Conhecer é, antes de mais nada, receber na alma aquilo que existe fora de nós. Conhecer é realmente possuir espiritualmente todas as coisas. Para Tomás, conhecer é assimilar as coisas em nós. E, como dizia Aristóteles na Metafísica, a alma, ao conhecer, torna-se, de certo modo, todas as coisas. Por isto, aquele que conhece é mais rico do que aquele que faz.

Mas nós perdemos um pouco esta noção, hoje em dia. Para nós, hoje, conhecer é ser capaz de fazer alguma coisa com um mundo que, em si mesmo, tem pouco significado para além daquele que nós próprios construímos com nosso pensamento. Para nós, a atividade fundamental do intelecto não é conhecer, mas pensar, e pensar é ser capaz de transformar. Nós já não sabemos o que é contemplar. Apenas olhamos para as coisas, negamos que elas tenham algum sentido em si mesmas e passamos a tentar dominá-las, fazer delas alguma coisa com o sentido que nós mesmos impomos a elas com o nosso pensamento. Já não acreditamos que o mundo tenha um sentido em si mesmo, que seja, portanto, um verdadeiro sacramento de Deus, um símbolo do seu amor concreto por nós, uma revelação natural. E é pena, porque esse é o sentido da narrativa bíblica da criação; este é o sentido do primeiro capítulo de João, em especial dos seus quatro primeiros versículos: no princípio, está o significado, o verbo, o sentido, que é Deus e está com Deus, e foi nele que todas as coisas foram feitas. Contemplar, conhecer, pois, vai muito além de pensar: trata-se de buscar a Palavra nas coisas. Encontrar, pois, o Filho na obra do Pai. Pelo Espírito Santo. Qualquer conhecimento, por mais prosaico e trivial, de qualquer criatura, deveria nos conduzir a Deus. E é disto que vamos tratar nestas próximas questões.

Tomás nos explica que, nas próximas questões, tratará justamente da nossa alma intelectual, em suas potências intelectiva e volitiva. As potências da alma sensitiva, diz ele, receberão um tratamento mais adequado quando estivermos estudando as questões atinentes à ética, na segunda seção desta primeira parte da Suma. De fato, veremos, ali, que o ser humano se desenvolve pela aquisição das virtudes morais, que são, exatamente, aquelas que nos permitem uma relação adequada com os apetites sensuais. Aqui, nestas próximas questões, trataremos do intelecto e da vontade.

É preciso, ainda, tratar de outra coisa antes de começar: além de termos perdido a noção do que é conhecer e contemplar um mundo que existe com um significado simbólico fora de nós, e que nos conduz ao amor de Deus, também perdemos a noção de que o nosso intelecto, ao conhecer sistematicamente, adquire virtudes intelectuais. A ciência não é o acúmulo de conhecimentos em livros ou em sítios da internet, mas o aperfeiçoamento de algum intelecto. Assim também a sabedoria. Nosso intelecto nasce como uma página em branco e, na medida que aprende, vai se tornando intelectualmente virtuoso, por adquirir as virtudes da ciência e da sabedoria. Não é à toa que os grandes países recrutam as pessoas mais inteligentes dos países pobres: eles sabem que o conhecimento acumulado fora dos cérebros não vale nada, apenas aquele conhecimento que é virtude intelectual tem real valor. Bibliotecas não significam nada se não há sábios para estudá-las, enriquecê-las e vivê-las.

Portanto, trata-se de estudar não somente nossa potência intelectual, ou seja (para usar uma linguagem atual) o nosso hardware; estudaremos também o nosso software, ou seja, o modo pelo qual efetivamente adquirimos as virtudes intelectuais da ciência e da sabedoria, quanto ao mundo natural, quanto a nós mesmos, quanto às realidades espirituais e quanto a Deus. Assim, conheceremos nossos atos intelectivos e nosso hábitos intelectivos, ou virtudes intelectuais, que é como Tomás chama a ciência e a sabedoria.

Assim, estudaremos, nesta e nas próximas questões, o modo pelo qual nosso intelecto funciona; como podemos conhecer, nesta vida, as coisas corporais com as quais nos deparamos, mas também como podemos conhecer a nós mesmos (já que somos também espirituais) e como podemos chegar a conhecer as realidades espirituais, como os anjos e, enfim, o próprio Deus.

Agora, na questão 84, trata-se de debater o modo pelo qual conhecemos o mundo corpóreo no qual estamos inseridos. Serão oito artigos. Vamos a eles.