1. Introdução.
O ser humano foi definido, desde tempos antigos, como um animal racional. Mas, se a racionalidade é o traço específico do ser humano, de tal modo que determina mesmo sua humanidade, então não teríamos que dizer que a inteligência é a própria essência do ser humano?
Esta é uma pergunta válida. E que ocorre em todos os tempos. Mas sua resposta tem uma consequência prática enorme: se a inteligência é a própria essência humana, então as pessoas mais inteligentes são mais humanas, e portanto mais dignas; as menos inteligentes seriam menos dignas, e as que não usam de modo nenhum a inteligência, como os que estão em coma irreversível, os embriões e as pessoas com deficiências severas na área neurológica ou psiquiátrica, sequer manifestariam humanidade. Eis a importância deste artigo: de certa forma, estabelecer se a dignidade de ser humano está localizada na inteligência, ou se a inteligência é apenas uma capacidade que decorre desta necessidade, ainda que como acidente próprio? Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida propõe justamente que a inteligência não é apenas uma característica da alma humana, uma capacidade que se apresenta como uma potência própria, mas é a própria alma humana em sua essência: a inteligência não é um acidente próprio da humanidade, mas seria a própria humanidade naquilo que ela tem de mais essencial, propõe a hipótese. Há quatro argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento diz que a mente e o intelecto são, aparentemente, a mesma coisa. Ora, prossegue o argumento, a alma intelectiva é a própria mente. Não é que a mente seja uma capacidade da alma intelectual, mas ela é a própria alma intelectiva em sua essência. É por isto que Agostinho, no seu livro sobre a Trindade, diz que “mente e espírito não são coisas relativas [entre si], mas designam a própria essência”. Assim, o argumento conclui que a inteligência não é apenas uma capacidade, mas a própria essência da alma humana.
O segundo argumento objetor.
Quando há muitos gêneros de potências ou capacidades em alguma coisa, eles se unificam em razão da própria unidade da essência. Assim, por exemplo, os sentidos externos e os sentidos internos são reunidos pela própria essência da alma sensitiva; quando, digamos, um cão cheira, vê, lembra e estima, é a sua essência canina que realiza estas capacidades.
Assim, as capacidades intelectuais, que são a intelecção ou capacidade de conhecimento intelectual, por um lado, e a volição (vontade), que é o apetite intelectual, unificam-se no ser humano pela sua mente, que não é outra coisa que a própria alma intelectiva. Esta, que é a mente humana, reúne em si a inteligência e a vontade, como diz Santo Agostinho na obra sobre a Trindade. Ora, disto tudo o argumento conclui que a mente, ou intelecto, não é apenas capacidades humanas, mas a própria essência da alma intelectual humana.
O terceiro argumento objetor.
São Gregório, o grande Papa, diz, nas suas Homilias sobre a Ascensão, que o ser humano intelige de modo similar àquele pelo qual os próprios anjos inteligem. Ora, os anjos são chamados também de “mentes” ou “intelectos”, o que demonstra que eles são, essencialmente, a sua própria inteligência. Logo, se os seres humanos são análogos, então também devemos considerar que a nossa mente é a nossa essência mesma, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
A inteligência, lembra o argumento, é necessariamente algo imaterial. Lida com informações universais, conhecimento reflexivo, tudo isto que representa a imaterialidade do saber. Ora, a alma humana é imaterial, como a inteligência. E é imaterial por essência. Logo, também é inteligente por essência, conclui o argumento, afirmando que a inteligência não é apenas uma capacidade ou potência humana, mas a própria essência da alma humana.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita o Filósofo (Aristóteles), que, no Livro II da obra Sobre a Alma, afirma expressamente que a intelecção é uma potência ou capacidade da alma; logo, ela não pode ser a própria essência da alma humana, conclui este argumento.
5. A resposta sintetizadora de Tomás.
Na sua resposta sintetizadora, Tomás inicia afirmando, de modo bem firme, que a inteligência humana não é a própria essência humana, mas uma das potências de nossa alma.
A essência, como Tomás nos ensina, é aquilo pelo qual alguma coisa existe assim como ela é. Ora, uma coisa, em nós, é o nosso existir. Outra, diferente, é o nosso operar. É preciso que a criatura exista, para que ela possa operar. Por isto, em nós, a essência precede a existência, e esta precede a operação. Somente em Deus a essência, o existir e o operar são perfeitamente coincidentes: não há uma essência divina que, um dia, tenha entrado em existência para em seguir operar, como acontece nas criaturas. Deus é, ele existe e ele opera de modo coincidente. Mas em nós, criaturas, estes três fatores têm uma ordem cronológica e lógica. A essência humana precede a operação da nossa inteligência. Inteligir é uma potência, uma capacidade que o ser humano pode, até mesmo, não apresentar, acidentalmente, sem que deixe de ser, de existir, quando está, por exemplo, em estado de coma.
