1. Palavras de retomada.

Vimos, então, no texto anterior, duas maneiras de classificar as potências ou capacidades humanas: 1) A primeira forma de classificar é pelo que elas têm de comum com os outros seres vivos, o que nos dá três grupos ou conjuntos de potências (o vegetativo, em comum com os vegetais, o sensitivo, em comum com os animais, e o intelectivo), que a antiguidade costumava chamar de “as três almas”;

2) A segunda forma é pelo objeto da potência, ou seja, elas dividem-se em quatro conjuntos conforme:

2.1) O objeto da potência seja o próprio ente, em sua corporeidade, (coincidindo com as vegetativas), ou

2.2) O objeto for algum aspecto de outros entes, mas algum aspecto empírico, em razão de suas características concretas, corporais, empíricas (coincidindo com as potências sensitivas), ou

2.3) O objeto envolver a capacidade de abstrair dos outros entes suas razões abstratas, universais (as potências intelectivas);

2.4) Se o objeto da potência inclinar o ente aos outros entes (quer por inclinação instintiva, quer por inclinação racional). São as potências apetitivas.

Agora, examinaremos a terceira classificação, que tem por fundamento o modo de viver das criaturas, prosseguindo no exame da resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

As potências quanto aos modos de viver.

A última e mais importante classificação das potências ou capacidades da alma é aquela que as classifica quanto ao modo de viver, e que reflete a riqueza da vida, em todos os seus aspectos. Ela deixa muito evidente o fato de que o ser humano é, de fato, a expressão de todas as capacidades da vida que se apresentam dispersas pelas criaturas inferiores. São, nesta classificação, quatro conjuntos de capacidades, agrupadas pelo modo de viver. Os conjuntos são os seguintes:

1. O modo de viver dos vegetais, ou capacidades vegetativas. São aquelas capacidades ou potências que envolvem apenas a manutenção, desenvolvimento e transmissão da vida do ente, sem relacioná-lo ao ambiente. São, pois, capacidades, digamos, internas, básicas, fundamentais, relacionadas apenas com o próprio ente, com seu corpo mesmo. São potências como a capacidade de nutrição, de crescimento, de reprodução, de respiração, por exemplo.

2. O modo de viver dos animais inferiores, que são dotados de alguma capacidade sensorial, mas não têm capacidade de locomoção. Estariam aqui seres como as ostras e as esponjas, que podem ter órgãos de sentido, mas não são capazes de locomoção.

3. O modo de viver dos animais superiores, dotados da plenitude dos órgãos sensoriais e da capacidade de locomoção. Mas desprovidos da inteligência.

4. O ser humano, que tem as funções vegetativas, as sensoriais, a capacidade de locomoção e a inteligência.

Nesta classificação, que considera o modo de viver, não há um conjunto separado de capacidades apetitivas, porque cada grau da vida apresenta seus próprios apetites, e portanto não há como distinguir os modos de viver em razão dos respectivos apetites. Dentro de cada conjunto de modos de viver já se incluem as respectivas potências apetitivas.

Portanto, no final, ficaríamos com cinco conjuntos, se considerarmos que as potências apetitivas formam um conjunto à parte, ou com quatro, se as incluirmos nos conjuntos que reúnem as respectivas capacidades sensoriais e intelectivas. Assim, os instintos estariam incluídos no conjunto das capacidades sensitivas e a vontade estaria incluída no conjunto das capacidades intelectivas, se considerarmos a existência de apenas quatro conjuntos. Mas, se considerarmos que as potências apetitivas formam um conjunto à parte, colocaríamos, dentro dele, as inclinações instintivas e a vontade.

3. As respostas aos argumentos objetores iniciais.

Os dois primeiros argumentos objetores, diz Tomás, ficam respondidos pelo próprio conteúdo da resposta sintetizadora.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento alega que as potências do ser humano são tradicionalmente consideradas como partes da alma, ou como esferas da alma. Ora, diz o argumento, sempre se considerou que havia três almas, ou partes da alma: a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva. Logo, não há cinco, mas três conjuntos de potências humanas, as vegetativas, as sensitivas e as intelectivas, conclui o argumento.

Ora, a resposta sintetizadora, demonstrou que esta é apenas uma das maneiras de classificar as potências da alma; há outras duas maneiras; aquela que usa como critério o objeto da potência, e aquela outra que usa o modo de viver do respectivo ente. Combinados os três critérios, há, de fato cinco conjuntos de potências humanas.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor usa o critério do modo de viver, para dizer que há quatro, e não cinco, conjuntos de potências humanas: as vegetativas, as sensitivas, as intelectivas e as de locomoção. Assim, diz o argumento, as potências apetitivas (que incluem as instintivas e as da vontade) estariam incluídas no conjunto das sensitivas e das intelectivas, não formando um conjunto à parte, conclui o argumento.

A resposta sintetizadora, mais uma vez, demonstra que há mais de uma maneira de classificar as potências; somando-se todos os conjuntos formados, são, de fato, cinco; e é este grupo de cinco potências que consideraremos, no nosso estudo antropológico.

4. Encerrando.

No próximo texto estudaremos as últimas duas objeções.