1. Voltando ao tema.
O que acontece depois da morte permanece um mistério. E permanecerá para sempre. Por definição, a morte rompe todas as relações humanas, portanto não é uma experiência que alguém possa controlar ou relatar em primeira mão. Por outro lado, aquilo que opera sem a matéria não deixa de operar se a matéria deixar de existir; podemos ver um reflexo disso, analogicamente, na chamada “computação na nuvem”, ou cloud computing. Os programas e informações que se relacionam com o meu computador pessoal não estão apenas na sua memória interna, mas estão na internet, em algum servidor remoto. Assim, mesmo que o meu computador pessoal deixe de funcionar por qualquer razão, os dados e programas que operam independentemente dele serão preservados, e continuarão a existir.
É claro que computadores não têm alma, e toda analogia é defeituosa em muitos sentidos. Mas o ponto que quero demonstrar aqui é que aquelas operações da alma que não dependem do corpo para acontecer podem continuar a operar, mesmo que o corpo seja destruído.
E como defender que há, no ser humano, alguma operação que independe da matéria, do corpo, para ocorrer? Simples, toda operação que está vinculada à matéria não pode ser reflexiva, porque a matéria não pode refletir sobre si mesma. Dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e, portanto, duas partes de um corpo não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Mas as coisas exclusivamente espirituais, formais, não têm este limite. O que isto quer dizer?
Tomemos a operação da visão. O sistema ocular não pode ver a si mesmo. Porque ele é um sistema que opera por meios materiais: lentes, receptores, nervos, frequências, ondas, tudo isto é material. Assim, para que o olho pudesse ver a si mesmo seria necessário que ele se curvasse sobre si mesmo, o que é impossível. Mas o pensamento pode se observar pensando, e isto é muito comum em nossa mente. Podemos refletir sobre nossos pensamentos, podemos perceber que estamos com a mente inquieta, podemos perceber que estivemos distraídos e até podemos censurar nossos próprios pensamentos. Isto indica que nossos pensamentos não são materiais, porque dois pensamentos podem ocupar o mesmo espaço, em nós, ao mesmo tempo. E se eles existem para além da matéria, podem continuar operando mesmo que a matéria seja destruída, de modo análogo, para fazer uma comparação imperfeita, àquele pelo qual o software que está na rede pode continuar operando mesmo que o terminal físico seja destruído. No caso da alma humana, não se trata de um “software em rede”, porque cada alma é individual. Mas se trata de um “software” que é maior do que o “hardware”, e relativamente independente dele; embora dependa dele para entrar na existência, pode continuar operando mesmo que o perca.
Após estas digressões, podemos e devemos examinar a resposta sintetizadora de Tomás. É claro que Tomás não sabia nada sobre internet e computadores, mas certamente a dualidade software e hardware não seria algo completamente estranho a ele. É análoga à dualidade de forma e matéria, com a qual ele descreve a relação entre o corpo e a alma. A diferença é que a alma, além de conter em si os sistemas operacionais e aplicativos do corpo, também contém o próprio projeto do corpo, suas estruturas e composição. Mas vamos à resposta de Tomás.
2. A resposta sintetizadora.
Nos artigos anteriores, que visitamos em tantos textos, já ficou bem claro que o princípio da dinâmica humana está na alma; ela explica a razão pela qual estamos vivos e, portanto, somos capazes de operar nossas capacidades. Assim, a alma humana, como princípio de dinamização do ser humano, é a raiz de todas as nossas potências.
Mas, além de ser a raiz e a causa principal de nossas potências, a alma é, também, de modo especial, o sujeito das potências intelectuais, ou seja, do intelecto e da vontade. Estas potências são reflexivas, como vimos na pequena introdução acima, e, portanto, operam para além da matéria, já que podem se curvar sobre si mesmas. Posso querer pensar um pensamento, posso pensar não querer uma vontade, posso me observar pensando, todas estas características demonstram a natureza estritamente espiritual dessas operações; são operações da alma, não vinculadas a este ou aquele órgão corporal. Assim, podem operar mesmo com a destruição do corpo, ensina Tomás. De modo análogo, mal comparando, àquele pelo qual um software remoto pode operar mesmo se o meu terminal for destruído.
Mas há outras operações humanas que dependem especificamente do corpo, porque estão ligadas a algum órgão ou sistema corporal, de tal modo que, destruído o órgão ou o sistema, a capacidade pode permanecer latente na alma, mas a sua operação não pode mais ocorrer. Pensemos em alguém que teve os olhos destruídos num acidente: ele já não pode ver, atualmente; mas, caso a ciência venha a desenvolver algum sistema de visão artificial e o implante no sujeito, ele seria capaz de ver de novo, já que a própria capacidade de ver, potencialmente, está na sua alma, embora a capacidade atual de ver esteja no seu corpo. Portanto, após a morte, destruído o corpo, a alma mantém apenas uma capacidade potencial, virtual, de ver, mas já não pode enxergar de fato, porque não tem mais os olhos. Também não pode, por exemplo, comer ou respirar.
Assim, a condição da alma, após a morte, não permite o exercício atual das atividades da sensibilidade humana, como ver, ouvir, tatear ou saborear. Estas atividades sensoriais têm como sujeito o ente humano em sua composição de corpo e alma, e portanto, destruída esta composição, estas capacidades não podem mais operar. Estão errados, portanto, aqueles que ensinam que a alma separada, após a morte, mantém efetivamente a capacidade atual de realizar operações sensórias ou vegetativas. Mas o princípio dessas operações, a sua possibilidade de acontecer, ou seja, a virtualidade delas, encontra-se na alma separada, sem que ela tenha efetivamente condição para realizá-las. Elas só se realizam por meio do corpo, e não há mais corpo para realizá-las.
3. Palavras de encerramento.
Não podemos tomar a iniciativa de realizar relações humanas sem o nosso corpo. Não existe maneira pela qual um ser humano possa tomar a iniciativa de relacionar-se, seja com outro ser humano, seja com alguma coisa animada ou inanimada, sem seu corpo. A morte rompe toda relação humana. Mas não interrompe a identidade, consistente na inteligência e na vontade. Esta sobrevivência, consistente numa existência de pensamento e vontade mergulhada na mais absoluta solidão, no mais absoluto silêncio e na mais absoluta escuridão, não seria uma boa notícia de modo algum. Além disso, trata-se de uma situação que não pode ser interrompida nem finalizada: à alma separada não é possível morrer. Por isto, o ser humano sem corpo estaria mergulhado numa situação desesperadora; acrescente-se a isto o fato de que, nesta situação de absoluta passividade, a nossa existência estaria completamente vulnerável ao contato com seres espirituais, anjos, que não dependem de corpo para relacionar-se. Eles, portanto, podem relacionar-se conosco, mesmo que estejamos mortos; isto pode não ser uma boa notícia, já que nem todos os anjos são moralmente bons: alguns são perversamente corrompidos.
Há, portanto, apenas uma esperança: morrer em comunhão de amizade com Deus. Isto nos integra no corpo de Jesus Cristo e nos permite estabelecer, nele e por ele, todas as capacidades que perdemos pela morte, se vivermos eternamente para ele.
Também não podemos esquecer da ressurreição; isto é parte da esperança cristã. Mas não trataremos disto por agora.
26 de fevereiro de 2022 at 21:33
Absolutamente impressionante a capacidade de raciocínio lógico do Sr Paulo, a lógica muitas vezes nos faz sofrer, mas sempre encontramos em Jesus Cristo, um ponto de equilíbrio e última forma de salvação. Parabéns Sr Paulo.
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