1. Introdução.

Às vezes saio para caminhar com meus cães, e me passa pela cabeça: será que eles estão vendo o mundo como eu estou vendo? Será que eles veem os carros, as árvores, as placas, os muros, percebem o que eu percebo?

Uma outra experiência interessante é a de visitar um país cuja língua desconhecemos – ou até mesmo desconhecemos o alfabeto. Olhar para uma placa sinalizadora escrita em caracteres estranhos é um pouco como olhar para uma partitura sem conhecer música: vemos a aparência física, mas não somos capazes de compreender o significado do que vemos. Talvez seja assim com nossos cães.

Quando enxergamos o mundo físico à nossa volta, qual a participação dos nossos sentidos e qual a participação do nosso intelecto nesta visão? Será que nosso intelecto participa desta aventura de ver e ouvir as coisas corporais e concretas com que nos deparamos diariamente, em nosso perambular?

Há, por outro lado, um certo intelectualismo que tende a desprezar o mundo concreto, corporal, no qual estamos inseridos e do qual fazemos parte. Dualismos de todo tipo, como o platônico ou o cartesiano, levaram-nos a desprezar o mundo da extensão, da matéria, da história, como algo inferior, desprezível, irracional. Este é também um perigo real.

É este o debate que se vai fazer aqui, agora. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida.

Como já sabemos, todo artigo se inicia com a proposição de uma hipótese controvertida, para provocar o debate. Esta hipótese procura responder à problemática proposta pelo artigo, mas de um modo unilateral e não equilibrado. Aqui, a hipótese propõe que o nosso intelecto não participa em nada deste conhecimento cotidiano com que nos relacionamos com o mundo corporal que nos cerca. Ele propõe que o nosso conhecimento da realidade corporal é estritamente sensorial, e não difere em nada daquele que os animais são capazes de ter. Assim, a hipótese propõe que nós conhecemos as realidades do universo corporal apenas com o conhecimento sensorial, e nunca com o conhecimento intelectivo. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

Estes argumentos, como sabemos, procuram evidenciar a verdade da hipótese controvertida inicial, aduzindo juízos ou constatações que parecem confirmá-lo. Vamos examiná-los.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que nos ensina, na sua obra Solilóquios, que os corpos não podem ser compreendidos pelo intelecto, já que ele não possui maneira para percebê-los diretamente. Somente os sentidos podem perceber as coisas corpóreas com as quais interagimos. O mundo que nos cerca não se dá diretamente ao nosso pensamento, mas à exploração dos nossos sentidos: ver, ouvir, tatear, saborear, cheirar, é assim que interagimos com o mundo corpóreo. O nosso intelecto, diz o argumento, é capaz de lidar apenas com universais, abstrações, formas, essências, mas não com realidades materiais individuais e concretas. É por isto que Agostinho nos diz, no Comentário ao Gênesis, que as coisas que estão em nosso intelecto, estão ali por sua essência, não por sua materialidade. Assim, nosso intelecto não é capaz de conhecer a realidade corporal, material, que nos cerca.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que os nossos sentidos têm uma esfera própria de objetos, e o intelecto tem uma esfera diferente. Os sentidos se relacionam com os objetos do intelecto de uma maneira análoga, proporcional, àquela pelo qual o intelecto se relaciona com os objetos dos sentidos.

Ora, nossa alma sensorial não conseguiria conhecer os objetos do intelecto, porque os objetos do intelecto não podem ser percebidos pelos sentidos. Nossos sentidos não podem perceber conceitos, juízos, raciocínios, princípios, que são objetos intelectivos, ou seja, são objetos apenas para a alma intelectiva. Ora, se as potências sensoriais são incapazes de se relacionar com os objetos das potências intelectivas, então, analogamente, o intelecto deve ser incapaz de se relacionar com os objetos das potências sensoriais, que são as coisas corporais que nos cercam. Por isto, nosso intelecto não pode conhecer as coisas corporais, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Nosso conhecimento intelectual, sendo abstrato e universal, é também necessário e permanente: aquilo que nós conhecemos intelectualmente fica em nós como um conhecimento estável, imutável, permanente, necessário, que independe das variações concretas que sofremos, ou que o mundo sofre. O exemplo é a matemática: quando conhecemos que dois mais dois são quatro, este conhecimento intelectual ficará sempre em nós, e dois mais dois serão quatro, sempre e imutavelmente.

Ora, A realidade material, corporal, que nos cerca e da qual fazemos parte, é mutável, corruptível, histórica, contingente e processual. Portanto, ela não é um objeto adequado para o nosso intelecto. Assim, não conhecemos de modo algum a realidade corporal, concreta, pelo intelecto, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra lembra que o intelecto é a sede de toda a ciência, ou seja, de todo o conhecimento sistematizado, intelectual, das causas, pelas causas, das coisas naturais. Ora, se nosso intelecto não é capaz de conhecer as coisas concretas, corporais, que se dão naturalmente a nós e dentre as quais nós próprios nos contamos, então nenhuma ciência natural é possível; não conseguiremos alcançar nenhum tipo de conhecimento científico sobre a realidade natural, histórica, corporal, da qual fazemos parte e que nos cerca. Mas temos esta ciência, ou seja, a ciência natural é possível. Então, conclui o argumento, nós podemos conhecer intelectualmente os seres corporais.

5. Encerrando.

O argumento sed contra estabeleceu, agora, toda a importância deste artigo: trata-se de defender a possibilidade de abordar intelectualmente a realidade material, ou seja, trata-se de defender a autonomia do conhecimento científico. Somente estabelecendo solidamente a possibilidade de conhecimento intelectual da realidade corporal, material, concreta e histórica, é possível desenvolver o conhecimento científico. Ali onde esta possibilidade não foi estabelecida, restou apenas o conhecimento religioso, o conhecimento tradicional, o conhecimento mítico e a magia.

Mas, graças a Deus, nossa cultura conseguiu estabelecer as bases filosóficas para a autonomia do conhecimento científico. Veremos mais sobre isto no próximo texto.