1. Introdução.
Nós chegamos ao conhecimento raciocinando. É assim que aprendemos. Investigamos, deduzimos, concluímos, passamos do estado de não saber ao estado de saber. E somos a única inteligência que funciona assim: somos a única inteligência que aprende. Deus é inteligência; nele, todo conhecimento se origina, sem ser originado. Os anjos são criados já com toda a informação de que precisam; eles não aprendem, mas simplesmente conhecem e percebem. Mas nós, humanos, somos criados com a inteligência em branco, e a razão é o instrumento pelo qual a preenchemos de conhecimento. Mas o que é a razão? O que é esta capacidade de aprender, de organizar dados, de deduzir, de passar do que se sabe ao que não se sabe? É uma capacidade própria, diversa da inteligência, ou seria ela o próprio modo de funcionamento da inteligência humana? É este o debate que travaremos agora.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida propõe que a razão não é a própria inteligência humana em sua dinâmica de aprender; a razão, diz a hipótese, é uma faculdade diferente do intelecto. Nós teríamos, então, em nossa alma intelectiva, uma potência que sabe, que é a inteligência, e uma potência que raciocina, que seria a razão. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor resgata um livro que circulava muito na época da Suma Teológica, mas pelo qual Tomás não tinha grandes simpatias. O nome do livro é “Do Espírito e da Alma”.
Segundo esta obra, o percurso do conhecimento, desde as primeiras experiências até a plenitude de conhecer, é como subir uma escada: recebemos as informações pelos sentidos, então as reunimos pela imaginação, processamo-las pela razão e, por fim, aperfeiçoamos com elas nosso intelecto. Assim, haveria quatro degraus nesta escada, diz o argumento, formados por quatro potências distintas da alma humana; portanto, a razão é uma potência diferente da inteligência, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor recorre, agora, à autoridade do próprio Boécio, que era grande neste tempo. Na obra “Consolação da Filosofia”, Boécio diz que “o intelecto está para a eternidade como a razão está para o tempo”. Mas a eternidade não está em linha com o tempo, são duas dimensões diferentes. Portanto, se a relação entre a razão e o intelecto, no ser humano, é análoga à relação entre o tempo e a eternidade, então a razão e o intelecto são duas potências ou capacidades diversas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O ser humano tem, em comum com os animais, as capacidades sensoriais. As capacidades ou potências sensoriais, portanto, não são aquilo que torna o ser humano um animal especial, diferente dos outros animais. É a razão, que o ser humano tem e os animais não têm, que faz do ser humano uma espécie diferente de animal – um animal racional. Logo, a razão é uma potência diferente dos sentidos, deduz o argumento.
O ser humano tem, com os anjos, a capacidade intelectual. Os anjos e o ser humano têm intelecto; os anjos, aliás, caracterizam-se por serem entes espirituais intelectuais. Mas os anjos não têm a razão, ou seja, anjos não aprendem por discurso investigativo. Logo, se é a razão que difere os seres humanos dos anjos, então, de modo análogo à relação entre a razão e os sentidos no caso dos outros animais, também aqui a razão tem que ser uma potência diversa do intelecto, já que o intelecto nos equipara aos anjos, mas a razão nos diferencia, conclui o argumento.
O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita Santo Agostinho, que, na obra sobre o Gênesis, diz expressamente que “aquilo que torna o ser humano mais excelente do que os animais irracionais é a mente, inteligência ou razão, ou qualquer outro termo pelo qual se chame esta faculdade”. Ora, com isto, parece claro que estes termos são sinônimos, referindo-se à mesma faculdade. Assim, a razão e a própria inteligência, em seu dinamismo de aprendizagem, conclui o argumento.
