1. De volta ao assunto.
A experiência, relatada tanto na Bíblia quanto na filosofia, de ruptura entre os apetites humanos, parece confirmar a intuição de que há mais de uma potência apetitiva em nossa alma. É hora, agora, de examinar as respostas de Tomás sobre o assunto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
É necessário admitir que existe mais de uma potência apetitiva em nós; temos uma potência apetitiva ligada às nossas potências sensoriais, diferente da potência apetitiva ligada ao nosso intelecto. Temos nossos apetites sensuais, ao lado da nossa vontade intelectual.
Aqui, Tomás vai nos dar uma explicação profundamente filosófica, usando os conceitos de motor e movido. Sabemos que “motor” é ativo, é aquilo que é capaz de gerar movimento em outra coisa, e “movido” é passivo, é aquilo que responde ao motor, ou seja, que recebe o estímulo e passa a se mover. É preciso, aqui, lembrar que o “motor” não é só causa eficiente, mas eventualmente pode ser uma causa final. A isca no anzol pode ser o “motor” do peixe, que o faz mover até o anzol; é uma causa final. Mas também suas nadadeiras são “motor”, mas em outro sentido; é uma causa eficiente do deslocamento. A diferença, aqui, é que a isca no anzol é um “motor imóvel”, porque ela move o peixe, mas não se move. Mas a nadadeira é um “motor móvel”, porque move o peixe e se move junto.
Ora, o apetite é sempre movido, ou seja, é uma potência passiva. E o motor, isto é, aquilo que move o apetite, é sempre a respectiva potência apreensiva. Assim, os sentidos apreendem as características de um alimento saboroso, e movem o apetite para desejar aquele alimento. Lembrando das características de motor e movido, podemos dizer que os nossos sentidos, apreendendo o alimento, são um motor imóvel do apetite. O apetite se move para o alimento por causa dos sentidos, mas os sentidos mesmos não se movem, com este movimento.
Ora, o apetite, sendo passivo, é movido. Mas ele, por seu turno, move o sujeito fisicamente para alcançar aquilo que apetece. Portanto, a potência apetitiva é um motor movido.
Ora, prossegue Tomás, cada movido tem relação com o seu motor. Ou seja, há uma relação entre motor e movido que muda conforme mudam os seus elementos. O que atrai um peixe certamente não atrai um homem, e assim por diante.
Portanto, uma vez que o modo de conhecer dos sentidos, que são as potências apreensivas sensoriais, volta-se para o que é acidental, particular, concreto, histórico e local, isto significa que as coisas conhecidas pelos sentidos são capazes de mover um apetite também acidental, particular, concreto, histórico e local.
Mas há, em nós, um outro modo de conhecer, que é universal, abstrato, atemporal, substancial, e que está relacionado com nosso intelecto e sua potência apreensiva intelectual. Este conhecimento move um apetite que se relaciona com o bem sob a razão de universal, abstrato, atemporal, substancial, e portanto é um apetite diferente do apetite sensorial. É por este apetite que podemos querer o bem do outro, querer a amizade de Deus e conviver politicamente com uma comunidade.
Portanto, temos, em nós, duas potências apetitivas: a potência apetitiva sensorial, ou sensual, relacionada com a apreensão sensorial, e a potência apetitiva intelectiva, ou vontade propriamente dita, relacionada com a apreensão intelectual.
3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que as potências não se diversificam pelas diferenças acidentais no objeto. Assim, o fato de que esta cor é branca e aquela é azul não diversifica a potência da visão numa “potência de ver coisas brancas” e outra “potência de ver coisas azuis”; há apenas uma potência que vê cores.
Assim, diz o argumento, o fato de que aquilo que desejamos pode ser conhecido por nós através dos sentidos ou do intelecto é apenas acidental: trata-se da mesma coisa, conhecida por nós acidentalmente por dois meios diferentes, por acidente. Portanto, a nossa capacidade de desejar não se multiplica pelo fato acidental de que podemos desejar algo conhecido sensorialmente ou algo conhecido intelectualmente, conclui o argumento, afirmando que temos apenas uma potência apetitiva para desejar aquilo que é apreendido sensorialmente ou intelectualmente.
A resposta de Tomás.
