Será que esta memória intelectual é algo diferente do nosso intelecto mesmo? Primeira parte, questão 79, artigo 7, parte 3 de 3.

1. Voltando ao assunto.

Uma grande aprendizagem num tema tão difícil. É assim que podemos descrever a resposta de Tomás, que estudamos no último texto. O conhecimento intelectual que adquirimos faz com que nossa alma se torne, de certo modo, a própria coisa conhecida, que passa a existir em nossa mente espiritualmente, como existe materialmente no mundo. É esta a memória espiritual, este hábito de saber que adquirimos pela aprendizagem.

Estudaremos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor recorre a Santo Agostinho, que, na obra sobre a Trindade, afirma que o intelecto humano é formado de inteligência, vontade e memória. Ora, vê-se claramente que a memória tem um objeto diferente do objeto da vontade; assim também com a inteligência. Por isto, o argumento conclui que nossa alma intelectiva tem três faculdades ou potências diversas, a saber: a inteligência, a vontade e a memória. Portanto, a memória intelectiva é uma potência diversa do intelecto, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há como negar que Santo Agostinho tenha mencionado estas três operações do intelecto, chamando-as de três potências. Mas ele não quis dizer que temos três potências diferentes para estas três operações. Em outra passagem da mesma obra (“Sobre a Trindade”), fica claro que ele não fala em Três potências diferentes, mas em operações da alma que não se constituem, propriamente, em potências. De fato, ele diz que estas três características do nosso intelecto, que são a lembrança, a inteligência e o querer, elas permanecem em nós, e neste sentido são memória. Mas esta permanência não é uma faculdade separada: a alma intelectiva tem a inteligência, pela qual ela pensa e aprende, e a vontade, pela qual ela ama, como um pai ama aos filhos e vice-versa. Ora, tudo isto permanece na alma, ou seja, a alma intelectiva é capaz de reter em si aquilo que conhece e aquilo que ama. É neste sentido que Santo Agostinho diz que “aquilo que está sempre presente à alma parece pertencer à memória”, para significar que a alma pode reter em si aquilo que aprende e quer; Santo Agostinho não ensina, pois, que haveria uma memória intelectiva diversa da inteligência mesma.

O segundo argumento objetor.

Nossa alma, como já estudamos, tem uma parte vegetativa, uma parte sensorial e uma parte intelectiva, como já havíamos estudado, diz o argumento. Mas, quanto ao processo de conhecimento sensorial e de conhecimento intelectual, há similitude entre eles.

Ora, na alma sensorial, ou seja, naquela parte da alma que abriga as potências de natureza sensitiva, existe uma memória, capaz de reter e guardar os dados sensoriais recebidos pelos sentidos, e ela é uma faculdade diferente das outras, especialmente dos próprios sentidos. Assim, prossegue o argumento, por analogia, também na parte intelectiva da alma existiria uma memória intelectiva que é uma faculdade diferente do próprio intelecto, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Quanto à memória sensorial, que armazena os dados empíricos que são obtidos pelos nossos sentidos, ela envolve dados concretos, situados no tempo e no espaço; é da natureza mesma da concretude dos dados sensoriais que eles estejam situados no tempo e no espaço. Assim, a memória sensorial tem por objeto, essencialmente, a retenção de impressões, informações e conhecimentos que estão no passado e que já não estão em nossa presença, ao tempo em que os sentidos tratam somente de objetos que estão presentes e nos interpelam agora mesmo. Portanto, na parte sensorial da nossa alma, a memória sensorial tem um objeto próprio, que faz dela uma faculdade à parte, diversa das outras faculdades sensoriais.

Mas não é assim com a chamada “memória intelectiva”. Ela lida com formas, ideias ou species que são universais e abstratas, e que, portanto, não estão localizadas espacialmente, nem temporalmente. A noção de triângulo, por exemplo, não diz respeito a um triângulo que eu vi no passado, mas abrange todos os triângulos, em todos os tempos e lugares. É certo que, em algum momento, eu aprendi intelectualmente o que é um triângulo, e, neste sentido, a minha alma intelectiva sabe que este é um conhecimento adquirido no passado, numa escolinha em algum lugar no qual eu morava quando era criança. Mas nada disto constitui esta ideia, são apenas acidentes relacionados com ela. O fato de que a noção de triângulo está inscrita em mim não é algo localizado no tempo e espaço: é um conhecimento intelectual retido, habitual, que pode se tornar atual sempre que eu quiser. Assim, esta faculdade de reter o conhecimento intelectual,na alma, não tem um objeto diferente da própria capacidade de conhecer, e portanto não se constitui numa faculdade separada: é o próprio intelecto que, aprendendo, retém o conhecimento.

O terceiro argumento objetor.

Mais uma vez, trata-se, aqui, de citar a obra de Santo Agostinho sobre a Trindade, na qual ele trata muito sobre a memória, a inteligência e a vontade. Ali, Agostinho diz que estes três aspectos são “iguais entre si”, e originam-se um do outro. Ora, se a memória intelectual fosse o próprio intelecto, as coisas não poderiam ser tais como Santo Agostinho as descreve; logo, conclui o argumento, a memória é uma potência diversa do intelecto, na alma espiritual.

A resposta de Tomás.

Nossa inteligência se origina da capacidade que ela tem de reter o conhecimento, de modo habitual, mesmo quando não estamos pensando nele. Ora, o pensamento, ou seja, o uso atual do conhecimento, como atividade intelectual, só é possível graças a este hábito de conhecer que chamamos de “memória intelectual”. É neste sentido que Agostinho fala que o intelecto se origina da memória, e é igual a ela; não porque a memória seja distinta do próprio intelecto, mas porque a memória é o próprio intelecto em sua dinâmica de saber e reter o conhecimento. É neste sentido que Agostinho fala que a memória é igual ao intelecto: não no sentido de que são duas coisas distintas que podem ser comparadas, mas no sentido de que são a mesma coisa, em aspectos diferentes de sua dinâmica.

3. Conclusão.

A alma intelectual aprende, e ao aprender torna-se virtuosa, ou seja, dotada do conhecimento habitual que pode ser tornado atual a qualquer momento. É neste sentido que falamos em memória espiritual, ou intelectual, como independente de atividade corporal.

No próximo texto veremos a relação entre o intelecto e a razão (ou raciocínio).