Teremos, esta semana, o feriado civil de Corpus Christi. Trata-se de uma solenidade originada no século XIII, na Bélgica, para celebrar a corporeidade; era uma época em que a tendência aos espiritualismos, a identificar o “eu” com o pensamento, era tão aguda quanto hoje. Mas o que significa “Corpus Christi”?
Dizem que os antigos exércitos, antes de uma guerra, escolhiam um guerreiro seu, o mais poderoso, para lutar contra o guerreiro mais poderoso do exército adversário; aquele exército cujo guerreiro saísse vitorioso era considerado o ganhador da guerra, poupando a vida de seus próprios soldados e dos soldados adversários. Esta cena está retratada tanto na Ilíada quanto na Bíblia, no episódio de Davi e Golias.
Para esta luta paradigmática, os guerreiros costumavam untar os próprios corpos com azeite, de tal modo a tornar-se mais difícil de agarrar, na luta, para o adversário. E aí está o significado do nosso feriado: CORPUS CHRISTI, corpo ungido, em latim, como derivado de Christós, ungido, em grego.
De fato, se o guerreiro ganhava aquela luta, ele, o soldado ungido, não somente havia salvado a vida de seu exército (e dos demais soldados do adversário) como havia se mostrado como o mais poderoso. O que restava senão ser rei? Eis porque houve a associação da unção com azeite com o reinado: o ungido é rei. O corpo do rei é ungido porque ele lutará por nós, será poderoso para nos salvar do inimigo.
Neste ponto, o feriado nos traz uma grande reflexão sobre o corpo: somos corporais. Não há uma “relação real” de propriedade entre nós e nosso corpo, mas apenas uma “relação de razão”. Ninguém poderia, em sã consciência, dizer “este corpo é meu”, querendo significar duas realidades diversas, um “eu” e um “corpo”. Na verdade, teríamos que dizer: “este corpo sou eu”. Nossa relação com o corpo é uma relação de identidade, não de propriedade.
Como ensinam os lógicos, quando eu construo uma proposição do tipo “esta flor é vermelha”, não há, aí, duas coisas separadas, uma flor de um lado e uma vermelhidão do outro. Há apenas uma flor que é vermelha, são a mesma realidade, que a nossa linguagem é capaz de separar apenas em pensamento, para fins de análise. Isto é uma relação de razão. Muito diferente, em natureza, das relações reais.
Passa-se o mesmo com o corpo humano. Não há um “eu” para fora ou para além do corpo. Eu sou meu corpo, meu corpo sou eu, há identidade aí, para além de quaisquer “espiritualismos” religiosos que imaginem que nossa identidade é algo “angelical”, “desencarnado”, “transcendental” com relação ao corpo. Sejamos mais materialistas: não há, a rigor, um “eu” sem corpo, não há uma pessoa fora do corpo, mesmo quando a própria meditação antropológica nos mostre que a pessoa não se esgota no corpo.
Não se esgota no corpo. Mas não existe fora ou além dele; sem o corpo, qualquer relação humana, histórica, é impossível: um ser humano não poderia se relacionar humanamente com outro ser humano sem o corpo.
Ora, uma vez que é próprio da norma jurídica ser uma regulamentação de alteridade, ninguém pode regrar a si mesmo: a proposição “meu corpo, minhas regras” simplesmente não faz sentido lógico-jurídico, porque o meu corpo não é “outro” com relação a mim. Não há direito de alguém para si mesmo. Eu, em minha corporeidade, e tu, em tua corporeidade, nossas regras comuns, nas quais concordamos e consentimos, e nos abrimos para os “vós e eles” que também estão na esfera das nossas relações. Fora disso, não há democracia, mas autoritarismo.
Qualquer sobrevivência humana sem o corpo (e a filosofia clássica nos faz pensar que uma sobrevivência deste tipo não se pode descartar sem mais) é, em princípio, uma sobrevivência fragmentária, não-histórica, não relacional. Sem corpo, a sobrevivência não seria necessariamente uma bênção em si mesma. Por isto, mesmo a eternidade em Deus, para ser paradisíaca, deveria pressupor um corpo; e isto também nos é lembrado por este feriado. Mas já é teologia, não nos aprofundemos nisto agora, porque o debate seria muito longo.
Mas o corpo humano vivo, sendo material num universo material, não é um corpo qualquer; a democracia e a liberdade nos convidam a que sejamos todos ungidos. Corpos ungidos, pessoas regentes!
Cada um de nós é rei, porque é chamado a ser ungido; isto significa que a nossa vida, visível e pública em nosso corpo, existe em primeiro lugar para o outro, para oferecermo-nos em sacrifício, em dom livre para o bem de todos. Ser rei é ser dom, é ser corpo ungido; este é o analogante, do qual somos todos convidados a ser analogados. Porque o corpo, sendo a minha própria identidade, é, a um só tempo, um dom (porque não posso dar a mim mesmo a existência, mas recebo-me já existindo, e existindo sob certo modo) e uma tarefa: o corpo ungido é o sinal do meu ser-para-o-outro, do meu precisar do outro, com todos os riscos que isto implica. Que possamos celebrar tudo isto neste dia de descanso.
Paz e bem e bom feriado!
16 de junho de 2022 at 22:47
E tudo isto com uma liturgia preparada pelo nosso Dr. Angélico!
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17 de junho de 2022 at 14:13
Viva Santo Tomás!
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