1. Retomando.
Vimos, então, que a razão não é outra coisa do que a inteligência humana a caminho, em seu processo de descobrir a verdade, quer por encontrá-la (invenção), quer por ser instruído nela (inquisição). Neste sentido, os anjos não raciocinam, porque já sabem. Apenas os seres humanos raciocinam. Mas isto não determina que a razão seja algo diferente que a própria inteligência: algo não se torna diferente apenas por ser estático ou dinâmico; tanto na razão humana, como na inteligência angelical, o ato é constituído pelo conhecimento possuído. Assim, somos inteligentes por raciocínio, mas os anjos são simplesmente inteligentes.
Tendo assentado isto, vamos examinar a maneira pela qual Tomás enfrenta as objeções iniciais, porque suas respostas sempre nos enriquecem muito.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita a obra “Do Espírito e da Alma” para afirmar que o conhecimento humano passa por quatro etapas ou “degraus”: os sentidos, a imaginação, a razão e o intelecto. Assim, o argumento conclui que estas quatro etapas correspondem a quatro potências humanas diferentes.
A resposta de Tomás.
Tomás vai responder simplesmente que esta enumeração descreve um processo de aquisição de conhecimento, e não quer determinar que isto corresponda a quatro capacidades humanas diferentes. São apenas quatro momentos de uma caminhada. Ademais, diz Tomás, esta obra, da qual o argumento retira esta citação, não é uma grande autoridade na matéria, ou seja, não é muito precisa ou confiável em sua doutrina, e traz muitas afirmações que não são exatas. Não é um livro de qualidade.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento cita Boécio, grande autoridade até hoje em assuntos filosóficos. Na sua obra “Consolação da Filosofia”, Boécio faz uma analogia: o intelecto está para a razão como a eternidade está para o tempo. Disto, o argumento tira a noção de que, do mesmo modo que a eternidade é diferente do tempo, a razão também é diferente do intelecto; logo, trata-se de duas potências diferentes, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A eternidade está para o tempo como o repouso está para o caminhar, diz Tomás. Não são duas realidades diferentes, mas dois aspectos da mesma realidade: o tempo é a dinâmica de quem está a caminho; a eternidade é o repouso de quem alcançou. Assim, a analogia de Boécio é verdadeira, mas a conclusão do argumento não é.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor afirma que os sentidos nos igualam aos animais, mas a razão nos identifica como seres humanos; somos animais racionais. Logo, a razão, que é específica, é diversa dos sentidos, que são genéricos.
Por outro lado, a inteligência nos iguala aos anjos, mas a razão é própria dos seres humanos. Assim, prossegue o argumento, a inteligência é algo que temos em comum, é genérica, entre nós e os anjos; mas a razão é específica dos seres humanos, porque os anjos não são dotados dela. E disto o argumento conclui que a razão é uma faculdade diferente da inteligência.
A resposta de Tomás.
Nós compartilhamos com os outros animais a nossa capacidade sensorial. Mas a capacidade sensorial difere essencialmente da capacidade intelectual, que nós possuímos, mas não os outros animais. De fato, as capacidades sensoriais não permitem atingir a verdade, em sua plenitude universal e abstrata. As capacidades sensoriais apenas fornecem dados concretos, históricos, localizados, limitados à necessidade momentânea. Assim, a capacidade intelectual humana é essencialmente diferente da capacidade sensorial que compartilhamos com os outros animais.
Mas não assim com os anjos. Nós somos capazes de atingir a verdade, intelectualmente, assim como os anjos. A diferença é que a nossa capacidade de atingir a verdade, ou seja, a razão humana, é lenta, processual, imperfeita, demanda esforço, tempo, aprendizagem, e resulta num conhecimento fragmentário, sempre incompleto. Os anjos atingem-na facilmente, completamente, de modo não processual, sem esforço, sem aprendizagem; mas o fato de que nosso intelecto é racional, incompleto, perfectível, fragmentário, não faz com que ele seja essencialmente diferente do intelecto dos anjos. Ele não é diferente. A relação entre o intelecto humano e o intelecto angelical é a relação entre algo de igual natureza, mas que se compara como o imperfeito ao perfeito.
3. Concluindo.
Assim, descobrimos que temos um intelecto raciocinante, ou uma razão intelectual; isto não significa que nossa razão seja outra coisa, senão nossa inteligência a caminho.
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