meus queridos leitores, peço licença das nossas leituras de Tomás para compartilhar uma pequena meditação sobre a Semana Santa, que agora se inicia.
Um pouco de filosofia, um pouco de história, mas não posso evitar incluir algo de mistérico. Ou melhor, mistagógico. Já que, como já disse um sábio que admiro, o mistério não é aquilo que não conseguimos conhecer, mas aquilo que, mesmo se dando ao conhecimento, jamais se deixa dominar ou esgotar.
Talvez poucas vezes alguém tenha expressado de modo mais profundo, existencial e verdadeiro o espírito daquela sexta-feira da paixão, cujo feriado viveremos esta semana, do que Nietzsche. Sentindo todo o peso da humanidade naquele momento, ele diz:
“Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então”
– Nietzsche, Gaia Ciência, §125
Nietzsche sentiu, como poucos, o peso da morte de Deus. Aquilo que os Evangelhos descrevem quase burocraticamente, sem carregar tintas sensacionalistas, ele descreveu de um modo agudamente existencial, emotivo, com palavras fortes, capazes de nos interpelar muito profundamente, a nós que vivemos aquilo que Pascal chama de “divertissement”, uma vida perdida no entretenimento e na distração. Diz Nietzsche:
“O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ’em cima’ e ’embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã?”
– Nietzsche, A Gaia Ciência, §125
Mas há algo a mais para considerar: algo ocorreu na madrugada daquele primeiro dia da semana seguinte; algo tão profundamente miraculoso que, examinando fenomenologicamente, fica ainda mais impressionante a cada dia que passa: começou-se a anunciar um evento na história. Uma única palavra, uma palavra grega: “egerthè”! Ele foi erguido!
Este anúncio provocou a tortura e morte dos seus primeiros doze discípulos, além de tantos outros que não somente alegavam ter visto pessoalmente este fato, como um certo fariseu de Tarso chamado Paulo, executado à espada em Roma por volta do ano 67 da nossa era, quanto de milhares, milhões mesmo de outros que, até nossos dias, preferem morrer a negar seu testemunho.
Não foi à toa que justo naqueles dias o termo jurídico “mártir”, que até então designava apenas alguém que depunha sobre algum fato em juízo, tornou-se sinônimo de aceitar morrer em vez de negar este simples fato, o “egerthè”. O mártir testemunha o egerthè com sua própria vida… simplesmente porque, tendo sido interpelado por esse que foi levantado, sabe que a morte não teve a última palavra, naquele evento histórico. Nem terá, a cada vez que alguém for morto para proclamar a mesma coisa.
De lá para cá, o pequeno grupo multiplicou-se, contra todos os cálculos e probabilidades. Nenhum dos impérios, países, grupos, associações ou culturas existentes então chegou a nossos dias, senão justamente aquele grupo das testemunhas, mártires do “egerthè”.
Peçamos ajuda a David Hume, para termos um critério de discernimento a respeito deste dilema. Diz Hume:
[…] não há testemunho suficiente para fundamentar um milagre, a menos que o testemunho seja tal que sua falsidade seria ainda mais miraculosa que o fato que pretende estabelecer […]. Peso um milagre contra o outro e, de acordo com a superioridade que descubro, pronuncio minha decisão e rejeito sempre o milagre maior. (HUME, Ensaio sobre o Entendimento Humano, pag. 115).
Rejeitar o milagre maior. Qual seria o milagre maior? Que aquele domingo não aconteceu? Que tantos deram e continuam dando falsos testemunhos a preço da vida, sem ANPP ou delação premiada, de um fato cuja realidade intra-histórica faz tudo depender de um único homem, num único dia, num pequeno recanto de um povo pobre? Estes mártires seriam a ORCRIM mais perfeita jamais construída sobre uma mentira?
Ou será que de fato houve aquela ressurreição, testemunhada com o sangue de quem não a pode negar, simplesmente porque aconteceu?
Modestamente, ouso propor que o milagre maior seria um concerto, uma conspiração sobre uma mentira, prolongando-se por dois mil anos, pela qual as testemunhas aceitaram e aceitam morrer só para nos enganar acerca da alegria, deixando-nos iludidos num universo cujo fundo é só a irremediável morte de Deus proclamada por Nietzsche.
Mas Nietzche não rejeitou o domingo por ser algo mau. Ele foi o profeta da mediocridade: tudo isto não poderia existir, porque simplesmente seria bom demais para ser verdade. Ele simplesmente prefere defender que não seríamos dignos de tal maravilha. E para isto, acaba admitindo um mlagre, creio, ainda maior e mais improvável.
Prefiro crer no milagre mais simples: não éramos dignos de fato… mas Ele ressuscitou!
Feliz Semana Santa!
2 de maio de 2022 at 22:45
Feliz Páscoa a todos!
Cristo ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou. Aleluia!
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