1. Retomando.
Não é fácil classificar as potências humanas, inclusive levando-se em conta de que toda classificação é muito mais pedagógica do que ontológica. O ser humano é uma unidade, e não há, dentro dele, algo como botões para acionar distintamente esta ou aquela capacidade, de maneira autônoma. As potências humanas estão fortemente correlacionadas, como seria de esperar num ente que é composto, mas é uno. Mas há uma enorme importância nesta classificação: ela será o fundamento para a ética, ou seja, para a perfectibilidade do ser humano. Saber qual a hierarquia das capacidades humanas, qual a sua ordem, é importantíssimo para saber como organizá-las. Assim, vamos acompanhar a lição de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Não há apenas uma maneira de classificar as capacidades da alma. A depender do critério, podem existir três maneiras fundamentais:
1. Se organizamos as potências por seus gêneros, são cinco os gêneros de potências ou capacidades que o ser humano apresenta, a saber, vegetativas, sensitivas, apetitivas, deambulatórias (capacidades de locomoção) e intelectivas.
2. Se pensarmos nas capacidades que compartilhamos com outros tipos de seres vivos, podemos pensar em três esferas ou “tipos de almas”; com os vegetais, compartilhamos as atividades vegetativas, como a alimentação, o crescimento e a reprodução. Estas são, portanto, características da “alma vegetativa”, isto é, daquilo que todos os seres vivos, incluídos os vegetais, compartilham.
3. Quanto ao modo de viver, as capacidades podem ser classificadas em quatro níveis. De fato, há os seres que apresentam a vida em seu grau mínimo, apenas com as funções vegetativas. Há outros seres que apresentam, além disso, sensibilidade exterior em grau mais alto, ou órgãos dos sentidos. São as funções sensoriais ou sensitivas. Há seres, ainda, que, além destas capacidades, conseguem mover-se localmente para a finte dos seus estímulos; esta seria, por exemplo, a diferença entre uma ostra, que tem órgãos dos sentidos mas não tem capacidade de movimentação autônoma, para um camarão, que é capaz de mover-se por suas próprias pernas. Por fim, há as funções intelectivas, que são exclusivas da espécie humana.
Agora examinaremos, com Tomás, cada um destes modos de classificação das capacidades ou potências humanas. Tomás as classificará pelo grau com que elas superam a simples corporeidade inanimada dos entes que não são vivos.
As três esferas da vida ou as três “almas”.
Desde há muito tempo, a humanidade percebeu que a vida é um fenômeno que compartilhamos com muitos seres; na verdade, há todo um reino de seres vivos, caracterizados pelo fato de que sua estrutura é animada (de anima, alma, em oposição às formas inanimadas).
A humanidade observou, também, que nem todas as funções da vida são igualmente compartilhadas por todos os seres vivos. Assim, surgiu a primeira classificação da vida em três esferas, ou três almas.
Precisamos lembrar que a noção de alma designa simplesmente a estrutura formal de um ser vivo. Ora, os seres vivos mais fundamentais são os vegetais. Os vegetais não apresentam uma vida muito aparente; distanciam-se pouco, portanto, dos seres inanimados. Nascem, crescem, reproduzem-se, nutrem-se e morrem. Têm pouca capacidade de interação com o ambiente. Por isto, a alma que tem apenas as mesmas funções que os vegetais apresentam é chamada de alma vegetativa. Ainda hoje, usamos esta noção de alma vegetativa para descrever, por exemplo, o estado de alguém que está numa condição de coma profundo, sem sentidos e sem consciência, reduzido apenas às funções vitais mais elementares.
Observou-se, em seguida, que havia um outro nível de funções, aquelas que permitem uma grande interação com o ambiente: as funções da sensibilidade, que envolvem a existência de órgãos dos sentidos. Esta esfera não é compartilhada pelos vegetais, mas une todos os animais. Assim, aqueles dotados destas funções da sensibilidade foram chamados de “seres com alma sensorial”; acreditava-se que os seres deste tipo eram dotados de duas almas: a alma vegetativa, que lhes possibilitava as atividades mais fundamentais, compartilhadas entre vegetais e animais, e a alma sensorial ou sensitiva, própria dos animais.