É preciso não confundir as coisas que nós conhecemos sensorialmente ou intelectualmente com o objeto do conhecimento sensorial e intelectual. Não é por acidente que as coisas são conhecidas por nós de modo diferente, conforme as conhecemos pelo intelecto ou pelos sentidos. Pelo intelecto, elas são conhecidas sob a razão do bem universal, isto é, de modo imaterial, não histórico, conceitual, e sob esta razão ela não pode atrair nossos instintos sensuais. Por outro lado, o conhecimento sensorial é concreto, histórico, individual, e sob a razão de bem particular. Sob esta razão, ela não pode ser um objeto adequado para a vontade, que sempre pondera o bem particular (que nos atrai) com a razão mais ampla de bem que o intelecto é capaz de conhecer. Portanto, a razão de bem que os modos de conhecer (sensorial e intelectual) alcançam não são apenas acidentalmente diferentes; existe uma diferença essencial entre os dois objetos de conhecimento. Portanto, essa diferença nos objetos determina também uma diferença nas potências apetitivas: existe uma potência apetitiva para o conhecimento sensorial, outra para o conhecimento intelectual.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor admite que há, de fato, uma diferença no objeto de conhecimento sensorial, com relação ao objeto de conhecimento intelectual. Aquele se dirige ao particular, concreto, e este ao abstrato e universal, afirma o argumento.
Ocorre que o nosso apetite se dirige sempre a uma coisa individual, certa, concreta; não há apetite que se dirija àquilo que é abstrato e universal. Portanto, aquela diferença entre objetos de conhecimento não se aplica aos objetos de desejo, em nós.
Assim, há apenas uma potência apetitiva em nós, conclui o argumento.
A resposta de Tomás
Sempre que desejamos coisas, nosso apetite se dirige a coisas em sua concretude individual e determinada. Mas a verdade é que não desejamos somente coisas: também podemos desejar coisas imateriais, como o conhecimento, as virtudes ou o amor de Deus. Além disso, podemos desenvolver um ódio universal, por exemplo, aos políticos corruptos ou ao crime organizado. Portanto, é falso dizer que sempre desejamos coisas concretas; logo, há, em nós, mais de uma potência apetitiva, conforme o objeto a que nos inclinamos.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que há duas ordens de potências que são dependentes das potências apreensivas: a potência apetitiva e a potência motora. Quer dizer, sou capaz de conhecer, e, por causa disto, sou capaz de desejar e sou capaz de me mover até o objeto de desejo. Portanto, o desejar e o mover-se são igualmente subordinadas ao apreender.
Ora, há, em nós humanos, como em todos os animais, apenas uma potência motora, subordinada às potências apreensivas sensoriais e intelectuais. Portanto, não há sentido para que também não haja apenas uma potência apetitiva subordinada às potências apreensivas humanas.
A resposta de Tomás.
A questão da capacidade (ou potência) motora humana é explicada no livro III da obra Sobre a Alma, de Aristóteles. Ali, o Filósofo explica que nós não nos movemos (fisicamente, ou seja, não acionamos a nossa movimentação corporal) em razão de algum conhecimento ou opinião intelectual abstrata, universal; mas que uma opinião deste tipo precisa desencadear algum conhecimento ou opinião particular, para ter a capacidade de nos mover corporalmente. Por exemplo, não é o conhecimento de que os alimentos são nutritivos que faz mover a nossa mão em busca de um alimento, quando estamos com fome. É preciso que cheguemos à noção particular de que este biscoito aqui é um alimento, e é nutritivo e capaz de saciar a minha fome, para que eu venha a mover minha mão em direção ao biscoito e possa comê-lo.
Portanto, se o conhecimento universal não pode nos mover corporalmente senão mediante o conhecimento concreto, não há razão para admitir duas potências motoras diferentes, uma específica para a inteligência e outra para o conhecimento sensorial.
Mas no caso das potências apetitivas, como já vimos, fica claro que o conhecimento intelectual gera uma resposta de desejo que é objetivamente diferente da resposta gerada pelo conhecimento intelectual. Pode-se, então, falar de duas potências apetitivas diferentes, neste caso.
4. Conclusão.
Enriquecidos por estas lições preliminares sobre as potências apetitivas, sua existência e sua distinção, estudaremos, na próxima questão, as potências apetitivas sensoriais, ou a “sensualidade” no sentido que Tomás usava, relacionado às inclinações sensoriais como um todo (bem diferente do contemporâneo, que é abertamente sexual, e portanto bastante empobrecido). O sentido sexual é apenas uma das dimensões do sensual, e certamente não se pode chegar a ser alguém virtuoso sem aceitar os estímulos sensuais como parte inseparável do ser humano, desde que devidamente integrados à inteligência.
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