaterial. É a mesma forma, a mesma estrutura, a estrutura de uma folha de árvore, que existe na árvore e existe em meu intelecto. Mas o modo de existir não é o mesmo. Na árvore, ela existe como individuada na matéria, na concretude do universo, como criatura de Deus. Em minha mente, ela existe como abstração, imaterial, imutável, invariável, mas de um modo tal que a sua existência mesma em mim aponta para a sua existência concreta fora de mim – por isto dizemos que, na minha mente, ela existe intencionalmente. O modo de existência da folha na árvore é material. Mas o modo de existência da mesma folha em mim é intencional. Esta diferença não foi considerada por Platão, e é capaz de explicar como é que o conhecimento intelectual das coisas materiais é possível.

3. Finalizando por enquanto.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.