Mas os animais não conseguem refletir. Vivem uma vida concreta, imediata, condicionada ao aqui e agora, condicionada ao movimento instintivo. Logo se percebeu que é próprio do ser humano pensar fora das coordenadas de tempo e lugar e refletir sobre sua própria condição, desejar aquilo que não atrai os sentidos mas é percebido como bom e conhecer o fato de que vai morrer. A esta capacidade de reflexão deu-se o nome de alma intelectiva. Assim, surgiu a ideia de que nós, humanos, teríamos três almas, a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva, a primeira sendo mais fundamental e mais relacionada com a materialidade do nosso ser; a segunda, já demonstrando uma certa elevação, uma certa capacidade de relação com outro nível da matéria, aquela matéria que está para além do nosso ser. E, finalmente, o terceiro nível, com a capacidade de adentrar o mundo imaterial, abstrato, reflexivo, e portanto mais elevado.
Sabemos que não temos três almas, e já estudamos, com Tomás, que nossa alma é a estrutura fundamental que organiza nosso ser. Ela é única e una. Conservou-se, no entanto, o hábito de classificar todas as capacidades humanas em três almas, ou, melhor dizendo, em três níveis na alma: o nível vegetativo, o sensitivo e o intelectivo. Esta classificação está fundamentada, pois, naquilo que compartilhamos com os outros seres vivos.
Os quatro níveis de potências quanto aos seus objetos.
O segundo modo de classificar as potências humanas é quanto ao seu objeto. De fato, diz Tomás, as potências humanas têm objetos, e estes objetos podem determinar uma classificação destas potências em conjuntos.
As potências, com relação aos objetos, classificam-se desde as mais simples e fundamentais, que dizem respeito apenas ao próprio ser, em sua individualidade e em sua existência própria, até aquelas potências que estão mais desvinculadas da concretude do mundo, e têm por objeto aquilo que é abstrato e imaterial. Assim, são quatro conjuntos de potências, classificadas a partir de seus objetos:
1. As potências cujo objeto é a própria existência, crescimento e reprodução do ente. Estas potências são aquelas que, na outra classificação, chamamos de vegetativas. Elas têm por objeto o próprio ente, dirigem-se à sua estrutura intrínseca, não envolvem nenhum outro ente além daquele que detém esta faculdade. O seu objeto, pois, é restrito e muito limitado, muito material; é o próprio corpo do ente, unido à sua alma. Envolvem a existência, a nutrição, a reprodução, o crescimento, a regeneração, enfim, estas potências fundamentais.
2. As potências cujo objeto é a relação com outros entes. Neste caso, há um asso adiante. Já não se trata apenas de potências fechadas em si mesmas, de manutenção da existência, mas potências de relação. O objeto, aqui, são as outras coisas com as quais o ente se depara. Mas estas outras coisas são objeto apenas em seus aspectos materiais, em sua realidade concreta e individual do aqui e agora, como se dão empiricamente aos órgãos dos sentidos. São, pois, aquelas potências que, na classificação anterior, relacionamos com a alma sensitiva. Aqui, o objeto já não é o corpo do próprio ente, mas outro corpo, com o qual o ente se relaciona. Mas este tipo de potência tem por objeto apenas a materialidade do outro corpo, e é incapaz de abstrair, de chegar às razões abstratas, universais, das coisas.
3. As potências cujo objeto é o outro, sob sua razão abstrata, universal, reflexiva, ou seja, a partir de um ponto de vista mais amplo, menos material e mais propriamente inteligente. Estas são as potências intelectivas, as mais elevadas, porque conseguem estabelecer relações sob a razão universal, e não apenas sob a concretude corporal.
4. Por fim, há as potências apetitivas, que são aquelas potências que inclinam o ente ao objeto. Neste, o objeto se coloca, para o ente, como um fim, que o move. Assim o vegetal se inclina naturalmente para o lado que tem mais luz, porque suas atividades vegetativas são estimuladas por esta fonte de energia, fazendo com que seu corpo cresça mais nesta direção. O animal inclina-se naturalmente, por instinto, para aquilo que ele vê como apetitoso para a sua fome ou desejável para saciar sua sede. O ser humano inclina-se, além disso, para aquilo que sua inteligência percebe como bom.
3. Encerrando.
O texto ficou longo. Assim, no próximo texto, examinaremos a última e mais importante das classificações, aquela que reúne as potências pelo modo de viver dos entes, e que nos dá os cinco conjuntos de potência que são objeto deste artigo.
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