1. Breve retomada.

Vimos, então, os três primeiros argumentos objetores e suas respostas. Veremos, agora, os três últimos.

2. Os três últimos argumentos objetores e suas respostas.

O quarto argumento objetor.

Não há nada no intelecto que não tenha passado pelos sentidos, diz um velho provérbio filosófico. Ele é tão verdadeiro, diz o argumento, que Aristóteles costumava dizer que àquele que falta um sentido, falta também todo um conjunto de conhecimentos intelectuais. Isto é verdade: alguém que não enxerga não pode conhecer diretamente as cores, mesmo que alguém as descreva para ele.

Ora, se a capacidade intelectual que é tão distante dos sentidos externos em sua natureza, depende tanto assim das atividades destas potências, muito mais deveriam depender os chamados “sentidos internos”, que, sendo capacidades da esfera sensorial, estão muito mais próximos dos sentidos externos do que a inteligência.

Assim, conceber a existência de um sentido interno que consegue ultrapassar a capacidade dos sentidos externos, de modo a calcular os acontecimentos futuros a partir de dados recebidos, como é o caso do suposto “sentido estimativo”, seria dar a tal sentido uma autonomia maior, com relação aos sentidos externos, do que a própria autonomia da inteligência. Assim, conclui o argumento, não se pode admitir a existência de um sentido interno caracterizado por uma capacidade sensorial de estimativa.

A resposta de Tomás.

É verdade que a operação do intelecto nasce dos sentidos. Nada há naturalmente no intelecto que não haja passado pelos sentidos. Isto é verdade. Mas isto não significa que o conhecimento intelectual seja igual ao conhecimento sensorial; na verdade, o conhecimento intelectual supera muito, em profundidade, o conhecimento sensorial, porque é capaz de perquirir e alcançar causas universais, aspectos imateriais, que as capacidades sensoriais, especialmente os sentidos externos, não são capazes de perceber. Assim, há um ganho de profundidade e de escopo, quando os dados sensoriais são recebidos, organizados e analisados pela inteligência.

Ora, cada fase do conhecimento implica um acréscimo de profundidade e de escopo, mesmo ainda na fase sensorial. Assim, o conhecimento sensorial estimativo, embora muito mais próximo dos sentidos externos do que a inteligência, também representa um ganho de profundidade e de escopo nos dados sensoriais obtidos pelos sentidos externos, embora não tão intenso quanto aquele do conhecimento intelectual.

Assim, o chamado sentido estimativo torna o ente capaz de calcular e até prever o comportamento de uma presa ou de um atacante, ou mesmo de um filhote ou de outro ser com o qual se relacione, a partir dos dados sensoriais obtidos pelos sentidos externos, aumentando a qualidade e a profundidade dos conhecimentos sensoriais. Por isto, diz Tomás, o sentido estimativo tem alguma semelhança, embora remota, com a inteligência humana.

O quinto argumento objetor.

Há, em nós, uma capacidade cogitativa, que é a capacidade humana de comparar, compor, afirmar e negar, ou seja, julgar as características e circunstâncias dos dados sensoriais recebidos pelos sentidos externos. Há, também uma característica que é própria da reminiscência humana, que é a capacidade de investigar e deduzir a partir dos dados sensíveis armazenados, de modo a poder extrair deles aspectos e circunstâncias que, num primeiro momento, não foram percebidos adequadamente.

Ora, esta capacidade de cogitação é uma capacidade sensorial, e é uma capacidade especificamente humana. Também a capacidade de reminiscência investigativaé sensorial, e é humana. Estas capacidades espelham, no ser humano, as capacidades animais de estimativa e de memória (lembrança concreta) que são, no entanto, muito distantes daquelas. Assim, a cogitativa seria um tipo de estimativa propriamente humana, como a reminiscência seria um tipo de memória concreta especificamente humana.

Ora, os animais têm estimativa e têm imaginação. Mas a estimativa, nos animais, está tão distante da imaginação (aquela capacidade de compor imagens concretas a partir dos dados externos) quanto a cogitativa e a reminiscência humanas estão longe da estimativa e da memória animal.

Assim, ficaríamos, segundo o argumento, com duas alternativas:

1. Ou consideramos que a cogitativa e a reminiscência humanas são capacidades sensoriais completamente diversas da estimativa e da memória concreta dos demais animais, ou

2. Não consideramos que a capacidade de relembrar e de estimar, nos animais, sejam alguma coisa diferente da própria capacidade de imaginação, neles.

E assim o argumento conclui que a cogitativa e a reminiscência não podem ser equivalentes, nos seres humanos, à estimativa e à memória concreta, nos animais.

A resposta de Tomás.

Há, de fato, uma grande vantagem, no ser humano, em certas capacidades sensoriais internas, dá-se pela proximidade que estas capacidades têm com a inteligência, que, de certo modo, influencia nelas. O ser humano é um ser unitário, e, portanto, a sua capacidade que, nos animais, é chamada de “estimativa”, em nós adquire a dimensão cogitativa, sem deixar de ser a mesma capacidade animal, como que “turbinada” pela nossa inteligência. Do mesmo modo a memória concreta, nos seres humanos, adquire uma dimensão de reminiscência investigativa, tão explorada em romances policiais, sem deixar de ser a mesma capacidade que, nos animais, é apenas memória concreta. Assim, não são outras capacidades, mas são as mesmas, que os animais em geral exercem sem influência da razão, e, em nós, interligam-se a ela mais proximamente.

O sexto argumento objetor.

O sexto argumento objetor vai citar Santo Agostinho. Este santo, no seu Comentário ao Gênesis, classificando os chamados “modos humanos de ver”, diz que há três tipos, de visão, em nós: a visão física, dos olhos; a visão espiritual, da imaginação, e a visão intelectual, da nossa inteligência. Assim, prossegue o argumento, haveria apenas um sentido interno, entre o enxergar físico e o conhecimento intelectual, que seria a imaginação, conclui.

A resposta de Tomás.

Tomás diz que a preocupação de Agostinho, no trecho citado, não é a de fornecer alguma classificação da capacidade sensível interna, mas de explicar a capacidade que temos de formar mentalmente a imagem de alguma coisa, mesmo na ausência do respectivo contato físico. Assim, ele cita a capacidade de ver pela imaginação e a capacidade de ver intelectualmente, como espécies da capacidade de ver espiritualmente. Portanto, isto não determina o número de sentidos internos.

3. Concluindo.

Estudados os sentidos externos e internos, terminamos o estudo da parte sensível do ser humano. A partir do próximo texto, veremos as capacidades propriamente intelectuais do ser humano.