3. A resposta sintetizadora de Tomás.
Que a inteligência e a razão, no ser humano, sejam exatamente a mesma faculdade, não é difícil de se perceber, diz Tomás. E a maneira de fazê-lo é examinar os seus respectivos atos, ou seja, vê-los naquilo que os constitui como faculdades operantes, em sua perfeição. O ato identifica a potência; somente sabendo o que é uma galinha em ato ou um pato em ato é que sabemos que este ovo é um ovo de galinha e aquele é um ovo de pata. A potência que caracteriza o ovo somente se identifica pelo ato que é o respectivo animal. De modo análogo, a identificação das potências humanas se dá pelo exame dos respectivos atos. Se os atos são diferentes entre si, também serão diversas as respectivas potências.
Qual é o ato da inteligência? É possuir o conhecimento, ou seja, deter em si a verdade inteligível. E qual seria o ato da razão? Caminhar, passar de um conhecimento a outro, de modo a alcançar, ao final do processo, a posse do conhecimento, vale dizer, chegar a deter em si a verdade inteligível.
Os anjos, que são seres espirituais dotados de inteligência, não precisam deste processo de raciocínio. Eles possuem em si, em razão de sua criação mesma, todo o conhecimento natural de que precisam. Assim, eles possuem o conhecimento, detêm em si a verdade inteligível sobre todas as coisas, sem depender de nenhum processo de aquisição de conhecimento. Seu conhecimento da verdade, portanto, não envolve uma linguagem discursiva: eles não precisam construir enunciados, produzir raciocínios, usar a indução ou a dedução, para inteligir. Anjos não precisam da lógica. Eles simplesmente sabem, porque conhecem, natural e intuitivamente, a verdade das coisas. A inteligência dos anjos não é raciocinante, mas intuitiva.
Com os seres humanos não é assim. Nosso conhecimento depende da lógica. Precisamos pesquisar, comparar, deduzir, investigar, passar de uma coisa conhecida para outra obscura, verbalizar, analisar, ou seja, precisamos de um processo de investigação que podemos chamar simplesmente de raciocínio. É por isto que a nossa inteligência é racional; ela não detém, de modo natural e prévio, nenhum conhecimento, ou seja, ela não é uma inteligência que intelige subitamente, estaticamente, num ato intuitivo completo. Assim, o raciocinar está para o inteligir como o caminhar está para o chegar, como se mover está para o alcançar, como adquirir está para o ter. É um processo, no qual se parte do imperfeito para chegar no perfeito; e, como todo movimento, ele sai da imobilidade que existe na ignorância inicial, passa pelo caminho da investigação raciocinante e chega na meta do conhecimento da verdade, na qual repousa. O estado inicial de ignorância, a razão encontra os primeiros princípios da inteligência, dos quais parte para o exame da realidade; a partir deles, forma seus juízos e raciocínios sobre as realidades que encontra e, finalmente, forma em si o hábito da ciência, pelo qual retém a verdade inteligível que alcançou raciocinando. Chegando à verdade, a razão pode novamente submetê-la aos primeiros princípios, para prová-la e certificar-se dela. É um ciclo de conhecimento, que parte do repouso da ignorância e chega ao repouso da contemplação da verdade.
Tomás tem dois nomes para esta caminhada: a “inventio” ou invenção, que chamaríamos de “descoberta”, ou a “inquisitio” ou inquisição, que chamaríamos de “pesquisa”. Pela invenção, chegamos nós mesmos à verdade. Pela inquisição, recebemo-la de algum mestre ou professor, na forma de ensinamento ou treinamento.
Assim, o fato de que os anjos podem inteligir de modo estático e não discursivo, enquanto nós precisamos do percurso racional para chegar no mesmo lugar, não faz da razão uma potência diferente da inteligência. Não há diferença numa capacidade qualquer pelo simples fato de que ela se apresenta de modo estático ou dinâmico: aquilo que anda e aquilo que repousa são a mesma coisa, se estão referidos ao mesmo ato. E o ato da razão é o mesmo ato da inteligência: repousar na verdade inteligível. Assim, a razão e a inteligência não são duas faculdades diferentes, mas são a mesma faculdade, vistas de modo estático ou dinâmico.
4. Encerrando.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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