Assim, como o ser humano precisa ser, ou seja, deve existir para conseguir inteligir, fica claro que inteligir é um ato cuja potência é uma das capacidades humanas, e não sua própria essência. É uma capacidade própria, decorrente diretamente da própria essência, mas não é a própria essência. O ser humano existe como ser humano por ter em si uma essência humana, que lhe dá igual dignidade que todos os outros seres humanos, independentemente do grau ou do exercício da sua inteligência. Esta é uma afirmação que deve sempre ser repetida, para evitar associar a dignidade ao exercício da inteligência, ou imaginar que alguém é mais humano por ser mais inteligente.
6. A resposta de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
Colocados, na resposta sintetizadora, os princípios para orientar a solução do debate, Tomás passará a reexaminar os argumentos objetores iniciais, como veremos a seguir.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor traz a citação de Agostinho, pela qual quer provar que a inteligência é a própria mente, e esta nada mais é do que a própria alma humana. Com isto, o argumento quer defender que a inteligência é a própria essência humana.
A resposta de Tomás.
A resposta de Tomás vai trazer de volta, para tornar mais clara a nossa compreensão, a própria noção de sensibilidade, ou seja, as capacidades sensórias da alma humana. Algumas vezes, quando tratamos da estrutura do ser humano, falamos dos sentidos como capacidades da esfera que, na alma humana, é chamada de alma sensorial ou sensitiva; Outras vezes, quando falamos nestes sentidos, estamos nos referindo à própria alma, em sua esfera sensorial, quando, por exemplo, dizemos, de alguém desacordado que ele “perdeu os sentidos”. Neste caso, falamos dos sentidos não apenas como capacidades, mas como parte da própria estrutura existencial humana.
De modo similar, às vezes nos referimos à capacidade intelectiva, ou intelecto, como uma capacidade humana; outras vezes, falamos de intelecto para designar a própria alma humana pelo nome de sua capacidade mais importante, e por isto parecemos equiparar a essência humana à nossa mente; mas isto é um modo de falar que representa uma figura de linguagem, não a própria realidade da estrutura humana. É assim que Agostinho fala, quando diz que a nossa mente é a nossa essência.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento quer defender que a mente é aquilo que unifica, em nós, a inteligência e a vontade; ora, diz o argumento, o que unifica as capacidades é a própria essência, diz o argumento, citando Agostinho. Logo, se é a mente que unifica, em nós, a inteligência e a vontade, então ela é nossa essência mesma, e não apenas uma de nossas capacidades.
A resposta de Tomás.
O apetite humano (no sentido filosófico do termo), considerado como o resultado das inclinações do nosso ser, ou seja, como aquela inclinação resultante em nós, e que nos encaminha ao bem que percebemos, é o resultado de uma avaliação dos estímulos que recebemos por meio de nossos sentidos e de nossa inteligência; portanto, as inclinações humanas não são puramente decorrentes nem da nossa inteligência, nem dos nossos sentidos, simplesmente. Eis porque ela não é uma capacidade puramente intelectual, mental, que pudesse compor uma mente substancialmente isolada da corporeidade. Queremos o que nos interpela, sensivelmente ou intelectualmente. Assim, não podemos simplesmente dizer que o ser humano é, essencialmente, uma mente que guarda em si uma inteligência e uma vontade puramente intelectuais; somos um conjunto unitário de diversas capacidades corporais e mentais. Portanto, não podemos simplesmente equiparar nossa mente com nossa essência, como faz o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento parte de uma citação de São Gregório, que equipara a inteligência humana à inteligência angélica, para afirmar que, do mesmo modo que os anjos são chamados de “mentes” ou “inteligências” porque, neles, a inteligência é a própria essência. Se os humanos são similares aos anjos neste aspecto, então também em nós a mente é a própria essência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos são inteligências espirituais, puras formas desprovidas de corporeidade, de sensibilidade ou mesmo de vida biológica. Assim, faz sentido chamá-los de “inteligências” ou “mentes”, haja vista serem estas as únicas capacidades que têm, as intelectuais. Mas as almas humanas, ou melhor, os seres humanos têm funções biológicas (vegetativas), sensoriais, psicológicas e sensoriais. Assim, não faz sentido imaginar que pudéssemos ser chamados de “mentes” ou “inteligências”; não há, portanto, paralelismo entre nós e os anjos, neste ponto.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento diz que é próprio da inteligência ser imaterial; ora, a alma humana é, essencialmente, imaterial. Logo, conclui o argumento, ela é essencialmente inteligente.
A resposta de Tomás.
Há um erro de lógica neste raciocínio. De fato, é por ser imaterial que a alma humana pode ser inteligente; mas isto não significa que ela se identifique, puramente, com sua inteligência, como se sua essência mesma fosse a inteligência. A inteligência é, portanto, uma capacidade, uma potência que a alma humana pode ter, por ser imaterial. Mas a alma humana é muito mais do que sua inteligência.
7. Conclusão.
Esta questão é longa e importantíssima. Apenas começamos a estudar a inteligência humana. Vamos caminhar bastante!
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