1. Introdução.

O ser humano experimenta, em si, a fragmentação de suas inclinações, e isto está muito bem retratado na Carta aos Romanos, 7, 15: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto”. Esta observação paulina encontra reflexo no pensamento aristotélico, que define como virtuoso um ser humano que consegue submeter à inteligência seus impulsos, anotando, no Livro 1 da Ética a Nicômaco, o seguinte: “Parece haver na alma ainda outro elemento irracional, mas que, em certo sentido, participa da razão. Com efeito, louvamos o princípio racional do homem continente e do incontinente, assim como a parte de sua alma que possui tal princípio, porquanto ela os impele na direção certa e para os melhores objetivos; mas, ao mesmo tempo, encontra-se neles um outro elemento naturalmente oposto ao princípio racional, lutando contra este e lhe oferecendo resistência”.

Tudo isto parece indicar que há, de fato, mais de uma potência humana de inclinação, e que elas não necessariamente estão de acordo entre si. Tanto São Paulo quanto Aristóteles testemunham este fato. Mas estamos indo depressa demais; o objetivo, aqui, é exatamente verificar, no debate, este aspecto da alma humana. Vamos a ele.

2. A hipótese controvertida.

Por outro lado, experimentamos, no ser humano, uma certa unidade no ser: aquilo para o que tendemos, tendemos com nosso ser inteiro. É por isto que a hipótese controvertida, para provocar o debate, propõe que há apenas uma potência apetitiva em nós. A hipótese controvertida propõe que, aparentemente, o apetite sensorial e o apetite intelectivo, vale dizer, as inclinações que decorrem das capacidades apreensivas humanas, não são duas potências diversas, mas fundem-se numa só potência. Há três argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que as potências ou capacidades humanas se caracterizam pelos respectivos objetos; mas apenas se diversificam pela diferença substancial entre os objetos, não por diferenças acidentais entre eles. Assim, o fato de algo ser grande ou pequeno, ser colorido ou branco, não muda o fato de que seu aspecto, revelado pelas suas cores que atingem os olhos como frequências luminosas diferentes, são todas objeto da visão. A diferença acidental entre cores, entre luminosidade ou mesmo de aspecto das coisas vistas não diferenciam a potência da visão. Mas o som, que é essencialmente diferente da luz, determina a existência de uma potência humana diversa da visão, que é a audição. É neste sentido que o argumento diz que as diferenças acidentais no objeto não diversificam as potências.

Ora, prossegue o argumento, aquilo que atrai nossas inclinações é a mesma coisa, que pode vir a ser conhecida por nossos sentidos ou por nosso intelecto. A maçã, por exemplo, nos atrai por seu aspecto, por sua cor, por seu aroma, por sua textura, mas também nos atrai por sabermos, intelectualmente, que ela é um alimento nutritivo e saudável. A diferença no modo pelo qual conhecemos a maçã, sensorialmente ou intelectualmente, é apenas uma diferença acidental no objeto, diz o argumento.

Ora, se a maneira que conhecemos (sensorialmente ou intelectualmente) causa apenas uma diferença acidental no objeto, e as diferenças acidentais não diversificam as potências, temos que reconhecer, portanto, que a nossa potência apetitiva, na nossa alma, não se distingue pelo objeto, com relação às coisas conhecidas sensorialmente ou intelectualmente. Assim, o apetite sensorial e a vontade (que é o apetite intelectivo) não são potências diversas em nós, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento inicia logo estabelecendo a diferença entre o conhecimento sensorial e o conhecimento intelectual.

Pelo conhecimento sensorial, que compartilhamos com os outros animais, conhecemos apenas os singulares. O animal conhece o meu cheiro, o meu aspecto, as minhas características, mas não conhece a noção de ser humano. Pelo conhecimento sensorial, eu conheço isto aqui, não as categorias lógicas como a espécie, o gênero e o universal.

Por outro lado, o conhecimento intelectual é abstrato. Eu não conheço intelectualmente esta maçã, seu cheiro, seu sabor, mas conheço as maçãs de modo abstrato, universal, sua espécie e gênero. Um cientista pode passar a vida inteira estudando intelectualmente as maçãs, sem nunca chegar a provar sensorialmente alguma maçã (e portanto sem saber qual o seu sabor concreto).

Ora, prossegue o argumento, nós nunca desejamos uma maçã abstrata. Nosso querer sempre se dirige a uma coisa em sua concretude individual. Portanto, o objeto de nosso apetite pessoal é sempre o mesmo: alguma coisa concreta. Portanto, embora tenhamos dois modos de conhecer, que se constituem em duas potências diferentes, há apenas uma potência apetitiva em nós, aquela que nos atrai para coisas concretas, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Há, em nós, a capacidade de aprender, a capacidade de desejar e a capacidade de nos mover até a coisa desejada.

O argumento lembra que a capacidade de desejar, ou seja, a potência apetitiva, é subordinada à capacidade de conhecer, ou seja, à potência apreensiva. Mas a capacidade de mover fisicamente o sujeito, ou seja, a potência motora, também é uma capacidade subordinada às potências de conhecimento.

Há, em nós, uma, e apenas uma capacidade motora, subordinada às potências apreensivas (sensorial e intelectual). Assim, pela mesma razão, deve haver apenas uma potência apetitiva, ligada a estas duas potências apreensivas, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra recorre à autoridade de Aristóteles para afirmar que há duas potências apetitivas diferentes, uma relacionada ao conhecimento sensorial, outra ao conhecimento intelectual. De fato, no Livro III da obra sobre a Alma, Aristóteles distingue estes dois apetites, afirmando expressamente que são dois. Assim, conclui o argumento, há dois apetites no ser humano, que se constituem em duas potências diferentes.

5. Encerrando.

No próximo texto, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás e as respostas específicas que ele oferece aos argumentos objetores iniciais.